Parece evidente o mal-estar em relação às paróquias. Esta situação deve-se a muitos factores, dos quais pretendo apenas salientar um: a mobilidade das pessoas e os seus efeitos provocadores, que me parecem determinantes.
Se o território é importante para a compreensão da paróquia, não o é menos a pessoa “em trânsito”, aquele que não sente terra alguma como sua, o emigrante forçado, o que vive num local e tem filhos a educar noutro, faz vida social ou participa na celebração dominical noutro ainda, pois aí encontra amigos cristãos com quem simpatiza e se identifica. O sentido de pertença afirma-se mais pela intensidade da relação do que pela residência ou local de origem. A proximidade cria-se mais pela comunhão de sentimentos e sintonia de experiências do que por vínculos legais ou exigências impostas.
Efeitos da mobilidade
A mobilidade provoca a concentração de numerosas pessoas em vilas e cidades, que, a manter-se a tendência, se vão tornando realidades difusas, aglomerados ocasionais de estranhos, espaços de inquilinos anónimos que se entrecruzam, talvez com saudades de um passado que não volta e sem possibilidades de sonhar um futuro que intuem desejar.
Ocasiona igualmente a “desertificação” das povoações rurais e dos centros históricos urbanos. Há paróquias, na vizinha Espanha, com 18, 70 ou 73 pessoas residentes e apenas duas ou três crianças na escola. Passam-se anos sem nascimentos. Os mais jovens ou os mais empreendedores procuram outras paragens. Os idosos vão morrendo. Entre nós e outros países da Europa Ocidental, encontram-se situações semelhantes, embora com alguns matizes.
O número de praticantes, também aqui, continua a baixar. Situações há em que não existe qualquer hipótese de constituir uma assembleia dominical, mesmo que o padre possa ir lá celebrar. Mas acresce outro factor: a diminuição do clero vem agravar o “estado das coisas” e a urgir uma solução adequada.
Que fazer?! Manter o que está é “ser infiel” à missão que foi confiada à Igreja e, sobretudo, à sua hierarquia. É urgente procurar soluções, ainda que provisórias, como por exemplo a daquele pároco que arranjou uma carrinha comunitária para passar aos domingos pelas povoações a fim de levar os cristãos que querem tomar parte na celebração dominical. Há casos em que, para constituir uma assembleia de vinte ou trinta pessoas, é preciso percorrer cinco ou dez lugares dessas povoações.
Que fazer?! A resposta não é fácil, mas há experiências com resultados positivos. Nenhuma se fez por decreto ou sem ter em conta as pessoas afectadas. Todas são fruto de uma compreensão da Igreja comunhão, que se configura em diversos âmbitos de realização e de adequada pedagogia pastoral.
Aponto caminhos que são viáveis e consistentes, embora morosos: reflectir com as pessoas as possíveis soluções; prepará-las para serem a Igreja possível na respectiva povoação: ler a Palavra de Deus ou aceitar quem a possa ler, fazer oração em comum, atender doentes e idosos solitários, acompanhar pela rádio ou televisão celebrações eucarísticas ou programas de formação, manter a igreja aberta e tocar o sino nos maiores acontecimentos da vida ou do dia.
Simultaneamente, reforçar os laços com paróquias vizinhas e procurar que sejam assumidas outras dimensões da Igreja, designadamente na promoção de pessoas que realizem serviços ou ministérios: moderadores da celebração da Palavra no domingo, na festa de anos, na vigília e no funeral, em outros acontecimentos significativos; garantes da coordenação e da comunicação; visitadores e acompanhantes de famílias em necessidade; catequistas; ministros extraordinários da comunhão e outros serviços que se revelem indispensáveis.
Ao mesmo tempo, promover acções em comum, ainda que se tenha de recorrer a meios de transporte pessoais ou colectivos. São indispensáveis, nesta altura, dialogar e procurar o consenso sobre o que pode ficar a ser programa comum a todos: preparação da celebração de sacramentos, de festas religiosas, de iniciativas de formação, de contribuição para as despesas colectivas, circuito e periodicidade da ida-visita marcada do pároco ou de quem partilha com ele solidariamente a responsabilidade pastoral de cada pequena comunidade.
Grupos de estilo familiar
De acordo com a caminhada feita, é muito expressiva a celebração da comunhão alcançada com o contributo de todos ou da maioria, a configuração da nova unidade pastoral e o rosto humano da “velha” paróquia, agora comunidade eclesial articulada com outras. A elaboração de uma acta em que constem estes elementos pode constituir “a memória” de um acerto conseguido e que é confirmado pelo decreto episcopal.
Nas cidades e vilas que constituem pólos de atracção, o processo de renovação tenderá a provocar a desconcentração, a criar novas formas de relacionamento entre vizinhos, a fazer surgir grupos de estilo familiar que tratam de assuntos comuns à luz da Palavra de Deus, a dar começo a um processo de iniciação à fé em espaços onde as pessoas vivem e convivem. As linhas mestras deste processo estão previstas no Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos e exigem apenas a criatividade realista e o amor pastoral indispensáveis às correspondentes adaptações.
Mais difícil, é escolher em diálogo com os grupos os temas a aprofundar, usando uma pedagogia apta a adultos que pretendem iniciar-se na fé, e definir o tipo de comunidade eclesial em que querem e devem celebrar os sacramentos da Igreja na sua vida. Há exemplos conseguidos, embora outros nem tanto, mas todos podem inspirar quem pretenda avançar nesta forma de renovar a paróquia.
As unidades pastorais nascem, por conseguinte, da compreensão da Igreja como comunhão que se exprime em espaços “com medida humana”. A sua configuração é muito diversificada. Os caminhos para a sua constituição, também. A definição do que “corresponde” a cada nível de realização está pendente da análise dos recursos humanos e da vontade de progredir para uma solução mais conveniente. A articulação orgânica e funcional de todo o conjunto dá rosto à caridade pastoral que se faz serviço adequado às necessidades de cada um e de todos. A “nova” paróquia constrói-se como família de famílias ou seja comunidade de comunidades, com funções definidas entre si e no seio da Igreja diocesana.
Por aqui “anda” o Espírito de Deus a convidar à renovação do conjunto eclesial e das suas múltiplas expressões.
