Valorizar o Trabalho, dignificar a Pessoa

A LOC/MTC Diocesana a caminho do seu XIII Congresso – 3 Realiza-se em Setúbal, de 7 a 9 de Junho, o Congresso da LOC/JOC, com a participação da equipa de Aveiro, que proporciona, esta semana, uma terceira reflexão sobre o trabalho.

Na continuidade da caminhada preparatória para o seu congresso, os militantes da Liga Operária Católica / Movimento de Trabalhadores Cristãos, depois de eleita a prioridade – O Trabalho –, buscam o seu discernimento na fé, dignificando a pessoa.

A nossa acção é fundamentada nos ensinamentos do Evangelho. Seguindo o exemplo de Jesus de Nazaré, colocamos a pessoa em primeiro lugar. Vivenciar no nosso dia-a-dia a mensagem do Evangelho é o ingrediente para promover a emancipação da classe trabalhadora, criando um mundo em que cada pessoa possa usufruir totalmente da sua dignidade de pessoa humana.

Ao dispormo-nos, como cristãos, a percorrer o caminho de homens e mulheres do Mundo do trabalho, “esforçamo-nos por discernir nos acontecimentos, nas exigências e aspirações, quais são os verdadeiros sinais da presença ou da vontade de Deus”, num mundo criado por Ele e posto ao serviço da pessoa humana.

A dignidade da pessoa do trabalhador está ferida. O princípio primeiro e fundamental, que é o da dignidade da pessoa, sofre violências e injustiças naquilo que mais contribui para a realização do ser humano, o trabalho.

São milhares os trabalhadores que vêem o seu trabalho desvalorizado, porque não é justamente remunerado. “Ora, ao que trabalha, não se lhe atribui o salário como dom gratuito; é coisa devida”1. Não podemos cair na tentação de dizer que já é um privilégio ter um emprego, pois há muitos trabalhadores que não auferem um salário justo pelo trabalho que desempenham.

Outra causa da desvalorização são os vínculos precários e as condições de trabalho a que muitos trabalhadores estão sujeitos, pondo em risco a sua segurança e saúde. Porém, o risco mais visível, notório e extremo de desvalorização do trabalhador, é o desemprego estrutural crescente a que temos assistido nos últimos anos.

Na visão economicista do trabalho, o que importa salvaguardar é a produção e o lucro, esquecendo-se de quem está por detrás de tudo isso: a pessoa do trabalhador. “O trabalho, independentemente do seu menor ou maior valor objectivo, é expressão essencial da pessoa. Qualquer forma de materialismo e de economicismo que tentasse reduzir o trabalhador a mero instrumento de produção, a simples força de trabalho, a valor exclusivamente material, acabaria por desvirtuar irremediavelmente a essência do trabalho”2.

Valorizar o trabalho e a dignidade da pessoa é contribuir para edificar a vida familiar. “A primeira e fundamental estrutura a favor da «ecologia humana», é a família”3 Esta é o espaço privilegiado de educação e formação na socialização de afectos, valores e saberes humanizadores. Mas acontece que este espaço se encontra debilitado, pelo facto de muitas famílias viverem no limiar da pobreza e até passarem fome. “A família, portanto, há-de ser considerada, com todo o direito, protagonista essencial da vida económica, orientada não pela lógica do merca-do, mas segundo a lógica da partilha e da solidariedade entre as gerações”4.

A dignidade e valorização da pessoa e do trabalho humano, são por si só razões suficientes para continuarmos a lutar com coragem e determinação pelos mesmos. Ao fazermos um acto de fé na pessoa humana, acreditamos em novos dinamismos que fomentem o verdadeiro desenvolvimento, sem nos deixaremos vencer pelo desânimo e pelo desencanto.

Por isso, cabe a cada um de nós, trabalhadores cristãos, cidadãos do mundo, o exercício da cidadania participativa: “A profundidade e rapidez das transformações reclamam com maior urgência que ninguém se contente, por não atender à evolução das coisas por inércia, com um ética puramente individualista. O dever de justiça e caridade cumpre-se cada vez mais com a contribuição de cada um em favor do bem comum”5.

O nosso agir passa por anunciar com toda a fidelidade a verdadeira justiça; junto com os outros trabalhadores participamos da construção do Reino de Deus, assente numa solidariedade organizada e sustentada nos valores do Evangelho. É neste espírito que vamos participar com empenhamento no nosso congresso.

Equipa diocesana da LOC / MTC

1 – Concílio Vaticano II. Constituição Pastoral sobre a igreja no mundo actual – Gaudium et Spes nº 11

2 – Epístola de S. Paulo aos Romanos – Ro 4,4

3 – Compêndio da Doutrina Social da Igreja nº 271

4 – Compêndio da Doutrina Social da Igreja nº 248

5 – Concílio Vaticano II. Constituição Pastoral sobre a igreja no mundo actual – Gaudium et Spes nº 30