ALEXANDRE CRUZ
1. Parece que foi ontem, mas já são duas intensas décadas de vida e esperança que o Centro Universitário Fé e Cultura transporta na sua breve mas significativa história. O CUFC, no seu desígnio de uma Cultura (humilde e por isso mais nobre) que se deixe iluminar pela Fé, está onde estão os que, ao longo destes vinte anos, foram e vão passando, estando, debatendo e formando, crescendo em grupos e movimentos e celebrando a fé cristã no mundo plural.
Nesta ordem de ideias, o espírito do CUFC está presente em Cabo Verde, Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné, Timor, Brasil, onde a língua portuguesa e a cooperação entre instituições proporciona o acolhimento em Aveiro de jovens vindos destes países da CPLP.
São diversas as mensagens de parabéns que nos chegam de alguns destes países, de jovens universitários que sentiram esta casa como sua e agora estão em seus países na vida profissional a lutar por um futuro melhor. De norte a sul, do litoral ao interior de Portugal, dos programas de mobilidade académica de universidades europeias (Erasmus), e de outros programas que trazem até nós estudantes da Ásia ou das Américas, nem que tenha sido numa simples Ceia de Natal (a 24 de Dezembro, em co-organização com os Serviços de Acção Social da UA, com cerca de oitenta/noventa estudantes de todo o mundo), o calor humano e o aconchego proporcionado é lembrado como sinal de esperança numa humanidade nova, fazendo do Centro uma plataforma contínua de “vai e vem”, de enriquecimento entre todos. Lembramo-nos de há três ou quatro anos termos pedido a estudantes de Línguas e Relações Empresariais da UA (que estudam chinês), que nos escrevessem em chinês “Feliz Natal”, a par de outras línguas com a mesma mensagem. Quanta emoção, até às lágrimas (do grupo de estudantes chineses), nestas duas simples palavras, para quem está a milhares de quilómetros de casa!
2. O Centro Universitário Fé e Cultura nasceu há 20 anos, como resposta da igreja diocesana situada no mundo da cultura, que, em Aveiro, com a Universidade, ia rasgando novos e estimulantes horizontes. Após a primeira ideia de “acolhimento” a estudantes do Ensino Superior ter passado pelo Centro de Acção Pastoral, eis que a 25 de Março de 1987 é fundado o CUFC, pelo então Bispo de Aveiro, D. Manuel de Almeida Trindade.
Inicialmente o CUFC funcionou no Seminário de Aveiro, tendo sido nesta altura nomeado seu primeiro director o Pe Arménio Alves da Costa Júnior (que hoje vive junto do Pai e na saudosa memória de quantos por ele foram “tocados”). O Pe Arménio foi o grande impulsionador do sonho que viria a concretizar-se passados três anos no novo e simbólico Edifício CUFC, inaugurado a 12 de Maio de 1990. Neste mesmo contexto de fé cristã que procura acompanhar o ritmo do tempo cultural, destaque-se a fundação do ISCRA – Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro, por D. António Baltasar Marcelino (um apaixonado da origem do CUFC!), já Bispo de Aveiro na data de 29 de Junho de 1989. Inicialmente o ISCRA fica sedeado nas instalações do CUFC.
Nenhum passo se dá sem persistência e noção do ideal a atingir; é neste mesmo contexto que a pastoral universitária na Diocese de Aveiro, desde a primeira hora, procurara persistir na abertura de caminhos progressivos de acolhimento e proposta, valorizando em ambiente de comunidade os tempos fortes no ano pastoral e ano académico. Sendo o CUFC uma instituição diocesana, todavia, nas suas portas inscreve-se um chamamento universalista, ecuménico, de necessário diálogo inter-cultural e inter-religioso, em pluralismo inclusivo, sempre numa contínua vivência do sentido estrito da evangelização, entendida esta como encontro, partilha, “dar e receber”, procurando novas sínteses de iniciação cristã, um enriquecimento comum, onde cada hora, cada situação, cada pessoa… terão de valer o mundo!
3. A designada Pastoral Universitária, nos livros apresentada como “tarefa e missão de toda a Igreja” (afinal, como tudo quanto é eclesial que se quer organizado e amplo), não se compadece com colagens do ano anterior, frases feitas “copy-paste” ou meramente com comentários de ordem teórica. Exige entrar e viver nos corredores da comunidade, aprendendo e partilhando.
Nesta realidade de pastoral marcadamente laical, cada hora de cada dia, como desde há 20 anos, é desafio, oportunidade, problemática, esperança. Neste contexto, cada ano é novíssimo. O “ponto-zero” é quase um lema e um intenso desafio à reinvenção.
