Caixa de ressonância da realidade juvenil

Pensar a Paróquia A paróquia é, certamente, a instituição religiosa que mais marcas deixa nos jovens. Positiva e negativamente. Psicológica e espiritualmente. No tempo em que gravitam à sombra da torre da igreja e ao longo da vida, quando, pelas mais diversas razões, se afastam. Nas fases normais de crescimento e amadurecimento e nos períodos da crise intempestiva e provocatória.

Os jovens manifestam-se como uma realidade diversificada complexa. Em todas as áreas da sua configuração psicológica e social. Em todas as expressões da originalidade do seu ser e da autenticidade do seu proceder, sobretudo a nível de relações interpessoais e geracionais.

A instituição paroquial, na sua vida comunitária, constitui um observatório privilegiado desta complexidade e “uma caixa de ressonância” daquelas marcas, deixando “a claro” desafios que exigem resposta adequada.

Alguns jovens, durante uma fase qualificada da vida, assumem um papel de verdadeiro protagonismo nos serviços paroquiais: liderança de grupos, animação de assembleias, caminhadas catequéticas e crismais, promoção de iniciativas ocasionais, festas e espaços de entretenimento, órgãos de reflexão e discernimento. Outros mantêm-se na área de influência da comunidade cristã, tomando parte nas celebrações dominicais, comparecendo quando são convocados, colaborando ocasionalmente na realização de tarefas. Outros ainda marcam presença nas festas populares da terra, nos momentos cruciais da vida, sobretudo aquando da morte de amigos e familiares, ou por ocasião de grandes acontecimentos pessoais com dimensão religiosa e social: baptismos, casamentos, regresso feliz de uma missão de risco.

Apesar da expressividade do número envolvido e da sua qualidade, é reduzido o impacto no “mundo” das juventudes, na Igreja e na sociedade. A sensação que a maioria dos jovens projecta da sua situação é plural, girando em volta de alguns pontos nucleares, designadamente: estarem numa igreja envelhecida e clerical, frequentarem celebrações cheias de ritos incompreensíveis e arcaicos, ouvirem doutrinas moralizantes em linguagens esquisitas e inacessíveis, serem “lembrados” apenas como prestadores de serviços, estarem convencidos que a Igreja e a sociedade caminham em vias paralelas e de que a fé constitui frequentemente um estorvo para obter êxito e singrar na vida profissional.

Por seu lado, os responsáveis paroquiais aparecem frequentemente a realizar funções burocráticas e formais, pouco inovadoras e sem horizontes, vinculadas a um sagrado sem rosto atraente, conotadas com posições ultrapassadas e contrapostas à onda de sucessos fáceis, desligadas da realidade da vida, sobretudo naquilo que ela tem de melhor: a amizade, a festa, a doação, a liberdade, a comunicação, a experimentação. Estes valores fazem parte das identidades configuradoras juvenis e, embora comportem ambiguidades, têm muito a ver com o Evangelho que a comunidade cristã da paróquia pretende servir com fidelidade e constância.

A amizade vai abrindo o jovem aos outros, criando novas formas de relação. Ajuda-o a vencer o ensimesmamento e a entrar na comunhão e na partilha do turbilhão das suas emoções e reacções. Proporciona-lhe um nível de vida qualificado: sai de si, sente-se bem, ajuda e é ajudado, intensifica a reciprocidade, ama o gratuito, aprecia o prazenteiro da doação.

A festa brota da alegria, do encontro, do reconhecimento comum, da celebração de algo que irmana e faz exultar. A dimensão festiva revela a vida “em explosão” e manifesta-se exuberante nas idades juvenis. Reveste muitos ritmos, tons e sons.

O seu desejo de serem livres é natural e irreprimível. Não imaginam um outro modo de vida pessoal nem societário. Muito menos eclesial. A compreensão da liberdade parece evoluir da capacidade de dispor de si a seu bel-prazer, seguindo as suas apetências, para uma outra dimensão: a de ser livre para servir por amor, a de renunciar a si e aos seus direitos pela felicidade dos demais. A disponibilidade radical para o serviço pode chegar à liberdade do mártir, que prefere afirmar a nobreza da causa que defende a manter a própria vida.

Outro valor muito apreciado pela geração nova é o estar em comunicação, sempre em linha, sobretudo com os amigos e colegas, poder enviar e receber mensagens de todo o tipo. O símbolo por excelência deste modo de ser é, por enquanto, o telemóvel, mas não tardará a surgir e a generalizar-se outro ainda mais eficaz. O estar conectado abre a uma nova dimensão que o zapping proporciona: alcançar rapidamente uma visão global do que é notícia na humanidade ou poder visionar um programa aliciante.

A ânsia de tudo experimentar e de buscar coisas sempre novas e radicais é outra característica da maioria dos jovens actuais. Aflige-os o repetitivo e o monótono. Dá-lhes enorme alegria a satisfação imediata do que apetece e seduz, do que brota espontâneo e não tem que ser justificado perante ninguém. A sensibilidade juvenil orienta-se mais facilmente pelo radar do que pela bússola, já que não tem um norte fixo, mas oscila conforme a intensidade dos estímulos que capta.

Estes traços do modo de ser e de estar dos jovens constituem apenas uma amostra do que vai acontecendo, também entre nós. Emerge e afirma-se cada vez mais uma nova compreensão da vida, da sociedade, da missão da Igreja, da função da paróquia. A cidadania, a nível civil, e o cristão amadurecido na fé capaz de dar as razões da sua esperança, a nível eclesial, pretendem expressar a novidade que desponta no meio de tanta ambiguidade e necessita de ser assumida e interpretada. Só assim se podem lançar pontes de união, alicerçar projectos de evangelização e lançar planos de renovação global.

A relação mútua dos jovens com a paróquia evidencia como ambos se necessitam e podem complementar. É do interesse de todos que se congreguem esforços e se promova a permuta de dons. A comunidade paroquial poderá dispor dos valores juvenis e, com eles, se enriquecer e estes poderão contar com a segurança daquela. Entretanto, há que percorrer um apaixonante caminho, de forma ousada e confiante.