Dez palavras-chave sobre a “Caritas in Veritate” Bento XVI afirma no início da “Caritas in veritate”, no n.º 6, que a encíclica ganha “forma operativa em critérios orientadores da acção moral”, nomeadamente na “justiça e no bem comum”. Por outras palavras, a prática da justiça e do bem comum concretizam a “caridade na verdade”. Para que ninguém fique a discutir conceitos, o Papa diz o que entende por um e por outro. Hoje, fiquemos pela “justiça”.
A justiça surge (ou é necessária) onde há sociedade, como afirma o princípio clássico, “ubi societas, ibi ius” (onde [há] sociedade, lá [há] direito), e consiste em “dar ao outro o que é dele, o que lhe pertence em razão do seu ser e do seu agir”. O Papa não distingue os tipos de justiça (que são essencialmente dois, embora haja quem acrescente a “justiça social”: a justiça comutativa e a justiça distributiva; a primeiro consiste em dar a cada um aquilo a que tem direito como se fosse uma troca directa; o segundo consiste em dar em função do que precisa, redistribuindo rendimentos, por exemplo), mas conjuga-a com a caridade. “A caridade supera a justiça”, porém, “não posso «dar» ao outro do que é meu, sem antes lhe ter dado aquilo que lhe compete por justiça. Quem ama os outros com caridade é, antes de mais nada, justo para com eles”, escreve Bento XVI. O amor é falso ou pelo menos incompleto se ignorar a justiça. “A justiça mão só não é alheia à caridade, não só não é um caminho alternativo ou paralelo à caridade, mas é «inseparável da caridade», é-lhe intrínseca”, acrescenta. Nisto podemos ver uma crítica a muita acção social dos cristãos, que, sendo imensamente generosos, são, por vezes coniventes com situações políticas e económicas injustas. Nestes casos, o testemunho pode ser contraproducente. Salvaguarde-se que a Igreja “não tem soluções técnicas para oferecer” (n.º 7) nem pretende “imiscuir-se nas políticas dos Estados”, mas tem uma “missão ao serviço da verdade” que passa claramente pela denúncia da injustiça social.
Bento XVI escreve também que a caridade “supera a justiça e completa-a com a lógica do dom e do perdão”, por “relações de gratuidade, misericórdia e comunhão”, mas fica bem sublinhado o alerta: se a caridade não tiver como base a justiça, estamos a construir sobre a areia.
J.P.F.
Verdade | Desenvolvimento | Populorum progressio | Justiça | Bem Comum | Globalização | Gratuidade | Trabalho | Ambiente | Caridade
