A beleza deve estar em toda a vida da Igreja

Hermano Luis, madrileno nascido em 1946, era decorador e estava ligado ao mundo da moda. Em Londres, para onde fora à procura de novas perspectivas, começa a aproximar-se da Igreja católica. Em 1975, entra para o Mosteiro de Santa Maria, a Real, de Oseira (diocese de Orense, Galiza). Neste mosteiro beneditino da ordem de Cister, construído no séc. XVI (com origens no séc. XII), abandonado no séc. XIX e novamente com vida a partir de 1925, o monge Hermano Luis (não é sacerdote) é responsável pela hospedaria, fazendo jus à tradição beneditina de bem acolher, e dedica-se à arte sacra: pintura, decoração, ilustração e até banda desenhada, como é exemplo o volume do Apocalipse (último livro da Bíblia) em BD.

A pretexto de “Eu sou o Vinho”, exposição que está no Seminário de Aveiro e a partir do dia 19 de Outubro pode ser vista no Museu da Sé de Aveiro, o Correio do Vouga entrevistou Hermano Luis, monge e artista

Correio do Vouga – Como chegou à arte sacra e de inspiração religiosa?

Hermano Luis – Eu já era artista antes de entrar no mosteiro, logicamente continuei trabalhando artisticamente dentro da vida monástica. Primeiro, trabalhei no plano puramente decorativo, para dar ao mosteiro um certo nível de “habitat”, porque estava completamente despojado do seu tesouro artístico, devido à desamortização [processo que consistiu em retirar bens das consideradas “mãos mortas” para vendê-los em leilão; a Igreja católica e as ordens religiosas foram as instituições mais visadas].

Mas rapidamente a sua arte saiu dos claustros do mosteiro…

Comecei a fazer exposições no mosteiro, no espaço do refeitório do séc. XVI. Mas, devido a convites de organismos de Orense, passei a expor fora do mosteiro.

Pinta como forma de evangelização?

Sim. Actualmente a minha vida arte desenvolve o que posso chamar de “pastoral artística”. A prioridade da minha arte é a pastoral, como nesta exposição dedicada ao vinho numa perspectiva sagrada, eucarística. Nestas 16 pinturas [sete foram reproduzidas na edição da semana passa deste jornal], o vinho é apresentado como parte do mistério da criação e da salvação. Está presente desde o desígnio criador de Deus à ressurreição após a morte, “a fatal desilusão do inverno” [o último quadro é um conjunto de videiras sem folhas, numa paisagem que pode ser de neve e que fez exclamar a um visitante da exposição: “Parece um cemitério”].

Nalguns quadros, a mensagem é directa, noutros, é preciso ler a explicação.

A série de quadros tem telas que se inserem no figurativismo e na abstracção. É uma mescla de duas coisas. Os quadros figurativos permitem que o espectador que não seja capaz de entrar na abstracção perceba a mensagem de um modo mais directo. Nos abstractos é mais o cromatismo que fala.

Uns apelam mais à racionalidade e outros às sensações, à contemplação?

Exactamente.

Dos 16 quadros, qual prefere?

O que tem por título “Foi sepultado”. É uma abstracção, numa única cor. Cada quadro tem uma referência, um nome e uma catequese. [Na catequese explicativa do n.º 12, «Foi sepultado», escreve-se: “As analogias da Palavra de Deus abarcam todos os campos da realidade e dão-lhe sentido. O mosto encerrado no tonel, para converter-se em vinho, não se pode compreender senão como mais uma analogia das que a natureza oferece em relação ao mistério da morte e ressurreição, como fenómeno iluminador do mistério da dor, da morte, e depois dela, da esperança da ressurreição”].

O que esteve na origem de “Eu sou o Vinho”?

Na origem não está uma finalidade religiosa… Tratou-se do convite de um comissário de arte que pediu peças para uma exposição dedicada ao vinho, numa região vitivinícola de Espanha. Mas o meu projecto não era trabalhar para uma sala de exposições. Era fazer algo que revelasse alguma da riqueza do mistério. Digamos que os quadros têm uma primeira dimensão natural. Mas a segunda faceta ou dimensão é eucarística.

Há quem diga que a fé e a beleza (ou o sentido estético) estão de costas voltadas. Concorda?

Não, não, de maneira nenhuma. A Igreja é a primeira promotora de todo o tipo de beleza, porque o fim último da missão da Igreja é a transcendência do mistério divino, que é verdade, beleza e bem. A beleza deve estar em todo o mistério e vida da Igreja.

Mas admite que na liturgia, nas palavras, nos espaços, nos livros e jornais da Igreja, a beleza por vezes está distante…

Sim, concordo. Isso faz-me lembrar um livro de um autor alemão do século passado, intitulado “A indignidade da arte sagrada”. A Igreja reconhece que nem sempre assume a beleza, mas isso não significa que não queira tê-la do seu lado.

Quantas horas dedica por dia ao trabalho artístico?

Não tenho um tempo fixo. Uns dias trabalho cinco minutos, outras meia hora, outros cinco horas. É difícil trabalhar cinco horas porque a minha actividade no mosteiro é muito intensa. Sou encarregado da portaria, com a missão do turismo e da hospedaria. Portanto, o tempo para a arte é relativamente escasso, mas nunca deixo de trabalhar, sejam cinco minutos ou meia hora.

Que pintores e escolas o influenciam?

A graça maior que tenho é a independência de vida e a solidão do mosteiro. Ainda que tenha muitas influências, como qualquer pessoa, tive a possibilidade de criar a minha própria linguagem, o meu espaço, a minha personalidade artística num campo puramente religioso, sem prestar tributo aos monstros sagrados da pintura.

Deus é irrepresentável, mas se quisesse representar o divino, ainda que simbolicamente, o que escolheria na vida ou na natureza?

A única forma de expressar o divino seria uma imensa esfera branca. Porque o branco é a cor da divindade e a esfera é o símbolo da infinitude.

Entrevista conduzida

por Jorge Pires Ferreira