Sempre as Horas do Tempo Pascal

Estar morto espiritualmente é terrível: é o fundo vazio do desejo, no seu lado avesso, a alma sem esperança. A certeza da Vida reside num tempo de vida unido, grávido e oferecido. Tempo unido, que é coesão interior, feita da “vontade” cumprida no vigor ético. Tempo grávido, porque é agraciado em Deus, fonte de todos os dons, experimentados e sonhados. E tempo oferecido, doado e sacrificado, na generosidade para os outros (os pequenos, os prostituídos, os pobres). Aí e só assim, seremos feitos dum Tempo Pascal unido, grávido e oferecido. Esta é a minha desejada ressurreição, pequena realização instável, numa santidade comunitária.

Numa circunstância, reflexiva e existencial, viajando de avião (que eu seja todo transparente: Voo 1698/Voo 1970, GOL, preço na concorrência: 384,42R); no regresso de uma assembleia interna, a ida foi um “pouquinho” mais cara, (resumindo tudo, com “3 T.T.T.” = trabalho, turismo, terapia). Tempo “gasto” das 9h28 às 15h44, partindo de Belo Horizonte (MG), ponte em Brasília (DF), chegada em S. Luís do Maranhão (MA), também num sentido transcendental, em que o tempo livre, é sempre o “aqui e agora” do meu melhor tempo ocupado.

Saboreei, durante essa viagem atípica, a leitura meditada da obra “A intuição do instante”, de Gaston Bachelard (1884-1962), dela permanece esta delimitação incisiva, do que preciso praticar. Um dos meus lemas actuais, cozido e cru, é: “O que não está no horário não existe!” (inspirado por J.B.Libânio). Ficam dois excertos, densos, para encher as nossas horas de Páscoa diária:

Excerto I. “(…) Sentimos então um surdo sofrimento, quando saímos em busca dos instantes perdidos. Lembramo-nos daquelas horas ricas que se marcam ao compasso dos mil sons dos sinos da Páscoa, desses sinos da ressurreição cujas batidas não se contam, porque todas elas contam, porque cada qual tem um eco em nossa alma desperta. E essa lembrança de alegria é já um remorso, quando compararmos, a essas horas de vida total, as horas intelectualmente lentas porque relativamente pobres, as horas mortas porque vazias – vazias de desígnio, como dizia Carlyle do fundo de sua tristeza -, as horas hostis intermináveis que dão em nada.

E sonhamos com a hora divina que daria tudo. Não a hora plena, mas a hora completa. A hora em que todos os instantes do tempo seriam utilizados pela matéria, a hora em que todos os instantes realizados na matéria seriam utilizados pela vida, a hora em que todos os instantes vividos seriam sentidos, amados, pensados. A hora, por conseguinte, em que a relatividade da consciência seria apagada, porque a consciência seria a exacta medida do tempo completo.

Finalmente, o tempo objectivo é o tempo máximo; é aquele que contém todos os instantes. Ele é feito do conjunto denso dos actos do Criador”1.

Excerto II. “(…) No próprio amor, o singular é sempre pequeno, permanece anormal e isolado: não pode tomar lugar no ritmo regular que constitui um hábito sentimental. Pode-se colocar, em torno de suas lembranças de amor, todo particular que se quiser, a sebe de pilriteiros ou o portal florido, a noite outonal ou a aurora de Maio. O coração sincero é sempre o mesmo. A cena pode mudar, mas o actor é sempre o mesmo. A alegria de amar, em sua novidade essencial, pode surpreender e maravilhar. Mas, vivendo-a em sua profundidade, nós a vivemos em sua simplicidade. Os caminhos da tristeza não são menos regulares. Quando um amor perdeu seu mistério perdendo seu futuro, quando o destino, fechando o livro abruptamente, pôs termo à leitura, reconhecemos na recordação, sob as variações da saudade, o tema – tão claro, tão simples, tão geral – do sofrimento humano. À beira do túmulo, Guyau dizia ainda um verso de filósofo: «A felicidade mais doce é aquela que se espera». Nós mesmos lhe responderemos, evocando «A felicidade mais pura, aquela que se perdeu»”2.

1 BACHELARD, Gaston, A intuição do instante, Verus Editora, Campinas, 2007, pp. 50-51.

2 IDEM, o.c., pp.89-90.