Pensar a Paróquia Quem exerce a autoridade está sempre exposto. Em qualquer espaço e circunstância. Na família e na empresa, na escola e no clube desportivo, na sociedade civil e nas instâncias de poder. A autoridade na Igreja ainda mais, por a religião estar sob suspeita, mesmo entre os que professam a indiferença como atitude de vida face à relação com o transcendente e o Infinito.
A paróquia constitui o espaço em que o modo de ser e de agir dos seus responsáveis, designadamente dos agentes pastorais, é mais facilmente observável e constitui matéria de análise fundamentada ou de mera opinião sentenciosa. E não faltam estudos sobre este modo de proceder, nomeadamente no que concerne às funções do pároco, considerado em si mesmo ou em equipa solidária, situado em ambiente urbano ou rural, a prestar serviços em paróquias pequenas ou grandes.
Na Igreja, a compreensão da autoridade civil está bastante clarificada: Deus é o manancial donde jorra toda a autoridade. A natureza humana serve-lhe de estuário continente e a sociedade de canal mediador. Cada geração vai procurando a moldura mais adequada ao seu exercício, estabelecendo pactos, fazendo ou desfazendo alianças, criando formas concentradas numa só pessoa ou em várias, estabilizadas pela tradição ou abertas à alternância e variação, impostas e mantidas pela força revolucionária ou pela violência organizada, gizadas e aprovadas pelos eleitos em nome de todo o povo ou seus representantes. Actualmente, dá-se muita importância ao sistema democrático, que, não sendo perfeito, é o melhor de todos os que a história conhece e proporciona uma articulação equilibrada entre os elementos da comunidade política.
Os objectivos da sociedade democrática coincidem, na prática, com os da missão da Igreja no mundo, embora nem sempre se lhes atribua a mesma fundamentação e o mesmo alcance. Sirvam de exemplo apenas alguns ligados ao exercício da autoridade: a dignidade da pessoa, a constituição da família, a educação integral e a participação responsável, a solidariedade subsidiária, o desenvolvimento sustentado e ecológico, a paz universal assente na justiça, a interdependência dos povos.
Esta convergência faz realçar o contributo positivo da Igreja em prol da comunidade humana, da sociedade democrática, da convivência orgânica e funcional da vida social, da estruturação do poder, do contributo de cada cidadão para o bem comum, do exercício da autoridade. Cria também um modo de ser, de pensar e de agir que realça a participação de todos, intensamente prevista e desejada, a eleição dos governantes, a cessação periódica de funções, o debate como regra para expor opiniões diferentes e praticar o contraditório, a fim de encontrar um caminhar comum que a todos respeite e valore.
O contributo reflui sobre a compreensão da Igreja e das suas configurações, sobre “o papel” de cada um na comunhão do conjunto, sobre o relacionamento dos seus membros e o exercício da autoridade. E, na opinião corrente, surge o impacto inevitável entre as virtualidades do regime democrático e a organização ou mesmo a constituição do sistema eclesial. E a paróquia constitui o campo mais acessível para a observação e análise.
A Igreja lança as suas raízes na comunhão com Jesus, o morto que foi ressuscitado. Todos os baptizados, sendo fiéis ao dom originado pela fé e celebrado pelos sacramentos da iniciação cristã, formam com Ele “uma só” realidade de vida. O Espírito Santo vem em reforço desta unidade e oferece a cada elemento um dote de bênçãos e carismas. Todos ficam habilitados a participar na obra comum, a partir da riqueza deste dote e da porção que coube a cada um. Esquecê-lo ou menosprezá-lo manifesta uma “desconsideração” para com o Espírito de Jesus e para com a pessoa chamada a valorizar as capacidades com que foi dotada. Lembrá-lo é ser coerente com o modo normal do Espírito agir na Igreja e no mundo, é reconhecê-lo presente e actuante nas pessoas (que ele toma muito a sério!), é proceder de modo adequado, reconhecendo e integrando aqueles dons na realização do bem comum, é proporcionar condições para que cada pessoa viva a sua vocação na Igreja comunhão ao serviço do mundo que Deus ama. Também aqui o agir do pároco adquire um especial significado e valor.
O ministério ordenado provém de Jesus Cristo mediante o Espírito Santo e os Doze e, por eles, por meio dos bispos constituídos em colégio. A sua origem é divina, o modo da sua organização é humana, fortemente condicionada pelo contexto sócio-cultural, a articulação do seu funcionamento é de base relacional alicerçada na comunhão. Bispos, presbíteros e diáconos estão unidos por laços de indestrutível unidade, provenientes do mesmo sacramento, polarizado no episcopado.
A autoridade ministerial radica em Cristo e no seu Espírito, origina e revigora um estilo de vida típico simbolizado por Jesus no lava-pés e expressa-se nas múltiplas tarefas e funções da missão pastoral. Ser habitante e morador de uma terra no meio da população, saber estar com todos, valorando a igualdade na dignidade e a diferença nas funções, partilhar a experiência dos dons divinos e dos bens do mundo, viver a solidariedade com todos, mas sobretudo com os mais pobres, presidir à celebração da comunhão (eucarística no sacramento e governativa na assembleia do povo de Deus ou no conselho paroquial), dar informações e definir regras pastorais, no presente quadro jurídico e canónico, configura um estilo de autoridade participada indispensável a uma Igreja aberta a todos, mas que não é para tudo.
A paróquia constitui o espaço humano público onde melhor se pode captar a originalidade da autoridade e a modalidade participada do seu exercício. É um espaço onde muito se avançou e melhorou, mas onde persistem reformas urgentes a promover. Ainda surgem (oxalá que ocasionalmente!), atitudes próximas do “quero, posso e mando” ou do “quem as arma que as desarme” ou do “que tenho eu a ver com isso”.
A paróquia, à semelhança da Igreja, tem nesta área uma vocação peculiar: viver, celebrar e testemunhar a autoridade, que é serviço, e ser escola de educação permanente para o seu exercício responsável.
