O Espírito sacode

O meu desejo é continuar a reflexão sobre a pujança do Espírito, que, sob as mais diversas formas, surpreende todos os prisioneiros das águas paradas, da tranquilidade estéril, da ordem esgotada. Mesmo em âmbitos que nos parecem distantes do Seu “terreno”, Ele aí está, a suscitar continuamente os lampejos de novos rumos.

Estamos certos de que a verdadeira glória de Deus é o bem de todos os Homens e do Homem todo. Também as manifestações de maturidade na cidadania, de empenho livre nas causas da sua promoção, são sinal da fecundidade da presença de Deus no tecido da história humana.

“Os partidos portaram-se mal” – diz a candidata. Por tal razão, deixaram de cumprir a sua missão de motivar a sociedade civil para a acção cívica, antes impondo um paradigma de actuação desenhado nas costas dos cidadãos e ideologicamente dirigido. Daí, a existência de movimentos emergentes, que dão voz e vez aos cidadãos.

É facto que as famílias políticas foram o suporte do nascimento e consolidação de muita estruturação da sociedade; deram corpo a muitas ideias e anseios dos cidadãos; projectaram e levaram a cabo profundas mudanças sociais; desenvolveram uma cultura da participação…

Mas portaram-se mal: quando se tornaram feudo de pequenas minorias “pensantes”; quando se transformaram em veios de transmissão de interesses ocultos; quando resultaram em aparelhos monolíticos de poder… Esquecendo a sua missão de serem areópagos de ideias plurais, espaços de sonhos diversificados, instrumentos de contributo à causa do bem comum.

Assim sendo, “o ribeirinho não morre; vai correr por outro lado”. Isto é: a legítima ânsia de intervenção pessoal, a energia somada de “grupos de projecto”, geram novos tecidos embrionários de participação, que emergem na sociedade como as novas oportunidades de cidadania activa, que as pessoas acolhem e sustentam. Até que, porventura, se deixem prender a formas estratificadas, incapazes de fazer o desenvolvimento histórico e venham elas também a ser contestadas.

Neste fluxo da história das sociedades, que atravessa os tempos e os lugares, há uma vida permanente que não cabe em nada do que seja letra morta e suscitará sempre novos movimentos. Mostra-o o percurso da humanidade, mesmo quando as formas vigentes se tornam totalitárias. Mais dia menos dia, virão a cair! Onde e quando menos se pensa, o Espírito sacode as águas apresadas pela incúria ou interesse egoísta das pessoas!