No sofrimento e no bem-estar, na saúde e na doença

Pensar a Paróquia A comunidade cristã da paróquia é portadora de um projecto de vida em que a saúde e a doença ocupam lugar específico e adquirem valores de humanização integral. O sofrimento acompanha a realização deste projecto, pois é fruto, basicamente, da desproporção entre as nossas aspirações de “mais e melhor” e o realismo das limitações que sempre nos condiciona e situa. Saber gerir o impulso deste contraste e conseguir tirar partido da sua energia é desafio que exige resposta adequada a cada fase em que a pessoa se encontra.

Múltiplas feridas

A educação para a saúde faz parte da missão da comunidade paroquial. A vida é um dom que se deve acolher, apreciar e desen-volver de maneira responsável e digna. Jesus Cristo mostra, por acções e palavras, como a sua missão está ao serviço da recuperação da saúde em todas as dimensões. Além disso, deixa o imperativo apostólico: “Ide e curai” e envia o Espírito Santo para alento e reforço dos que, na sua Igreja, assumem este encargo.

A pastoral paroquial é organização dos serviços correspondentes feitos com espírito evangélico: o acolhimento de quem se abeira por necessidade, o diálogo amigo de ajuda e reconforto, a celebração da Palavra e da Eucaristia que recupera ou revigora as energias gastas na dureza da vida, as catequeses e encontros de crianças e de jovens “assaltados” por tantas “feridas” na harmonia do seu crescimento, o acompanhamento de quem sente o peso da solidão quer pela idade avançada quer pela doença persistente, as festas familiares e populares que frequentemente irmanam uma população e esquecem os que passam horas difíceis ou estão prostrados por alguma depressão, a solicitude pronta e generosa dos que se preparam para receber nas melhores disposições a visita da irmã morte.

O estilo de vida sã alarga-se da pessoa à sociedade. A sentença antiga de “mente sã num corpo são” revela-se insuficiente e redutora. Há forças poderosas e insinuantes, que poluem eticamente o ambiente e os espaços em que as pessoas habitam. Cresce, embora lentamente, a consciência da necessidade de uma ecologia moral englobante de todos os âmbitos da vida pública e privada, que restitua e potencie a limpidez e a harmonia do planeta azul – a nossa terra mãe –, que encaminhe o olhar humano para as estrelas do céu e facilite a contemplação do universo onde se espelha a (des)sorte da nossa comum humanidade.

Saúde integral

Os cuidados da saúde têm feito grandes progressos e obtido resultados notáveis. Todavia, as instâncias sociais que os promovem reduzem frequentemente o âmbito da sua aplicação e, por vezes, desvirtuam-no, dando origem a um estilo de vida pouco são. Sirva de exemplo o que acontece com a produção e o consumo de certos alimentos, com a banalização do sexo, com o sedentarismo e a obesidade, com o recurso e a dependência de drogas, com a competitividade e as patologias da abundância, com o culto idolátrico ao corpo humano, com o esvaziamento ético da vida interior. Um estilo de vida com estas características ou outras semelhantes provoca o maior número de enfermidades – afirmam especialistas.

As pessoas que pertencem à comunidade cristã, frequentam os seus espaços e observam os seus ensinamentos, aprendem a viver de maneira saudável. É o ser humano, no seu todo, que está em causa e Jesus lhe confia. Não para substituir as ciências médicas ou outras, mas para que seja a pessoa integral a ser ajudada a cuidar de si e, se puder, das circunstâncias que a condicionam. O bem-estar corporal é saudável, mas não pode esquecer a saúde afectiva, relacional, mental e espiritual. Não há doentes, mas pessoas que estão doentes. Curar a enfermidade é óptimo, mas não pode ser esquecida a sua repercussão psicológica, afectiva e relacional. E ainda a dimensão espiritual e transcendente de todo o ser humano.

Viver de modo saudável é gerar a unidade em harmonia de todas as dimensões da pessoa. O Evangelho visa sanar as estruturas enfermiças da sociedade e não apenas as dos indivíduos. Por isso, o núcleo da “evangelização sanitária” está na relação entre todos os intervenientes nesta área tão crucial para o ser humano realizar a sua vocação a uma vida plena. A nível humano sem mais ou a nível humano aberto à transcendência.

Missão curativa

A saúde espiritual faz parte da integralidade da pessoa. E, embora possa estar quase esquecida, são muitos os que apreciam o seu contributo para a vida saudável que tanto se deseja. Mais ainda, há quem a valorize como fonte de paz interior, de amor incondicionado, de busca da verdade a respeito de si mesmo e dos outros, de honradez perante a sua consciência, de lucidez compassiva para com a espoliação da dignidade a que tantos se vêem forçados, de capacidade de dar e de receber o perdão incondicional.

A comunidade cristã paroquial desempenha uma notável missão curativa, se educar os seus membros e, por meio deles, irradiar na população este modo de ver, de viver e de conviver. Os valores maltratados por certas correntes culturais devem merecer-lhe especial atenção: estilo de vida sóbrio e simples; cuidado da vida interior; cultivo da gratuidade, que vai além do preço justo ou da medida equitativa; gosto pela estética e encantamento pela beleza; desfrute e contemplação das maravilhas da criação, transparência do coração e delicadeza da consciência, onde ecoam normalmente os apelos do Espírito, busca do sentido salvífico do sofrimento.

O sofrimento não tem sentido em si mesmo. É fruto derivado da tensão que vive a natureza humana. Está “nas mãos” de cada pessoa e da comunidade paroquial darem-lhe o sentido que comporta. Jesus Cristo revelou-o plenamente: sofrer por amor humaniza e salva.