A Bíblia foi escrita para nos dizer como o céu vem até nós!

António Couto, orador do Congresso, especialista em Sagrada Escritura António Couto, padre e superior da Sociedade Missionária da Boa Nova, é doutorado em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Urbaniana (Roma) e professor na Universidade Católica, no Porto. Com vários livros e artigos publicados, é director das revistas “Igreja e Missão” e “Humanística e Teologia”. É membro da Congregação para a Evangelização dos Povos, desde 18 de Julho de 2004.

“Reconheceram-no no partir do Pão” é uma expressão do relato dos Discípulos de Emaús. Este relato é fundamental para entender a Eucaristia?

Há muitos relatos importantes. Este é apenas um deles, que tem a particularidade de colocar a Eucaristia no nosso caminho, na nossa casa e na nossa vida.

No relato, o significado e a mensagem são mais importantes do que os factos? Não há mais referências a Cléofas, nem os arqueólogos têm a certeza da localização e existência de Emaús…

A intenção primeira que pervade os relatos dos Evangelhos, sejam eles quais forem, não é passar para o leitor dados biográficos, geográficos, cosmológicos ou outras informações do género. A intenção primeira que preside às páginas dos Evangelhos é transmitir a notícia (a única verdadeira notícia que algum dia tenha existido) do acontecimento da Ressurreição de Jesus, e fazer com que esse acontecimento transforme a nossa vida. De facto, os textos bíblicos não foram escritos para nos dizer como vai o céu, nem tão-pouco como se vai para o céu, mas sobretudo como o céu vem até nós!

De Cléofas não há mais referências… A menos que o queiramos ver em Alfeu (Mt 10,3), forma aramaica de Cléofas, pai de Tiago (Mt 10,3), dito o Menor (Mc 15,40), também dito «irmão do Senhor» (Gl 1,19), a quem devemos a Carta com o seu nome. Este Cléofas (Alfeu) pode bem ser o marido de Maria de Cléofas (Jo 19,25), maneira muito hebraica de designar a esposa, que, com o simples nome de Maria, aparece como mãe de Tiago (Mt 27,56; Mc 15,40, Lc 24,10). De resto, uma antiquíssima tradição, veiculada por Hegesipo e Eusébio, faz de Cléofas esposo de Maria de Cléofas, prima em 1.º grau de Maria, mãe de Jesus, indo, neste particular, ao encontro da informação de Jo 19,25, que faz de Maria de Cléofas irmã de Maria, mãe de Jesus. Interessante pista para os «irmãos» de Jesus: Tiago, José, Judas e Simão (Mt 13,55; Mc 6,3).

Quanto à localização da «aldeia de Emaús», as opiniões têm andado divididas à volta de quatro localidades: a) Abu Gosh (antiga Qariat Iearîm), a 75 estádios para Ocidente de Jerusalém; hipótese difícil de sustentar, dado que se trata de uma cidade (não de uma aldeia) e a distância não corresponde; b) Hirbet El-Mizzeh (antiga Ham Moshah), que Flávio Josefo translitera Ammaus, a 30 estádios de Jerusalém; difícil de sustentar: é Ammaus, e não Emmaus, e a distância também não corresponde; c) Ammaus da planície, referida em 1 Mac 3,40.57; 4,3; 9,50, situada a 160 estádios de Jerusalém; difícil de sustentar: trata-se de uma cidade e não de uma aldeia, e a distância também não corresponde; d) El-Qubèibeh (antiga Emmaus), aldeia a 60 estádios para Ocidente de Jerusalém. Esta aldeia apresenta os argumentos mais sólidos para ser a Emaús de Lc 24. Aí está hoje uma igreja do início do século XX, estilo românico-gótico de transição, que respeita as linhas (e algumas pedras) de uma igreja construída pelos cruzados no século XII. A partir de finais do século XIV, era para aqui que se encaminhavam já todos os peregrinos.

Sem pretender sequer resumir a sua intervenção no congresso, qual a principal mensagem deste relato?

Este relato desvenda, de forma muito pedagógica, a letra ilegível daquela morte de Jesus na Cruz: auto-destituição por auto-doação a nós e por nós, e faz-nos passar da nossa tristeza, dissensões, decepções, inquietações e disjunções, para um movimento novo de conjunção e de alegria nova, assente na maneira nova de viver de Jesus: RECEBER, BENDIZER, PARTIR e DAR-SE.

