Novo livro de Amaro Neves Amaro Neves defende que a Quinta dos Santos Mártires e a respectiva capela estiveram ligadas à Maçonaria.
O livro “Loja Maçónica de Aveiro ? – 1823”, da autoria do historiador aveirense Amaro Neves, editado pela “Ver o Verso”, foi apresentado por Énio Semedo, no Hotel Moliceiro, no decorrer de uma “tertúlia” em que Guilherme Veloso interpretou, ao piano, alguns trechos musicais de Mozart.
De acordo com o autor do livro, essa antiga Loja Maçónica estava sedeada na Quinta dos Santos Mártires, cuja casa “apalaçada” era visitada “por indivíduos vindos de todo o distrito, pessoas que, em geral, tinham formação adequada para frequentarem a loja”.
Os proprietários da Quinta dos Santos Mártires não estariam ligados à loja, pelo menos é isso que “se diz na devassa”, realça Amaro Neves, porque, diz, “a casa teria sido alugada. Na devassa, os proprietários disseram ignorar o que se passava na casa e na capela. É provável que não tenha sido bem assim, mas não podemos ir mais além do que isso”.
O autor do livro sublinha que a “devassa foi um levantamento para ver tudo aquilo que se passava, o que é que se teria passado e o que é que restava da eventual loja maçónica. Foi um levantamento exaustivo do eventual funcionamento da loja maçónica”. Esse trabalho foi executado por “entidades de carácter judicial nomeadas para o efeito, já sob governo absolutista” de D. Miguel.
Há cerca de vinte anos, Amaro Neves publicou o documento base deste livro na revista “Aveiro e o seu Distrito”. No entanto, para o historiador, o documento de base não deveria ficar circunscrito a uma revista que foi extinta passados alguns anos. “Entendi que talvez merecesse um outro contexto, reproduzindo totalmente o documento para assim se ter consciência do seu valor e para melhor se compreender o que foi o liberalismo em Aveiro e em todo o distrito. Quase todas as figuras desta loja tiveram um papel determinante nas ideias liberais do século XIX”, referiu. O livro “foi enriquecido com alguns textos de pessoas que conhecem mais do que eu os meandros da maçonaria”.
Amaro Neves nota que “sabemos que estiveram aqui os soldados ingleses, sabemos também que estiveram os soldados franceses. Quer os franceses, quer os ingleses, eram altamente “industrializados”, ou seja, preparados dentro da iniciação maçónica. Cada um com o seu “Oriente”. Os ingleses permaneceram na nossa região bastante tempo, portanto é natural que aqui tenham ficado raízes do exercício maçónico”.
O investigador não dúvida que alguns dos membros da loja maçónica participaram na revolta de 16 de Maio de 1828, revoltosos que ficaram conhecidos como “Mártires da Liberdade”, entre os quais o Conselheiro Queirós, avô de Eça de Queirós.
Na capela dos Santos Mártires, Amaro Neves vê alguns símbolos que podem ter ligações à maçonaria, de que é exemplo o triângulo. “Para os cristãos pode ter um significado primordial da sua fé, mas para os iniciados maçónicos tem outra significação. Com o olho divino acontece o mesmo”, afirma o historiador. Por isso aquela capela foi palco de algum conflito de interesses, por ter servido de templo católico e da maçonaria, facto que, para Amaro Neves, não se justificava, pois “a Igreja muito deveu na formação da Europa cristã medieval às formações maçónicas, o que não quer dizer que ambas não tenha evoluído”. As primeiras duas lojas maçónicas que foram registadas em Portugal, em 1723, eram formadas uma por católicos e outra por protestantes. “No século XIX, as principais fontes que alimentavam as lojas maçónicas, eram, em primeiro lugar, a militar, e em segundo, o alto clero”, afirma Amaro Neves.
No século XIX e no início do século XX, Aveiro teve dois grão-mestres da Maçonaria: José Estêvão e Sebastião Magalhães Lima.
