Igreja premeia Manoel de Oliveira ECCLESIA/CV
Distinção destaca síntese explícita entre os valores cristãos, a abertura à transcendência e a dimensão artística cultural
No terceiro ano da sua atribuição, o Júri do “Prémio de Cultura – Padre Manuel Antunes”, instituído pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, decidiu premiar “o maior dos nossos cineastas”, Manoel de Oliveira.
O anúncio deste prémio de atribuição anual, que visa destacar um percurso, ou uma obra no espaço da cultura portuguesa contemporânea, que faça uma síntese explícita entre os valores cristãos, a abertura à transcendência e a dimensão artística cultural, foi feito no sábado passado, em Fátima, no decorrer das III Jornadas da Pastoral da Cultura.
O Padre Manuel Antunes, sj, (Sertã, 1918 – Lisboa, 1985) serve de inspiração a este prémio, porque, na sua multíplice actividade de universitário, crítico e ensaísta, buscou, incansavelmente, colocar em diálogo a Fé e a Cultura.
Justificação do Júri
O júri, constituído por D. Manuel Clemente (Presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais), João Aguiar (Presidente do Conselho de Gerência da Rádio Renascença), João Bénard da Costa (director da Cinemateca), Maria Teresa Dias Furtado (professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), Hermínio Rico, sj, (director da Revista “Brotéria”) e José Tolentino Mendonça, (Director do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura), considerou Manoel de Oliveira “cineasta da ‘re-ligação’ e cineasta do Sagrado”.
Falando de José Régio – que, com Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa, considerou em 1959, os três maiores poetas portugueses do século XX e “três grandes poetas do sagrado” – Manuel Antunes escreveu que Manoel de Oliveira era também o “poeta da nossa vontade de quebrar e ultrapassar os limites, dos nossos esforços por encontrar uma verdade sempre entrevista jamais contemplada, da nossa insaciável fome de Deus”, lê-se na nota do Júri.
“Saudade
da eternidade”
Reportando-se a algumas obras de Manoel de Oliveira, o júri considerou que nos seus filmes, a beleza é saudade da eternidade: “Quando filmou Mon Cas, em 1986, Manoel de Oliveira falou do “sinal inexorável e inextinguível da presença de Deus”. “Libertai as almas cativas!” eram as palavras finais do Soulier de Satin [“O sapato de cetim”]. No seu cinema, marcado por uma dualidade que Manuel Antunes tanto sublinhou nos nossos maiores, a beleza é como que uma saudade da eternidade. É um apelo a uma unidade primordial e final de que, na sua obra, vemos os reflexos esparsos, sabendo-se “parte da parte” de um Todo “por vir”.
Com este prémio, o cineasta portuense sucede ao poeta Fernando Echevarria (2005) e ao padre e cientista Luís Archer (2006).
MANOEL DE OLIVEIRA
Longos planos, imagens paradas, diálogos teatrais, relevo à palavra marcam o cinema de Manoel Oliveira, mais apreciado fora do país, onde recebeu inúmero prémios (Leão de Ouro no Festival de Veneza; Prémio do Júri no Festival de Cannes; Medalha de Ouro no Festival de Siena…), do que em Portugal.
Manoel Cândido Pinto de Oliveira nasceu no Porto, em 1908. Tendo-se distinguido como desportista (foi atleta e automobilista), iniciou-se no cinema com o documentário “Douro, Faina fluvial”, em 1931. Em 1942, surge primeira longa-metragem, “Aniki-Bobó”.
O autor de “Francisca”, “O meu caso”, “Vale Abraão”, “Non, ou a Vã Glória de Mandar”, “Palavra e Utopia” (sobre o Pe António Vieira), “O Princípio da Incerteza”, entre muitos outros, é o realizador mais antigo em actividade a nível mundial. Completa 99 anos próximo dia 11 de Dezembro.
