Paróquia, espaço de celebração da paixão florida do Senhor

A celebração litúrgica, sobretudo na paróquia, aproxima as pessoas, reforça a comunidade e gera um sentir comum que facilmente se expressa em atenções mútuas e em intervenção social. Este sentir tem como referência a palavra lida ou o sacramento celebrado e a situação vivida, tantas vezes sob a forma de défice humano. A intervenção surge como a atitude mais adequada a este deficit, tendo em conta os recursos humanos e as possibilidades materiais disponíveis ou a conseguir. Gerir este acerto torna-se o rosto visível de uma ciência que não é mera gestão administrativa, mas pedagogia e pastorícia, impregnadas pelo Espírito Santo.

As celebrações paroquiais, durante muito tempo, deram a imagem de “fabricar” cristãos complexados em relação aos problemas do mundo, centrados no culto individualista, preocupados apenas pelo destino eterno das almas, alienados dos prazeres da vida, estranhos perante as novidades que as ciências positivas fomentavam em catadupa, passantes que, não sendo da terra, apresentavam um clarão desfigurado do céu. Em algumas partes, o seu exemplo despertava mais pena e compaixão do que desejos de aproximação e imitação.

Apesar de tudo isso, foi a vida religiosa nas paróquias que proporcionou a força necessária ao povo humilde, que pacientemente testemunhou a fé, cuidou dos doentes e idosos, repartiu os bens com os mendigos “do Senhor” (assim eram designados os pobres em bastantes aldeias), organizou associações para se proteger em caso de incêndio ou de epidemia, manteve o coração aberto às grandes necessidades da Igreja, apesar da sobriedade dos parcos haveres. A lista das pessoas virtuosas, em todas as aldeias, pode fazer-se com facilidade.

A paróquia, nos seus esforços de renovação, beneficiou imenso da acção evangelizadora dos movimentos apostólicos, que lhe abriram horizontes novos, imprimiram ao ambiente humano das suas celebrações um ritmo festivo, cheio de harmonia e beleza, e dotaram de notável dinamismo muitas das suas actividades.

Aqueles horizontes são de serviço próximo e gratuito, de revigoramento da fraternidade, de sentido para o sofrimento e a cruz, de esperança paciente e activa, de afirmação positiva da vida, de certeza inabalável de um futuro feliz que, entretanto, se vai experienciando de forma limitada e germinal. Jesus Cristo é o garante destes horizontes, a testemunha fiel destes valores, o guia seguro deste peregrinar, o mestre inconfundível desta sabedoria, o médico solícito da integralidade desta terapia. Jesus é a marca de qualidade da vida cristã.

O espírito de serviço, face a tantas formas doentias de egoísmos, brilha em atitudes e gestos como o lava-pés. A partir deste “gesto sacramental”, a lógica da coerência convencional cede lugar à sua alternativa: ser o maior é doar-se por amor, é entregar-se por dedicação, é aprender dos que são os últimos, os humildes e os mansos de coração. Esta forma de proceder tem valor universal e definitivo. A testemunhá-lo, ao longo da história, ficam os cristãos, quais discípulos fiéis aos ensinamentos de Jesus, com o seu estilo de vida e gestos de doação.

“Vistes o que vos fiz? Fazei-o vós também” – diz-lhes Jesus. E, desde então, a mais bela história de amor dá origem às mais ousadas e desconcertantes intervenções. Esta história tem a eucaristia como fonte e a humanidade ferida como beneficiária.

“Quando os partidos fizerem tanto pelos pobres como uma qualquer conferência vicentina das nossas paróquias, reconheço-lhes legitimidade para falarem” – afirma numa das sessões da Assembleia da República um deputado bem conhecido pelo público português. E o desafio está feito.

A celebração litúrgica mostra que o sentido do sofrimento está no amor generoso que é mais forte do que a morte. Jesus Cristo assim o testemunha pelo seu exemplo e pela sua palavra. A partir dele, a aliança entre o amor e o sofrimento iluminam o alcance da experiência humana. Só um apaixonado “louco” faria o que ele fez. O Triduo Pascal celebra, de forma eloquente, a sua entrega. A sepultura, que fecha as portas da vida ao morto eliminado ao cair da tarde de sexta, escancara-lhe a aurora feliz na manhã da Páscoa da ressurreição.

A paróquia é certamente o espaço mais comum da celebração da paixão florida do Senhor. Nela, pode o povo cristão fazer a memória dos factos e das pessoas – vítimas e algozes, cireneus e samaritanas. E o cortejo é incontável!

Pode também – ainda que timidamente – procurar a figura com a qual mais se identifica nesse processo paradigmático, entrar no seu contexto de vida e colher as lições decorrentes. E vem Pedro assustado e hesitante, que recupera a decisão radical do primeiro seguimento; João fiel, que, persistente, testemunha o amor definitivo; Judas obcecado pelo bem dos pobres, que, afinal, pretende salvaguardar os seus interesses; Pilatos hipócrita “inocente”, que não vê outra verdade a não ser a de se manter no poder; Cireneu surpreendido nos caminhos da vida, que aceita carregar com a parte da cruz que também é nossa; Verónica compadecida e corajosa, que “salta” do anonimato perante tantos espectadores e limpa o rosto do Justo desfigurado; Centurião atento aos sinais daquele agonizante, que confessa, em nome da autoridade política, a justeza da causa de Jesus e a serenidade maravilhosa da sua morte; Madalena consumida pelo amor sofrido e inquieto, que é surpreendida pela novidade e, cheia de incontida alegria, faz o anúncio pascal ao ritmo do coração; discípulos de Emaús desiludidos pelo desfecho dos acontecimentos e cansados de esperanças adiadas, que aceitam na viagem um peregrino desconhecido e, enquanto partilham desditas e frustrações, recebem informações que vão aquecendo o coração e propiciam o reconhecimento do Senhor e a urgência de regressar à cidade dos irmãos expectantes.

De facto, a memória celebrativa da mensagem cristã, que a paróquia contínua e exemplarmente oferece ao povo fiel, constitui a escola mais estruturante da pessoa humana e abre-lhe horizontes de vida feliz na companhia de modelos realizadores dos mais nobres ideais.