“A arrogância de dizer «não» a um nobre árabe abriu-me as portas do Médio Oriente”

Agostinho Gomes Duarte, 58 anos, trabalha artisticamente o azulejo. Painéis seus podem ser apreciados num palácio da Arábia Saudita, num centro de congressos de Paris ou numa associação de emigrantes em Newark (EUA). Com ateliê e fábrica em Espairo (Curia, Anadia), numa altura em que acontecem um pouco por todo o país feiras de artesanato, o Correio do Vouga foi conhecer o artista e a arte secular tipicamente portuguesa. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira

CORREIO DO VOUGA – Como é que chegou à arte dos azulejos?

AGOSTINHO DUARTE – Comecei nesta arte em 1982, embora na altura também fizesse louça. A vida obrigou-me a ir pelas artes. Eu era emigrante na Venezuela e dava aulas de Belas-Artes numa academia. Pintava a óleo. Quando regressei, não me deram equivalência – porque tinha saído daqui apenas com a instrução primária – e decidi enveredar pelas artes do azulejo…

…que já o levaram até bem longe, ao Médio Oriente, por exemplo.

Sim, trabalhei na decoração do átrio interno de um palácio na Arábia Saudita, de uma família muito rica cujo nome não devo revelar. Foi um trabalho que gostei muito de fazer. Tudo começou porque tive a arrogância de dizer “não” a um nobre árabe e ele quis saber o porquê da recusa de ocidental. E eu expliquei-lhe que um trabalho tão grande devia narrar uma história em vez de representar episódios sem nexo. Lembro-me de alguns: um macaco humanóide a despejar frutos para cima de uma espécie de Dama das Camélias; um alquimista no meio de explosões… Ele pediu-me então para eu apresentar um projecto. Uma vez que uma das alas do palácio seria para o Cônsul de Portugal e como os portugueses andaram por lá na época das Descobertas – vi por lá fortalezas que ainda tinham as Cinco Quinas – propus representar os descobrimentos portugueses: o Infante D. Henrique a contemplar o mar e a sonhar com os descobrimentos; as caravelas em alto mar, as paragens que teriam tido, a chegada a terra.

Foi a sua maior obra?

Os quatro painéis tinham uma área de 152 metros quadrados. É muito azulejo. Mas fiz outros trabalhos grandes, como os painéis do Centro de Congressos de Paris, ligado ao Intermarché, no sítio onde se passa a história dos Mosqueteiros. Trabalhei também para algumas das lojas da cadeia em Portugal.

O trabalho da Arábia Saudita abriu-lhe as portas para outros negócios?

Sim, depois desse primeiro trabalho, aplicado em 2008, surgiram outros no Bahrein e no Dubai, sempre inspirados na azulejaria portuguesa do século XVIII. Eles pagam aquilo que a gente diz. E adiantado. Não brincam em serviço.

Quando não está concentrado em grandes trabalhos, o que faz?

Naturalmente, vou fazendo os temas de que as pessoas gostam mais. Os temas românticos vendem bem: os namorados no jardim, por exemplo. E o ciclo da vinha: a vindima, o transporte, a poda, a prova, a pisa. Tudo isso tem muito boa saída para casas particulares e adegas, associações culturais, clubes, garrafeiras. Também faço números das portas e placas toponímicas para as juntas de freguesia.

Um dos trabalhos recentes foi um painel com o Navio-Museu Santo André para sede da Associação Cultural e Recreativa Gafanhense de Newark (Estados Unidos) [já depois da realização desta entrevista, Agostinho Duarte acompanhou o presidente da Câmara Municipal de Ílhavo aos Estados Unidos, no início de Junho, para a inauguração do painel].

Tem colaboradores ou esta é uma arte individual?

A azulejaria está muito parada em Portugal. Vamos sobrevivendo. Quando há um trabalho a sério, com datas a cumprir, a equipa reúne-se e trabalha com força.

Trabalha apenas com a cor típica dos azulejos ou introduz novidades? Usa técnicas modernas ou clássicas?

Trabalho principalmente a azul-cobalto, por isso é que se chama a-zu-le-jo. Se não, teria outro nomes. «Corolejo» ou algo parecido. Mas também faço trabalhos a cores, incluindo retratos de pessoas, a partir de fotografias. Por vezes até caçadores me pedem que retrate uma peça maior que caçaram…

Geralmente trabalho ao estilo do século XVIII. Pinto sobre a chacota, ou seja, sobre o barro previamente cozido para ter resistência mecânica. Depois, o pintado é vidrado com vidro transparente. Vai ao forno, a 1115 graus, e a tinta fica fundida entre o barro e o vidro. A obra é praticamente eterna, a não ser que haja um choque térmico muito grande e descasque o vidro. Há quem trabalhe sobre o vidro cozido, mas isso pode descascar, porque não é cozido em profundidade. Sigo sendo fiel à técnica do séc. XVIII, de duas cozeduras a alta temperatura.

Quanto aos motivos, também faço desenhos modernos. Já tenho decorado boutiques com coisas estapafúrdicas. Mas manda quem paga. Ainda ontem tive aqui [no ateliê/fábrica, em Espario, Curia] um francês que gosta de motivos equestres…

…o que dizer que exporta peças…

Sim, exporto para Espanha, França e Alemanha e mais alguns países. Mas deixei de fazer para Espanha porque queriam que eu pusesse “Hecho en España” [“Fabricado em Espanha”]. E não podia ser.

Já alguma vez fez arte sacra?

Com certeza. Fiz a Via-Sacra e o altar de capela do centro de Vagos, com um Cristo a elevar-se. Também fiz um trabalho muito grande para a Igreja de Várzeas, em Barcelos: 12 painéis de 3×3 metros a narrar a vida de S. Bento. Mais recentemente, fiz um painel para a nova igreja de Segadães, que ainda não foi inaugurada, mas nesse caso o desenho não era meu.

Tem aprendizes?

Não há seguidores. A minha arte vai morrer comigo.

Não há quem queira aprender ou não quer ensinar?

O que se faz hoje na minha azulejaria é um resumo do que se fazia. A empresa nasceu em 1982. Éramos uma fábrica de louça que chegou a ter 32 pessoas a trabalhar. Vieram as lojas dos 300 e isto acabou, há 15 anos. Uma grande parte das pessoas prefere comprar coisas vindas da China, com decalcomanias, em vez de coisas feitas à mão. Muitos dos meus colegas da louça artesanal fecharam. Quem sou eu para contrariar…

Os painéis estavam a manter a parte de louça, pelo que decidi especializar-me e trabalhar por encomenda. A pessoa encomenda, eu digo quanto custa…

Por falar em preços, pode dar uma ideia de quanto custa um pequeno painel de 3×3 azulejos?

Depende. A mesma peça tanto pode valer um euro e meio como 15 euros. Tenho dez preços diferentes em função do grau de dificuldade. Um arranjo floral pode levar cercadura – e tenho quatro tipos de cercadura – e retoque a ouro ou a prata, o que implica uma cozedura a 800 graus para não estragar o azulejo…

Costuma fazer feiras, como a FARAV?

Já fiz, mas é “vida de cigano”. Estava oito dias aqui mais oito dias ali. Para uma pessoa abrir portas, no início, sim, é bom. Mas eu já sou velho nisto. Desde 1982, se não tivesse aberto antes, não era agora que iria abrir. As pessoas vêm à minha procura. Já passei a fase de andar com os “cacarecos”. Mas foi uma fase fantástica. Como as feiras são quase sempre são à noite, durante o dia podia conhecer os locais das feiras. Conheci o país todo.