Poço de Jacob – 27 Podemos situar a amor em vários planos. A sua medida é não ter medida, mas a verdade é que Jesus fala-nos do amor pelo irmão como próximo, o irmão como o inimigo. Amar é dar-se na esmola, no carinho, no perdão. Mas creio que aquela frase de que Deus sabe do que precisamos mesmo antes de a palavra nos chegar à boca tem um carácter de delicadeza que faz do acto de amar algo de surpreendente, em todo o sentido da palavra.
Conta Santa Teresinha, no seu livro “História de uma Alma”, que uma irmã do Carmelo não gostava de flores naturais, sobretudo em determinados sítios. Um dia, Teresinha adornava o Menino Jesus do pátio com flores artificiais. A dita irmã aproxima-se e Teresinha intui que lhe vai ralhar por usar ali flores naturais. Poderia ter deixado a irmã falar e depois mostrar-lhe, “triunfante”, o engano e assim humi-lhar a irmão que se enganara. Faríamos assim e até o fazemos muitas vezes no nosso dia-a-dia, em casa e no trabalho. Mas Teresinha antecipa-se e diz: “Veja irmã como fazem hoje as flores artificiais. Até parecem verdadeiras”. Surpreendeu a irmã com uma fineza de caridade que só os santos sabem ter.
Assim é Jesus connosco. Já viram que Ele se dirige à samaritana para lhe pedir água, ela que, pelos vistos, há muito morria de sede? “Dá-me de beber… Dar-te-ei água viva”. Foi este pedido que fez com que aquela mulher revelasse a grande sede que trazia escondida no coração.
Por vezes, encontramos em algum lugar o aviso: “Deixe este lugar tão limpo como o encontrou. Outros virão servir-se dele!” Não sabemos quem será. Só o acto de pensar que estou a preparar espaço para o outro, porque é meu irmão, é tudo, é caridade. Ele não verá, nem agradecerá, mas a minha antecipação manifesta que não estou só e posso fazer muito bem à minha volta. Quantas oportunidades de prevenção, de pequenos gestos, na família, no emprego, na rua, podem tornar mais fácil a vida uns dos outros…
Se o amor maior é dar a vida por quem se ama, como disse Jesus, este cuidado em nos anteciparmos a fazer antes que nos peçam e sem nada querer em troca, nem sequer que saibam que fomos nós a fazer, exige um heroísmo muito belo, pois o nosso eu fica a deleitar-se no simples facto de que “tinhas sede, e eu dei-te de beber”, “não me pedistes água, mas eu adivinhei tua sede e partilhei contigo o meu copo”. Bem diz a Escritura que temos uma dívida a pagar uns aos outros e que essa dívida é a de nos amarmos – amor que se apaga, como o do Baptista: “Que Ele cresça e eu diminua…” E “que a minha mão direita não saiba o que faz a esquerda”.
Que, como Jesus, sentado à beira daquele poço, aprendamos o amor que se antecipa e torna mais lindo o mundo em que vivemos e mais identificado com o amor do Pai. Aprendamos a nossa caridade de irmãos.
P.e Vitor Espadilha
