JOÃO GAMBOA
Reflexão sobre a beleza na liturgia, que resulta de harmonização de vários elementos, entre os quais se destaca a música
1. “A grande questão litúrgica é a beleza”. Assim escrevia, há meses (Público, 12Nov2006, p. 8), Frei Bento Domingues, afirmando que o actual Papa tem razão quanto a este problema. E acrescentava: “A beleza litúrgica pressupõe arquitectura, textos e música de qualidade, para exprimir a fé, a esperança e o amor de uma comunidade concreta”.
Esmiuçando mais, diria, seguindo José de Leão Cordeiro, que a beleza na Liturgia depende de outros elementos que é necessário ter em conta: o enquadramento litúrgico (o tempo litúrgico, o lugar, o momento litúrgico); a assembleia (grandeza, consistência, idade, diversidade, como se dispõe, grau de participação); o espaço onde se celebra, com a sua arquitectura, disposição dos lugares, iluminação e decoração (frescos, vitrais, esculturas, vestes, arranjos florais e outros); o mobiliário (altar, ambão, cadeiras, candelabros, vasos sagrados); as acções litúrgicas com os seus ritos, a intervenção do presidente e dos outros ministros, as deslocações e gestos, a proclamação dos textos, o canto…
Da boa harmonização de todos estes elementos e do acerto e dignidade com que são executadas as acções litúrgicas, resultará a beleza que se pretende. “Não para dar um espectáculo, mas para criar um clima intenso de oração e de reforma de vida”, como dizia ainda Frei Bento Domingues.
Novamente aprofundando e clarificando, resumindo Mons. Piero Marini: a Liturgia é acção de Cristo; mas é também acção da Igreja, porque esta nada faz que Cristo não lhe tenha dito ou ensinado: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22, 19). Os nossos gestos, na celebração, são, pois, gestos de Jesus. Ao repeti-los na celebração litúrgica, a Igreja prolonga e actualiza os gestos do Senhor Jesus.
Os gestos concretos da vida de Jesus – caminhar, abençoar, tocar, curar, fazer lodo, levantar os olhos ao céu, partir o pão, tomar o cálice –, a Igreja retoma-os na celebração dos sacramentos. Foi, porém, na véspera da sua Paixão que Jesus ensinou os gestos que devemos realizar. “Quando chegou a hora em que ia ser glorificado por Vós, Pai santo, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim. E durante a Ceia, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e deu-o aos seus discípulos, dizendo: Tomai todos e comei; isto é o meu Corpo que será entregue por vós. De igual modo, tomou o cálice com vinho e, dando graças, deu-o aos seus discípulos…” O que torna belo o gesto do Senhor é que ele é gesto de amor salvífico: “amou-os até ao fim (…) tomou o pão”. Ao repetir o gesto de Cristo, a Igreja acha-o belo porque nele reconhece o amor do seu Senhor. A beleza da Liturgia está, em primeiro lugar, no amor do mistério pascal. A beleza arquitectónica, as decorações, a coreografia, as cores, todos os elementos atrás enunciados cooperam e auxiliam, são arte que, evangelizada pelo amor, se tornam importantes para a beleza litúrgica.
2. No que diz respeito aos textos e música a cantar na Liturgia, eles têm de possuir qualidade, para “exprimir a fé, a esperança e o amor de uma comunidade”, como escrevia Frei Bento Domingues.
2.1. A qualidade de um texto começa na segurança teológica (deve estar de acordo com a doutrina católica), prossegue na correcção gramatical, na limpidez e clareza de ideias de modo a ser compreendido por todos, e culmina na beleza formal e poética. Um texto, para ser cantado na liturgia, tem de ser belo! Se é tirado da Sagrada Escritura, está a qualidade assegurada, em princípio. Se se trata de criação poética, deve inspirar-se na Sagrada Escritura e nas fontes litúrgicas, bebendo na torrente bíblica que está presente e fecunda a expressão litúrgica de todos os tempos.
Há meses, ouvia na rádio este refrão de um “cântico” de entrada: “Bom dia, Pai, bom dia”. É de ficar triste e envergonhado com tanta pobreza e mediocridade! Mais recentemente, ouvi como cântico de entrada de uma celebração eucarística do tempo natalício um cantar de janeiras. Aquela comunidade – ou aquele grupo –, ao cantar as janeiras ao seu Deus, banalizou, dessacralizou um canto processional que devia abrir os corações para a celebração da manifestação de Deus.
A Liturgia é celebração da revelação de Deus ao homem num tempo histórico que a Bíblia situa. Por isso, a linguagem litúrgica deve ser eminentemente bíblica (cf. S.C. 24). Já se situa nessa linha e possui luminosidade poética o texto seguinte, refrão de um cântico de entrada do tempo do Advento: “O Senhor virá, / O Senhor virá como aurora resplandecente. / Aleluia”.
