Primeiro de uma série de artigos sobre a renovação da paróquia.
Sinal diversificado da presença de Deus no meio do Seu povo, reflexo de uma Igreja comunhão de pessoas com identidade e rosto próprio, a paróquia tem razões para se sentir fortemente interpelada. Primeiro artigo de uma série de textos sobre a paróquia em renovação.
O “Encontro de Madrid” constituiu a 28ª Semana de Teologia Pastoral e foi organizado pelo Instituto Superior de Pastoral da Universidade Pontifícia de Salamanca, com sede na cidade madrilena. Intitulou-se significativamente “às voltas com a paróquia” e, de facto, assim aconteceu. O programa apresentou lições magistrais, comunicações em mesas redondas, diálogos interpessoais, trabalho de grupos, assembleias de partilha e informação e tempos de oração e de celebração litúrgica.
Em todos estes “espaços”, surge a paró-quia como um arco-íris, sinal diversificado da presença de Deus no meio do Seu povo, reflexo de uma Igreja comunhão de pessoas com identidade e rosto próprio, amostra transparente do influxo recebido do contexto social em se que situa e da época histórica em que vive, garante de uma esperança que faz elevar o olhar e mobilizar as energias.
De facto, embora o “Encontro de Madrid” não tenha elaborado conclusões, deixou nos participantes a certeza de que a paróquia é necessária, embora insuficiente, de que a renovação operada fica muito aquém da exigida pelas mudanças em curso e que, tudo aponta nesse sentido, irão acentuar-se.
A paróquia tem razões para se sentir fortemente interpelada. Para ser fiel às suas origens semânticas, tem de se construir como unidade de vizinhança de residentes provisoriamente em território estrangeiro, porque demandam novas situações, peregrinando para futuros melhores. A esta exigência, junta-se o ser Igreja que se configura a partir da realidade envolvente: cidade e campo, basicamente. A organização e o funcionamento destes repercutem-se e moldam a instituição paroquial e, por sua vez, os dinamismos desta condicionam progressivamente aqueles.
Hoje, a evolução acelerou tremendamente. Vivemos numa situação-mudança e em mutação contínua, que se repercute sobretudo no estilo de vida, nas formas de comunicação e respectivas linguagens, nas pautas de valores que presidem à escala de prioridades pessoais, familiares e sociais, nos critérios que determinam as opções. A pessoa está mais entregue a si mesma, recorre à sua consciência subjectiva, relativiza a relação com os demais, sente-se detentora da sua verdade que não dispensa facilmente.
Esta plataforma de chegada é “rampa” de lançamento para novas fases em que tudo ficará “em jogo”, inclusivamente o valor e sentido da vida, a presença activa da Igreja nos espaços públicos e privados, a robustez da fé em cada pessoa e nas famílias, o direito à liberdade religiosa dos cidadãos sem restrições camufladas.
A paróquia, enquanto porção do povo de Deus, sente-se nesta complexidade e, lentamente, vai dando passos para compreender o que está em causa. Por vezes, faz-se porta-voz da necessidade de renovação dos serviços paroquiais; outras, vai mais longe e pede que seja a paróquia no seu conjunto que se renove.
Muitos leigos sentem que a “Igreja paroquial” é a que realmente existe no seu dia-a-dia, aquela que lhes facilita a relação com a comunidade, a que lhes proporciona a formação básica do ser cristão à maneira de discípulo de Jesus Cristo, a que revigora as suas forças para dar testemunho da esperança no mundo e evangelizar as realidades temporais, a que os acompanha, na “hora da verdade”, nos grandes acontecimentos da vida, sejam ou não ritos de passagem.
Por isso, a amam com espontaneidade natural, a questionam, quando não corresponde às suas expectativas, a desejam mais próxima dos espaços humanos onde a vida está comprometida, a querem ver renovada com a participação de todos, a não ser que alguém voluntariamente se exclua.
A necessidade de renovação é partilhada e assumida praticamente, por todos os responsáveis da Igreja. Não direi o mesmo em relação aos caminhos a percorrer e aos objectivos a alcançar. Aqui, nem sequer há “convergência estratégica”, porque, a avaliar pela prática pastoral, é diferente a compreensão da Igreja, da sua organização interna e da sua missão no mundo.
O presente e, ainda mais, o futuro da paróquia estão condicionados por esta visão de quem detém as maiores responsabilidades. As experiências “avulso” e isoladas já mostraram aonde se pode chegar, deixando a sensação de que os resultados não correspondem ao investimento feito como suporte à força renovadora do Espírito de Deus. A eficácia evangélica também se mede pelos frutos.
A necessidade de um processo que englobe todas as dimensões da vida humana e eclesial parece impor-se cada vez mais. De contrário, a distância psicológica e cultural com os nossos contemporâneos acentua-se e corremos o risco de servir cristãos que “seguem o seu caminho”, de dar resposta a perguntas que não nos são pedidas, de nos relacionarmos com pessoas que “não existem”, porque estão noutra onda.
Vencer a distância, superar o risco, criar comunhão, diversificar serviços, fazer da paróquia “casa comum” sempre aberta a todos, embora não seja para tudo, lançar pontes de contacto e de comunhão com outras realidades eclesiais, constituem desafios a enfrentar, apoiados nas experiências feitas e no desejo sincero de libertar a criatividade nesta hora histórica que vivemos.
