À Luz da Palavra – XXIV Domingo Comum – Ano C O tema fundamental da liturgia deste domingo é o amor incondicional de Deus pelo seu povo e por cada pessoa, amor misericordioso, que o leva a pôr-se ao nosso serviço, a adaptar-se a cada um de nós, para nos oferecer a salvação, preferencialmente quando nos sentimos pecadores, com o objectivo de nos tornarmos justos, de acordo com a justiça do próprio Deus, isto é, com a sua santidade.
Na primeira leitura, Moisés intercede junto de Deus pelo seu povo, pois ele tornou-se infiel, construindo um bezerro de ouro e pondo-se a adorá-lo. É a tentação e o pecado de muitos de nós. Temos dificuldade em tolerar as “ausências” de Deus e a sua superioridade face a nós e procuramos um deus à nossa medida, que possamos manejar ao nosso jeito. Todos temos uma inclinação natural ao mal, à infidelidade, ao pecado, que coexiste com a graça de Deus, que nos habita. Por isso, necessitamos de nos apoiarmos uns nos outros, de intercedermos junto de Deus uns pelos outros, como fez Moisés.
Na segunda leitura, Paulo afirma que, apesar de ter sido “blasfemo, perseguidor e violento”, a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo superabundou nele, porque “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores”.
No evangelho é o tema do pecador que surge, sob a forma de parábola. Os publicanos e pecadores, simultaneamente, cobradores de impostos e proxenetas, acompanhavam habitualmente Jesus, o que era motivo de censura por parte dos fariseus e dos escribas, que se consideravam santos. Jesus, sem rodeios, inverte este conceito de santidade, para dizer que, diante do Pai, o que conta é que as pessoas se tornem justas e que há muita alegria quando um pecador escuta a mensagem de Jesus e acolhe o amor misericordioso do Pai. Jesus contesta as categorias que fabricamos e as classificações que fazemos. No fundo, contesta a nossa hipocrisia, porque naturalmente julgamo-nos bons, ajuizados, cumpridores… E criticamos os outros, porque se portam mal, são diminuídos mentais, têm comportamentos duvidosos… E, assim, vamos catalogando as pessoas e pondo de lado aqueles e aquelas que não se coadunam com o nosso modo de ser e de viver. Mas foi isto mesmo que Jesus veio inverter. Ensinou-nos a detestar o mal, mas a amar a pessoa que o pratica, a incluí-la no nosso coração. Ensinou-nos a ajudá-la tanto quanto nos é possível, para que ela veja os seus erros e se corrija, e a rezar sempre pelos que erram, para que se tornem justos aos olhos de Deus.
Importa perceber a atitude do Pai de Jesus, que não deseja senão oferecer a salvação e, por isso, acolhe todas as pessoas, nomeadamente as que se portam mal, para as integrar no seu amor, para lhes fazer sentir que também são gente, para as levar a participar no banquete festivo da túnica branca e das sandálias, símbolos da dignidade e da liberdade, do anel no dedo, símbolo do poder filial, do “vitelo gordo”, símbolo da abundância da casa do Pai e da dança, sem ocaso, porque o amor de Deus nunca tem retorno.
XXIV Domingo Comum: Ex 32,7-11.13-14; Sl 51 (50); 1 Tm 1,12-17; Lc 15,1-32
Deolinda Serralheiro
