Família, que família?

Colaboração dos Leitores “Mais de metade dos casais portugueses não tem filhos. E um terço tem apenas um filho.

A maioria dos que têm filhos não quer mais tempo para dedicar à família. Não quer prejudicar a sua vida profissional.

Pelo contrário, a maioria dos europeus gostaria de ter mais tempo para cuidar da família.

Além disso, temos em Portugal mais automóveis por habitante do que a média europeia. Na União, só a Itália e o Luxemburgo têm mais carros.

Ou seja, a família deixou de ser uma prioridade para a maioria dos portugueses. A profissão e os bens de consumo passam à frente.

Como se estes sinais não bastassem, há quem, à esquerda, pretenda o divórcio na hora, tornando o casamento um compromisso sem significado.

E também há quem, à direita, queira minar ainda mais os alicerces da família.

Conviria reflectir e ver ao que nos leva esta falsa modernidade, afinal não tão europeia como às vezes se pensa.”

Francisco Sarsfiel Cabral,

in “página1”. www.rr.pt

Francisco Sarsfield Cabral, neste editorial que acima transcrevo da edição online da Rádio Renascença, sugere que reflictamos sobre esta falsa modernidade.

De facto, que família é esta que estamos a ajudar a construir?

Tenho em particular estima este assunto, que, embora tão importante e primordial para a sociedade, anda como que esquecido pelas “altas patentes” culturais e políticas deste país à beira-mar plantado. Como é natural, este assunto não é somente a mim que me interessa e suscita tanta reflexão. O saudoso Papa João Paulo II, nas suas mais variadas mensagens, tal como o actual Papa Bento XVI, colocam na família uma importância elevadíssima. Expressões como “a família é a Igreja doméstica”, “célula básica da sociedade”, “família, património da humanidade”, entre muitas outras, são o exemplo claro da sua riqueza e lugar destacado.

Se tudo isto é verdade – e eu acredito claramente que sim –, por que é que, particularmente no nosso país, a família perde importância? Ainda por cima, isto acontece num país que tem das mais altas taxas de católicos na Europa. Cerca de 90% ou algo próximo desses valores…

É de estranhar, não? Será que as estatísticas estarão erradas?

As estatísticas podem ter naturalmente alguma margem de erro. Mas, na sua essência, lendo bem os dados, verificamos que não estarão assim tão errados. Os portugueses dizem-se católicos. Então, onde é que falhamos?

Faço uma análise simples, a partir de um exemplo. Talvez muitos mais factores se poderão acrescentar a este meu ponto de vista.

Em quase todas as dioceses do país, senão mesmo em todas, se celebrou com bastante efusão e alegria a “festa das famílias” ou o dia mundial da família, no passado fim-de-semana (19-20 de Maio de 2007). Mas, de facto, quem é que celebrou esse dia? Quem foram as pessoas que aderiram a esse e outros projectos diocesanos? Serão efectivamente a grande maioria das famílias cristãs? Eu acredito que sim, que as familias cristãs na sua maioria aderem naturalmente a este tipo de celebração e eventos. Portanto, só posso concluir que, se calhar, não somos assim a tal maioria que tanto se apregoa. Porque, a olhar para os ecos que vieram das mais variadas dioceses do país, o número de participantes não foi assim tão elevado como poderia e deveria ser.

Deve ser então, de facto, alvo de séria e forte reflexão.

O papel da família cristã na sociedade deve ser, de facto, alvo de séria e forte reflexão. Se calhar, não estamos a ser o tal fermento na massa, não estamos a ser o farol deste deserto de ideias e valores pelos quais se vão pautando os nossos políticos. Com certeza que muitos destes políticos e mestres da cultura portuguesa serão baptizados. Dizem-se católicos, mas com isso apenas contribuem para aumentar o número… Entretanto, Portugal olha para a Europa e para os exemplos que de lá vêm. Quer imitar aquilo que precisamente poderia e deveria ser relegado para as calendas.

Fernando Cassola Marques