A 7 Km de Jerusalém

Poço de Jacob – 138 Está à venda um livro, e do qual já foi feita uma adaptação para cinema, que tem este título: “A 7 Km de Jerusalém” (ed. Lucerna). Os livros sempre são mais autênticos para saborear na inteligência. O filme alimenta a imaginação e enche-nos de imagens lindas. A história é a de um semi-ateu com a vida familiar, afetiva, profissional… totalmente destruída, apesar de rondar a casa dos 40 anos. Cético diante da fé e das suas manifestações.

Quando olhamos para o contributo das religiões para a paz mundial, vemos que as mesmas nos alimentam o ceticismo, quando não a revolta e a apostasia, tal é o escândalo que vemos na nossa própria igreja em vários aspetos. O nosso Alessandro vivia esse ceticismo até que coisas incríveis começam a acontecer na sua vida rotineira de quem não tem nada para fazer. O livro é pura ficção, mas interpela profundamente. Vale a pena ser lido. O personagem vê-se a caminho de Emaús, em pleno Israel, e, a 7 Km de Jerusalém, encontra o próprio Jesus Cristo, que o interpela para um encontro sério na sua vida.

Muito bem elaborado, o livro não pretende dar respostas, mas somente deixar no ar algumas questões que o leitor terá de responder a partir da fé. Temos um Jesus evasivo que não mata curiosidades. Mas olha e fala ao homem com ternura, idependentemente da sua condição. Por isso, com base na fantasia que o filme (disponível – e completo – no Youtube) nos proporciona, ficamos a pensar: E se Jesus tivesse a feliz ideia de fazer isso com cada homem? Sentar-se ao nosso lado, visivelmente. Tocar-nos como fez com tantos no seu tempo. Olhar para nós e deixar que de dentro de nós saíssem todos os queixumes, todas as revoltas, todas as questões, todas as curiosidades, mesmo arqueológicas, ligadas às suas relíquias, por exemplo, ou sobre a autenticidade dos lugares santos… Se Ele permitisse que eu visse o meu pai, mãe, filho, esposa defuntos e soubesse o que sentem hoje no agora eterno do Céu… Se pudéssemos sentir aquele abraço que dispensa todos os outros e o seu odor suave e o bater do seu coração, como permitiu a João na Última Ceia… Ah, pensei, que perguntas faria eu a Jeus se Ele se sentasse na minha sala? Que Lhe diria? Valeria a pena fazermos uma lista mesmo sem esta possibilidade se concretizar na terra, como é lógico. Pelo menos, enfrentaria os meus fantasmas e olharia de frente as revoltas recalcadas, e as dúvidas reprimidas, as lágrimas não choradas e as palavras nunca ditas por medo de o ofender ou de perder a fé.

Deixaria no papel a parte do meu íntimo que eu procuro abafar para não me incomodar ou questionar, pois podem mudar o rumo da minha vida atual. E sei que, fazendo isso, passando para um caderno tudo isso e lendo diante do Tabernáculo, sentir-me-ia mais livre, embora sem respostas imediatas… E também sei que se um morto ressuscitar haverá quem não acredite, como Ele mesmo afirmou, pois Deus criou-nos com a possibilidade de o negar…

Sei que se uma pessoa o visse sentado na sua sala e o cobrisse de perguntas, Jesus poderia ir embora sem nada mudar por essa pessoa não ter aberto verdadeiramente o coração… e também sei, pois são os místicos da Igreja que o dizem, que estando na presença de Deus em Jesus Cristo, na sua humanidade, desaparecem as questões, as perguntas e as dúvidas, pois saciar-nos com a sua imagem é quanto nos bastará para termos todas as respostas. Quero ficar assim, pensando no livro de que vos falo e nas imagens do filme, certo de que nunca o verei sentado na minha sala. Mas a fé diz-me que Ele fez morada no meu coração e aí encontrarei todas as respostas para todas as questões, até ao dia que ficar a língua muda para que somente a Palavra do Pai se possa ouvir na eternidade feliz.

Vitor Espadilha