Cruz gloriosa!

“Fogem, como o diabo, da Cruz”. Bem sei que, no dizer do povo, a pontuação é diferente, porque o que a sentença popular quer dizer é que alguém foge de alguma coisa (da verdade, do sofrimento, da vida…) como o diabo foge da cruz. O que eu quero dizer aqui é que muitos fogem da Cruz, como o diabo – o que é diferente. E fogem, porque Ela interpela e incomoda, interroga e apela.

Não querem o Crucifixo, não porque Ele traumatize, induza posições políticas, insinue tendências de voto, marque fronteiras culturais… Mas tão somente porque Ele é escândalo, para todos os estabelecidos nas suas ideias feitas, nos seus esquemas de vida cómoda, mesmo nos seus rituais de crença incolor.

Não querem o Crucifixo, porque Ele é loucura de dedicação e serviço, de humildade e verdade, é silêncio eloquente e tonitruante face aos mundos da futilidade, dos interesses, da distracção existencial, das intenções obscuras. Sobretudo, porque Ele é referência de luminosidade única, cujos raios esventram secretismos e revelam com nitidez o mais profundo dos corações!

Incomoda o Crucifixo, porque Ele não é uma proposta masoquista. É, antes, o grito da liberdade plena, a afirmação de um abraçar completo do projecto de vida, sem recuar um passo, diante de quantos pretendam aliciar com a facilidade, com a fuga às responsabilidades, com a superficialidade, com caminhos ilusórios, em detrimento da construção vigorosa, do passo firme, das decisões pensadas mas generosas e de vistas largas.

O fenómeno da recusa pública do sinal cristão por excelência exprime uma mentalidade hedonista, uma civilização de fuga ao difícil, uma alergia à responsabilidade, que, embora sob a pretensão de gerar um clima de religiosidade neutra, deseja é instaurar uma atmosfera de falta de referência espiritual inspiradora de uma ética pessoal e social, uma atmosfera desprovida de educação da vontade, propícia a garantir, pela fragilidade espiritual das pessoas, caminho aberto a toda a sorte de influências ocultas, vulnerabilidade a todas as formas de “publicidade”.

Em tempo de Quaresma, quando a Cruz de Jesus Cristo se revela progressivamente como a expressão mais profunda do Amor que gera a Vida, quando essa Cruz floresce em Árvore da Vida, fazendo-nos saborear, passo a passo, o gozo da libertação que a Páscoa nos traz, cabe aos cristãos testemunhar que esta Cruz de Serviço é a nossa glória, é a glória de cada cristão e da Igreja.