A Árvore de Zaqueu Há pessoas que não andam neste mundo. Nem sequer se preocupam com as injustiças comuns – aldrabices na construção, compadrios nas autarquias e ministérios, subornos, «imunidade» dos poderosos que atropelam as leis elementares, desinteresse pelas pessoas da parte de serviços pretensamente públicos… e um sem fim de atentados diários mais assassinos que os de 11 de Setembro.
Outras julgam ouvir Deus perfeitamente, só porque se preocupam com um ritual mágico de limpeza dos ouvidos.
Mas há pessoas «de outro mundo» que não desarmam de modo algum. E que gritam bem alto que ser bom é agir bem (2.ª leitura) – tão alto que há sempre uns «desgraçadinhos» (na opinião dos «bem instalados» por meio de jogadas desonestas) que se deixam convencer e chegam a morrer por excesso de honestidade.
Quem são estes que parecem descarrilar da dimensão em que vivemos?
Muitas religiões têm «profetas» infractores dos nossos códigos de felicidade. E não interessa julgar qual deles será «o maior» no «reino de Deus» (Marcos 9,34; Mateus 20,20-23). A atitude mais sábia é descobrir as riquezas do terreno que melhor conhecemos e reflectir sempre mais – e o bom fruto será aumentar o apreço e caminhar de braço dado com todos os que querem «trabalhar com Deus», embora pareçam por vezes seguir «outro Deus».
Também Isaías foi um profeta desajustado. Queixa-se de que os contemporâneos lhe fazem as piores patifarias, mas não deixa de acreditar na fidelidade de Deus – o único verdadeiro defensor da vida. E por isso é capaz de resistir ao sofrimento causado pela dedicação à felicidade de toda a gente.
Jesus foi ainda mais além: evitou a publicidade, para dificultar jogadas de vaidade ou interesse; preferiu ver-se abandonado pelos amigos e deixou-se matar. Mas quando os amigos limparam os ouvidos de modo a escutar a mensagem de Deus, não lhe quiseram ficar atrás em generosidade: procuraram fazer os outros felizes à custa da própria vida.
A acreditar em S. Marcos, Jesus terá dito: «Quem me quiser seguir, negue-se a si mesmo» – diga «não» a «Satanás» («tentador»), à inclinação automática, «a-racional» (isto é, sem implicar o nosso poder de pensar), que nos leva a fazer o que é de imediato mais agradável.
Mas não é verdade que «as pessoas de sucesso», as pessoas que se «preocupam por ganhar o mundo» (evangelho) também são notável exemplo desde poder de dizer «não» ao prazer imediato? E não é de admirar a «estratégia política» de S. Pedro, «tomando Jesus à parte» para mais insidiosamente o fazer mudar de ideias? Deixemo-nos de beatices: Pedro é que tinha razão quanto ao valor mais caro a um ser humano: defender a própria vida e viver o melhor possível (o «reino de Deus» é um estado de «bem-estar», como prova a acção do próprio Jesus).
No entanto, Jesus chamou a Pedro de «Satanás»: por não ser capaz de se libertar da noção corrente de «vida com sucesso».
Porém, o evangelista joga com o termo hebraico «vida»: tanto significa o nosso estado de tensão com a morte, como significa «o verdadeiro eu». Que interessa viver arrastado por estratégias de sucesso quando se destrói o prazer de viver a própria vida?
«Levar a sua cruz» ganhou por vezes um sentido de fatalidade, como se fôssemos lançados por Deus a um «vale de lágrimas» e que nos restava apenas entrar nas igrejas para chorar (por vezes, só nos faz bem, sobretudo se procuramos a janela que se pode abrir quando se fechou uma porta…).
«Levar a sua cruz», porém, tem mais o sentido da força empreendedora de um projecto, em que sabemos gerir as dificuldades inerentes. Ganha o sentido optimista de concentrar energia para pegar na vida – mostrando aos outros como se pode ser feliz «apesar de tudo» e como «o peso de tudo», mesmo se pouco ou nada depende de nós, pode ser aproveitado para formar os mais sólidos alicerces do que vamos descobrindo ser a felicidade.
Parece uma linguagem de loucos. Será a linguagem da nossa «5ª dimensão»?
Manuel Alte da Veiga
m.alteveiga@netcabo.pt
(Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico)
