À Luz da Palavra – 7º Domingo do Tempo Comum – Ano C A liturgia deste domingo coloca diante de nós dois modos de pensar e de agir, duas lógicas opostas, e conduz-nos a fazer a nossa pessoal opção. A segunda leitura pode ser a chave para lermos e interiorizarmos as outras duas leituras.
Na segunda leitura, Paulo apresenta-nos os dois “Adão”. O primeiro, nascido segundo a lei natural, é terreno; o segundo, nascido de Deus, é celeste. O primeiro “Adão” refere-se à geração dos homens e mulheres à qual todos nós pertencemos. O segundo “Adão” refere-se a Jesus Cristo, do qual nós fazemos parte na ordem da graça. O autor da carta termina, convidando-nos a “trazer em nós a imagem do homem celeste”, isto é, a imagem de Cristo, que revestimos pelo nosso Baptismo.
Na primeira leitura, encontramos estes dois tipos de “homem”. O episódio narrado passa-se num campo de batalha, cujo protagonista é Saul, rei de Israel. De noite, enquanto o exército dormia, David e Abisaí encontram-se diante de Saul, que também dorme, com a lança cravada em terra. Estes dois amigos encarnam os dois tipos de “Adão”. Abisaí, com uma atitude violenta, acha que o momento é oportuno para se vingar do agressor e introduzir a lança na cabeça de Saul, até à morte. David, porém, impregnado do amor de Deus e do respeito pela vida humana, deixa crescer nele sentimentos de perdão e não permite que o seu inimigo seja morto. Apesar da maldade de Saul, ele é o “ungido do Senhor”, exclama David. Que tipo de “ser humano” encarno eu? O de Abisaí, isto é, de Adão, ou o de David, isto é, de Jesus Cristo?
No evangelho, Lucas apresenta-nos o discurso de Jesus sobre o amor e o perdão, o qual só é possível ser vivido pelo cristão e pela cristã que cultivam em si os sentimentos e atitudes de Jesus, o “homem celeste”. Para os judeus, o amor só era devido aos compatriotas. Para com os estrangeiros, era natural cultivar-se o ódio e a vingança. Jesus vem inverter esta lógica, afirmando que o amor e o perdão são devidos ao próximo e que o próximo é cada homem e mulher, seja qual for a sua pátria, religião ou cultura. Amar só os amigos, é prática natural do “homem terreno”; mas amar os inimigos, fazer bem aos que nos fazem mal, perdoar àqueles que nos ofendem, é a atitude de um homem e de uma mulher espiritual, modelados segundo a figura do “homem celeste”, Jesus Cristo. A lógica dos seguidores de Jesus é mesmo a única que é capaz de travar a violência e o ódio, que se implantaram na nossa sociedade. O cristão e a cristã não podem recorrer às armas, à violência, à mentira e à vingança, para resolver qualquer situação de injustiça que os atingiu. Não é fraqueza, como alguns pensam, abrir-se ao perdão dos inimigos, dar o primeiro passo ao encontro de quem falhou, ter gestos de bon-dade e de compreensão para quem nos faz mal. A «regra de ouro», que está contida no evangelho deste domingo, pode resumir a mensagem da Palavra de hoje: “O que quiserdes que os outros vos façam, fazei-lho vós também”. Tenho, habitualmente, o coração aberto aos meus irmãos e irmãs, mesmo quando eles são meus inimigos?
Leituras do 7º Domingo do Tempo Comum – Ano C: 1 Sm 26,2.7-9.12-13.22-23; Sl 103 (102), 1-2.3-4.8.10.12-13; 1 Cor 15,45-49; Lc 6,27-38.
Deolinda Serralheiro
