Pastoral da caridade (III)

Revisitar o Sínodo A Igreja não precisa de apregoar nos telhados a sua acção promocional e caritativa, ao longo dos séculos, em diversos domínios, até aos dias presentes. Quando e em circunstâncias em que nem estados nem iniciativas privadas davam – ou dão – resposta a necessidades básicas das populações, aí estão figuras e instituições eclesiásticas a pensar e a pôr em prática soluções para apoiar aqueles a quem falta tudo.

É com mágoa, mas sem surpresa, que constatamos a amnésia ou miopia governamental em relação a isso. E, quando cooperam, pergunto-me algumas vezes se não o farão com uma visão de longo prazo, na esperança de virem a estrangular as possibilidades de gestão dessas instituições, para delas tomarem conta de seguida.

Não devemos dar por mal empregado o nosso tempo e dedicação. Não estamos no mundo para nos servirmos, mas para servir a pessoa humana. E, cumprido o dever, de consciência tranquila podemos retirar-nos como os andaimes, para deixar brilhar a construção. A sementeira feita com generosidade não deixará nunca de fazer notar os seus frutos.

Há um aspecto que é muito importante. É que, entre aqueles que dão visibilidade à acção especificamente caritativa da Igreja, não trabalhe cada um a seu modo e para seu lado. É fundamental a comunhão eclesial, como é importante uma gestão integrada de recursos, uma concertação de formação e acção. Aí reside também o potencial da missão da Igreja nessa área.

Eis o que diz o Sínodo: “Levar os diversos movimentos e serviços que dão rosto à pastoral social na Diocese – Cáritas, Conferências Vicentinas, Secretariado da pastoral dos marginalizados, Instituições Privadas de Solidariedade Social, Serviço de Doentes – a programarem periodicamente a sua formação e acção, e a comunicar entre si, em espírito de entre-ajuda, o que vão realizando a favor dos excluídos e dos mais carenciados da comunidade”.

Aqui fica um longo caminho a percorrer, que tem pleno cabimento neste ano apostólico que vamos iniciar: a comunicação, a partilha de iniciativas, mesmo a gestão integrada de certos recursos – humanos ou materiais – que acrescentarão seguramente, em quantidade e qualidade, a capacidade de resposta, tornando-se, ao mesmo tempo, testemunho interpelativo de cooperação.

Isto não implicará, de modo algum, espírito de clã confessional. É que a cooperação deve desenhar-se também no horizonte mais vasto de todas as instituições de solidariedade social ou outras “que apostam na promoção das pessoas e na erradicação das situações de pobreza e dos factores que as provocam” – como diz o Sínodo. Condição fundamental é que os católicos não diluam a radicalidade evangélica de compromisso generoso com os pobres, sob pena de perderem o seu significado.

Q.S.