Pensar a Paróquia O Espírito Santo é, simultaneamente, fonte de unidade e de diversidade. Desta fonte, provêm todos os dinamismos da vida cristã. A nível pessoal e comunitário, familiar e eclesial. No seio da instituição da Igreja e nos espaços da sociedade.
Estes dinamismos adquirem configuração humana em mediações que lhes servem de suporte para circularem e propiciam meios para se visualizarem. A família, a comunidade eclesial de base, a paróquia, a diocese, embora com graus de intensidade diferente, constituem espaços onde a comunhão prevalece como fruto da harmonia das diferenças. Por isso, são habitualmente designadas por comunidades. Os grupos etários e profissionais, as associações de piedade, os movimentos apostólicos ou de espiritualidade acentuam uma outra dimensão e manifestam novos horizontes da missão da Igreja e das suas formas de presença no mundo.
A paróquia e os movimentos apostólicos são a expressão mais notória desta pluralidade, procedente do Espírito por meio da Igreja, para expressar a riqueza de graças, dons, carismas, serviços e ministérios concedidos aos fiéis seguidores de Jesus Cristo.
A paróquia proporciona a iniciação cristã e a formação básica fundamental. Oferece espaços de vida comunitária a todos os que a procuram. Do nascer ao morrer. Nos momentos de maior felicidade e de sofrimentos amargos. Sem distinção de pessoas, a não ser as que um são realismo pastoral recomenda. Com atenção aos mais fragilizados, indo ao seu encontro e acompanhando-os em suas necessidades, dentro do possível.
A acção paroquial, embora possa ter outras manifestações, concentra-se na atenção aos que vêm e querem iniciar um processo de vida cristã, na preparação “episódica” dos que intervêm nas celebrações festivas, na formação intermitente dos que buscam os fundamentos da fé e das suas implicações actuais.
Apesar desta abrangência, muitos espaços ou âmbitos da vida social organizada estão para além da missão da paróquia. E, no entanto, são “habitados” pelos seus membros. Com efeito, pertence primordialmente aos leigos evangelizar as realidades temporais ou seja a família e a escola, a política e os partidos, o trabalho e a economia, os estilos de vida e a cultura, os direitos humanos e a justiça, as associações, a ecologia, o lazer e o entretenimento, a comunicação em rede e tantos outros meios condicionantes da qualidade da convivência humana.
Evangelizar estas realidades é próprio, dentro da missão da Igreja, de grupos especializados, de movimentos apostólicos, de institutos de vida consagrada. Agindo individualmente ou de forma associada, está-lhes confiada esta função irrecusável: desvendar o sentido profundo de tais realidades e relacioná-lo com o projecto salvífico de Deus que, em Jesus Cristo, nos dá a medida exacta da nossa humanidade e da sua vocação à plenitude.
Ausência de movimentos = anemia apostólica
Os movimentos têm a sua razão de ser na sociabilidade natural das pessoas, no apoio dado aos seus elementos para intensificarem a coerência da vida com a fé, nos recursos de que dispõem para a missão, nos métodos com que programam a acção a realizar, na eficácia apostólica que pretendem alcançar, na eclesiologia de comunhão que lhes serve de suporte e de seiva revigorante, no testemunho apostólico que, à maneira de clarão auspicioso, pode abrir horizontes à instituição paroquial e encher de ânimo o entusiasmo evangelizador dos seus membros.
Esta justificação evidencia a riqueza dos movimentos e, também, a sua exigência. Não é movimento eclesial quem quer ou o reclama, mas quem satisfaz certas condições. O direito de associação, que pertence aos cristãos, a partir do baptismo, situa-se na Igreja comunidade hierárquica, orgânica e dinâmica.
As exigências decorrentes são objectivas e facilmente observáveis: aspirar à santidade, professar a fé católica, viver uma comunhão sólida, situar-se na missão da Igreja e prosseguir os seus objectivos, marcar presença empenhada e qualificada na sociedade, estar atento à novidade que as transformações culturais comportam e saber escutar o que o Senhor vai dizendo à Igreja como outrora disse às comunidades cristãs do Apocalipse.
A satisfação destas exigências credencia a autenticidade dos movimentos e a qualidade da sua acção. Se pelo fruto se conhece a árvore, assim o movimento. E, se se deixa morrer a árvore que está envelhecida e sem capacidade de revigoramento, assim o movimento. E, se se muda a árvore porque se encontrou uma outra mais indicada para o terreno em que estava implantada, assim o movimento. E, se se poda a árvore para concentrar energias, crescer e se fortificar, assim o movimento. Mas, enquanto está, cuidase dela, protege-se da intempérie e apreciam-se os frutos.
A paróquia que, sinceramente, quer o bem dos seus fiéis precisa absolutamente de se abrir aos movimentos. Não de maneira indiscriminada. Nem apenas por simples parecer de algum devoto, mesmo qualificado. O ponto de referência fundamental está na atenção às necessidades reais de quem tem de dar as razões da sua esperança em contextos novos, complexos e, por vezes, hostis, e a fidelidade à Igreja que, por meio do magistério, define critérios e dá orientações.
A relação entre a paróquia e os movimentos explica, em parte, a situação em que vivemos: uma certa anemia apostólica e uma quase insignificante presença na sociedade. Melhorar esta relação é dar passos positivos na sua transformação. Assumir a reciprocidade complementar parece ser o maior desafio com que se debatem os responsáveis, pois aquela relação vitaliza muitas energias adormecidas e preanuncia uma nova primavera pastoral.