Que fica depois da palestra interessante no departamento A ou do debate muito vivo no instituto B? Volta-se ao CUFC e… tudo (quase) no princípio; tal como os cerca de novecentos finalistas de todo o ensino superior em Aveiro são novos, cada ano, em todas as múltiplas reuniões e preparações destes meses.
Necessariamente, as portas do CUFC, sempre abertas. Têm no horizonte os cerca de quinze mil “habitantes” das sete instituições do Ensino Superior na área diocesana (que referimos mesmo: UA; ISCA-UA; ESTGA-UA; ESS-UA; ISCIA; IPAM; ISCRA), numa partilha e proposta “livre” para com os estudantes (com ligação especial às associações), docentes e funcionários.
O facto do Centro Universitário estar situado no magnífico campus universitário da UA é motivo de grande proximidade permanente, o que proporciona o enriquecimento de visões em amplas parcerias (em voluntariados, formações, debates, etc.), como espírito de serviço à comunidade universitária.
Nem sempre a caminhada foi fácil, mas, nesta hora de gratidão pelo caminho percorrido, ergue-se a certeza da aposta decisiva numa visão aberta e afirmativa dos ideais fundamentais mais enriquecedores de todos… porque do sentido da vida de cada um!
4. Ao celebrar “20 anos a construir esperança”, é necessário lembrar que a equipa de trabalho é sempre a base de tudo, tal como escolheu o referido lema. Todas as palavras de apreço e de reconhecimento são de louvor ao absoluto de Deus pelo “dom”, sempre dinâmico, de todos os que nas várias equipas ao longo de cada ano foram construindo este ideal. Alguns estão mesmo muito longe, do outro lado do mundo! Queremos torná-los bem perto (também de forma especial o Pe Arménio) e dar graças a Deus-Família por todo o caminho sonhado e pelo possível (sempre muito pouco) realizado.
Sublinhamos, ainda, que a missão na pastoral universitária será cada vez mas decisiva, não se podendo perder em esforços isolados. Os futuros profissionais, empresários, políticos, gestores, habitam hoje as universidades, o que implicará sempre uma grande responsabilidade na aposta transversal e contínua com qualidade, inovação, valorizando a ética como ideal que nos conduz do Humano ao Divino.
Nesta missão bem difícil no Ocidente europeu, os grupos e movimentos na Pastoral Universitária terão de desempenhar um papel essencial, sempre a aperfeiçoar, como células cristãs vivas. Referimos, reconhecemos e desafiamos os grupos que projectam no CUFC: Grupo de Crisma, Focolares; GEP 3M (grupo de escuta da palavra e que a põe em prática como Maria); Juventude Mariana Vicentina; Movimento Católico de Estudantes, Movimento Juvenil Dominicano; Peregrinos CVX; Sal da Terra (convivas), SCUA – Serviço de Caminheiros na Universidade de Aveiro; fraternidade missionária Verbum Dei, voluntários, enfim, todos os que nos visitam e connosco estudam, convivem, debatem, sonham, celebram!
5. Estamos e, no fundo, estaremos sempre no “princípio”. O tempo cultural assim o exigirá, para sermos resposta cada dia. Sem ilusões, ficamos a anos-luz do ideal. A impres-sionante mobilidade dos contextos cultural e académico contemporâneo não se compadece com a imobilidade e passividade dos dados acessórios da mensagem cristã.
Há um hiato crescente de insignificância da Fé para a nova cultura que aí está a interpelar os ambientes do anúncio. Para um fecundo diálogo entre a Fé cristã e a Cultura contemporânea, a Pastoral Universitária sente na pele e reclama de modo inadiável os correspondentes horizontes de renovação da Igreja universal, que não se poderá “perder” nos pesos da tradição histórica, mas precisa de aprofundar o essencial. Há linguagens e ministérios a renovar, antes que a indiferença triunfe generalizadamente. Remendo (pastoral) velho em pano (social) novo… cai em saco roto. Há mudanças (que são actualizações do essencial ao nosso tempo histórico), como a linguagem sobre a Fé, que terão de ser estruturais, quando não a Fé perde a Cultura, distanciando-se do seu próprio significado e missão. Haverá vontade profética?
Quanto a nós, pastoral universitária diocesana, neste dia, é com toda a alegria que celebramos estes 20 anos, sempre com a presença estimulante de Mons. João Gaspar e acolhendo o Sr. Bispo de Aveiro, D. António Francisco, que outrora também foi “missionário” nestes terrenos da Pastoral Universitária, em Lamego. É dia de festa, demos graças a Deus pelo dom das sementes lançadas ao longo destas duas décadas. Só Deus sabe, tudo a Ele se deve!
