“Somos um povo pascal”

Ecos das palavras do Bispo de Aveiro, nas quatro celebrações do Tríduo Pascal.

“Jesus vivo e ressuscitado continua a ser alimento de vida, mestre de verdade, luz de caminho e escultor do mais sagrado e belo que há na alma da humanidade”, proclamou D. António Francisco dos Santos, na noite de Páscoa, durante a “mais solene e longa vigília da liturgia da Igreja”. Citando e comentando textos dos primeiros séculos do cristianismo (um deles transcrito na última página desta edição), o Bispo de Aveiro afirmou: “Somos, irmãos e irmãs, portadores desta certeza que os séculos não desvaneceram. Somos mensageiros deste anúncio pascal. Somos fermento de um mundo novo. Somos um povo que pelo Baptismo mergulhou na morte com Cristo e com Ele ressuscitou para a vida. Somos um Povo Pascal”.

D. António Francisco recordou na celebração que há 40 anos Paulo VI publicava a “Populorum Progressio”, uma encíclica de “surpreendente optimismo” sobre o desenvolvimento dos povos, para afirmar que “construir a justiça e a paz, à luz da Páscoa e da vitória de Cristo sobre o mal, sobre o pecado e sobre a morte de tantos pobres e inocentes constitui missão da Igreja e tarefa de todos os povos e seus governantes”. Por isso, finalizou: “Envio-vos em missão, anunciando a Páscoa, construindo a paz, partilhando o pão com os pobres e suavizando a dor dos que sofrem”.

Na Missa Crismal, na manhã de Quinta-feira Santa, com que se iniciou o tríduo pascal, D. António Francisco dirigiu fortes palavras de ânimo aos padres, que nesse dia renovaram as promessas sacerdotais.

“Convido-vos, irmãos sacerdotes, a revelardes ao mundo, como presença viva do Espírito, a graça, a alegria e a beleza que Deus inscreveu na nossa vida de padres; a anunciardes Jesus Cristo com uma fé ardente e com um infatigável entusiasmo; a encarardes sempre a vossa missão como um serviço; a procurardes uma percepção atenta e constante das verdadeiras prioridades pastorais; a respeitardes os ritmos de vivência cristã e do aprofundamento do sentido da fé das comunidades, dos grupos e das pessoas”.

O Bispo de Aveiro recordou os sacerdotes e diáconos que faleceram recentemente (padres Joaquim da Cruz Vaz, José Dias Martins da Silva, Manuel Augusto Marques, Albino Rodrigues Pinho; diácono Arnaldo Almeida), os ordenados no último ano (José Carlos Gabriel Pereira e João Paulo Soares Henriques) e os que vivem este ano datas jubilares (António Tavares Fragoso, 50 anos de ordenação; e José Manuel Marques Pereira e Zbigniew Cfielezowski, 25 anos de ordenação).

À noite, na Missa da Ceia do Senhor, D. António insistiu na importância da Eucaristia, convidando os cristãos a reflectirem o recente documento de Bento XVI sobre a Eucaristia (ver destaque ao lado) e interrogando: “Como podem os cristãos evangelizar o mundo se não lhe oferecem Cristo como alimento da verdade e da vida? Como pode a Igreja ser sacramento de amor celebrado na Eucaristia se não alimentar nos cristãos o amor pelos sacramentos em procura assídua e vivência espiritual aprofundada?”

Na celebração da Paixão do Senhor, na tarde de Sexta-feira Santa, o Bispo de Aveiro pronunciou uma bela meditação sobre “Olhar o mundo a partir da cruz”, de que citamos uma parte:

“Quando vires, Senhor Jesus, pobres na nossa cidade, gente sem pão nem abrigo, sem mesa e sem lar nas nossas terras… faz nosso o Teu olhar, para que as nossas portas se abram, as nossas mãos se estendam e o nosso pão se reparta, porque “fechar os olhos diante dos pobres torna-nos cegos diante de Vós, ó Jesus”.

Quando encontrares, Senhor, multidões sem rumo e sem rosto, jovens sem horizontes e sem projectos, braços sem trabalho e sem emprego… faz nossos os Teus passos, para que as nossas ruas ganhem sentido, o nosso futuro recupere encanto e a terra que pisamos nos ofereça firmeza e confiança.

Quando sentires, Senhor, lágrimas tristes e magoadas de crianças sem família, sem escola ou sem terra e de idosos, irmãos gémeos da solidão, do desânimo e do abandono… faz nosso o Teu Coração, para que a vida seja defendida e respeitada, como direito sagrado e valor eterno, cresça em liberdade e em paz e os mais velhos recebam em presença, afecto e respeito o que nos dão em sabedoria, em exemplo e em bênção.

Disse o Bispo de Aveiro:

Missa Crismal

“Não permitamos, caríssimos padres, que o tempo que tudo envelhece, a rotina que tanto desgasta, o desânimo que fragiliza, a solidão que avilta, o medo que anula tantos rasgos de generosidade ou o individualismo que nos isola dos outros e desmorona a comunhão, nos retirem a alegria da primeira hora, desvirtuem o encanto de sermos “sacerdotes do Senhor” ou maculem a beleza que se espelha no rosto ungido dos “ministros do nosso Deus”. Em cada um de nós deve transparecer a alegria, o encanto e a beleza do sacerdócio de Cristo. (…) A nossa missão consiste em falar de Deus ao mundo e não em queixarmo-nos do mundo a Deus.”

Ceia do Senhor

“Convido os sacerdotes, diáconos, religiosos(as), consagrados(as), leigos e leigas de toda a diocese a lermos demoradamente e aprofundarmos em sede de grupos e movimentos apostólicos e nos percursos das nossas Comunidades cristãs esta Exortação Apostólica.”

Celebração da Paixão

“Quando souberes, Senhor, que há Calvários levantados em lugares de gente abandonada e inocente, cruzes de dor erguidas em holocaustos de sofrimento e corações rasgados em momentos de desprezo… faz nossas as Tuas dores, para que encontremos coragem humana, decisão crente e determinação evangélica para percorrer caminhos de Via-Sacra e partilhar as dores dos irmãos sem ninguém”.

Vigília Pascal

“A Páscoa que celebramos, que vivemos e que anunciamos às pessoas que procuram Deus não deixa abalar o solo de segurança da fé cristã. (…) Lembrar com fascínio e beleza esta verdade ao mundo de hoje e o oferecer-lhe esta arte de pensar e de viver constituem, também, uma forma de anúncio pascal e um indispensável testemunho de fé.”

Postal de Páscoa

Jesus ressuscitou, alegria!

Estamos todos envolvidos em nova luz.

Sofrimento, dor e tristeza, tudo foi superado.

Uma só certeza nos anima: a morte foi vencida.

Saibamos não desperdiçar este momento de graça.

Ressuscitou aquele que fora morto,

Eternamente vivo com os seus permanecerá.

Seu rosto brilhou novamente entre os humanos,

Senti-lo e reconhecê-lo, em tudo, podemos a partir de agora.

Universo inteiro voltou a ter nova esperança,

Sobre toda a obra criada paira seu Espírito.

Cada criatura na transcendência tornou-se condescendência.

Isso é obra maravilhosa atribuída a Deus Pai.

Tornou-se o Senhor da história e da humanidade.

Obras todas do Senhor, reconhecei-o Presente.

Unidos a Cristo ressuscitado, um dia também ressuscitaremos.

Pe Pedro José