2.2. O canto na Liturgia é o melhor meio de exprimir e dar forma a uma atitude e sentimento interior da assembleia e de cada um dos que a compõem. A música é, portanto, apoio e condutora indispensável das atitudes de adoração, conversão, fé, louvor, acção de graças, meditação, súplica, comunhão…
Como sinal litúrgico que é, a música litúrgica dá visibilidade, exprime e realiza a presença da salvação e a união da comunidade que celebra com Cristo e, por meio d’Ele, com o Pai, no Espírito Santo.
Como a Liturgia é celebração da revelação de Deus ao homem, como a revelação de Deus chega ao homem através da Palavra (incarnada em Cristo e proferida), e como o meio de diálogo entre Deus e o homem é, antes de mais, a palavra, a música deve revestir a palavra, dando-lhe realce e expressão, constituindo com ela uma forte e íntima comunhão. A música, portanto, interpreta e dá vida à palavra e esta, no canto litúrgico, é que tem o primado. Quando a música interpreta a palavra e está ao seu serviço e a música respeita os momentos litúrgicos, a música alcança a sua dimensão sacramental. Deve, para isso, ter qualidade. Em primeiro lugar, deve ser santa e bela; deve manifestar a natureza da verdadeira Igreja, com diversidade de ministérios e serviços que concorrem para a unanimidade da fé; deve ter as qualidades de verdadeira música, ser bem feita e bem executada; deve ainda possuir a capacidade de assumir as funções rituais básicas – a proclamação, a aclamação, o hino, a ladainha.
3. Em Novembro de 2006, escrevia na Voz Portucalense, em reflexão que intitulou “A permanente questão da música sacra”, o Secretariado Diocesano de Liturgia da diocese do Porto: “A música que se pratica em muitas igrejas (…) é um lamentável insulto às orientações de sempre da Igreja e à verdadeira transmissão da Fé, agrava a formação dos fiéis e é uma afronta à cultura”. Só por uma grave falta de sensibilidade musical e litúrgica, agravada por uma deficiente formação religiosa e humana, se pode explicar a utilização abusiva dessa falsa música.
O conhecido maestro e compositor António Vitorino de Almeida, em entrevista à Voz Portucalense (1Fev2006, p. 13), referindo-se à música executada “nos meios e espaços eclesiais”, afirmava: “… vejo por vezes umas «musicatas» que não compreendo, durante a Eucaristia, com guitarras, castanholas e não sei o quê, como se isto tivesse alguma coisa a ver com a atmosfera da música litúrgica…” E mais à frente: “Tenho o maior respeito pela Igreja Católica e reconheço o legado estético importantíssimo que ela tem na nossa civilização. Uma grande parte da arte ocidental tem a ver com a Igreja. Por isso, seria também bom que ela própria se respeitasse e não abandalhasse o que tem de bom, o seu património (musical)”.
De facto, ao longo da História da Música, grandes compositores não essencialmente religiosos foram beber e inspirar-se na música da Igreja para construir as suas obras; hoje, desgraçadamente, observa-se, da parte de alguns grupos de igreja, um movimento contrário: vão buscar à música rock e pop os ritmos e o ruído furioso com que atormentam as celebrações, de cabo a rabo, mesmo em momentos penitenciais como o “Senhor tende piedade” e o “Cordeiro de Deus”. E são violas, tambores, os graves da pedaleira do órgão e até bateria – uma percussão massiva que esmaga e não deixa entender a palavra, a ponto de sentirem necessidade de a projectar.
Há anos, num conjunto de celebrações em que participei para acompanhar um familiar, o ambiente profanado de banalidades e berros do próprio presidente era tal que um par de namorados (pais duma criança que celebrava a primeira comunhão, soube depois) sentiu que podia beijar-se com visível sensualidade. Uma das canções cantadas sugeriu-me a imagem visual de um rancho folclórico que, sobre um palco, dança até um extremo, atira a perna para fora e regressa ao outro lado. Na mesma igreja, mais recentemente, o ambiente de arraial levou a que, ao serem chamados os casais que celebravam 25 e 50 anos de casados, alguns jovens assobiassem como se se tratasse de um festival. Pudera!, toda a atmosfera tinha sido de batucada!
4. É tempo de concluir. Há espaços eclesiais onde se passa o que acaba de ser descrito. Estarão os seus pastores reféns da incultura musical e da insensibilidade litúrgica? Haverá grupos a imporem-se e a imporem os seus critérios e escolhas a uma assembleia inteira? Ou estarão os pastores dominados por um espírito e atitude de sequestro, assumindo, demagogicamente, o intuito duvidoso de “conquistar” jovens para as celebrações? Mas isso é servir gato por lebre e, se hoje parece dar algum resultado, amanhã os jovens sentir-se-ão enganados e decepcionados, o que é também um mau serviço à Igreja. De vez em quando, já aparecem testemunhos nesse sentido…
A música na Liturgia tem o nobre fim de louvar a Deus e santificar os fiéis; merece, portanto, outro respeito. É problema que tem de ser abordado com seriedade e critério. É de evitar o “abandalhamento” de que falava António Vitorino de Almeida; devemos elevar e não rebaixar. A Igreja deve lutar pelo melhor. E isso consegue-se com trabalho pastoral contínuo, correcto, equilibrado e progressivo. Não o fazer é instilar e instalar o mau gosto.