“Jesus pôs-se com Eles a caminho”, diz o relato, para no final partilhar o pão. A Eucaristia surge assim como o final de um percurso de fé?

A Eucaristia traduz aquela vida e aquela morte de Jesus que, dando-se por amor, fica sempre connosco, e preside ao nosso caminho, à nossa vida, à nossa mesa. A Eucaristia não surge apenas no final de um percurso. Ela é o percurso: início, centro e fim.

“Voltaram imediatamente para Jerusalém”, depois de O reconhecerem, diz S. Lucas. Significa que a missa é vazia se não levar à cidade? Ao encontro com os outros? Há aqui alguma ideia de compromisso?

O Ressuscitado faz conjunção. Os dois partiram de Jerusalém, em disjunção e dissensão com o grupo (a comunidade dos «Onze» e dos outros com eles), e iam no caminho em disjunção até um com o outro. Tinham perdido o sentido. Entenda-se: tinham perdido Aquele que dava sentido às suas vidas. Encontrados por Ele no caminho («caminhava com eles») e no «partir do pão», reencontraram o sentido, e fazem a viagem ao contrário, para Jerusalém, movimento novo de conjunção e comunhão com o grupo. Vivendo com Ele e como Ele, aprendemos naturalmente a ir sempre mais ao encontro dos nossos irmãos. A celebração da Eucaristia leva sempre a muitos e novos compromissos.

Recentemente alguém dizia que cada pessoa é aquilo que for capaz de narrar sobre si própria. O relato de São Lucas é um relato da nossa identidade eclesial, ou seja, só somos Igreja quando e sempre que O reconhecemos no Pão?

Ele é que se faz ver a nós e se faz reconhecer por nós. Ele é que desencadeia em nós a nossa vida. Biblicamente, eu não sou a auto-consciência do que faço, mas a hétero-consciência daquilo que me é feito e que eu sou chamado a reconhecer: «Deus fez em mim grandes coisas…». Eu sou o relato daquilo que me é feito. E o relato relata, isto é, une, reúne, enlaça, entrelaça. Duplamente: os factos e as pessoas. «Re-lata» os factos, pondo-os em «re-lação». E essa relação dos factos «relata» o narrador e o narratário; reúne as pessoas, portanto, fazendo-nos, não só estar juntos, mas, mais do que isso, nascer juntos como irmãos. É o relato que faz a Igreja. O relato é diferente da notícia. A notícia é rápida. Junta o mensageiro e o destinatário. O relato precisa de tempo, porque faz o narrador descer ao nível do narratário, fazendo-nos nascer juntos. Portanto, faz-nos irmãos. Eis a Igreja. «Na noite em que Ele ia ser entregue…», assim começa o mais belo relato que conheço. O anúncio sera sempre necessário. Mas eu diria que a originalidade da Igreja não é tanto anunciar o amor. É relatá-lo!

Quais os outros relatos bíblicos fundamentais eucarísticos?

Desde logo, aqueles que conhecemos como relatos da instituição da Eucaristia: Mt 26,26-27; Mc 14,22-23; Lc 22,17-20; 1 Cor 11,23-25, sem esquecer 1 Cor 10,16, porventura a mais antiga menção da Eucaristia, aí dita «Eulogía», bênção, ben(di)ção, que nos situa na linha do bendizer, da benevolência e da beneficência… O nome «Eucaristia» acentua mais o dar graces, agradecer, ser reconhecido… A «Fracção do pão» tem um bem vincado carácter social.

Mas o vocabulário da Eucaristia encontra-se ainda nos chamados relatos da multiplicação dos pães: Mt 14,19; 15,16; Mc 6,41; 8,6; Lc 9,16; Jo 6,11. O mesmo vocabulário se encontra ainda numa cena do Livro dos Actos (27,35), com Paulo em relevo.

Em todos estes textos é notório o seu vocabulário eucarístico.

Muitos dizem-se cristãos, mas não “vão à missa”. O que não está correcto? Dizerem-se cristãos, ou não serem atraídos pela missa?

A missa não deve atrair ninguém. Se atraísse, haveria nela algo de idolátrico. São os ídolos que atraem. Mas os ídolos são ocos e vazios. Na verdade, não fazem nada. Somos nós que neles colocamos o fascínio que sobre nós exercem. São criaturas nossas, desdobramentos nossos. Fazendo um ídolo, torno-me ao mesmo tempo dono e escravo de mim mesmo. Dou ordens a mim mesmo por interposto ídolo; na verdade, prostro-me diante de mim. A Bíblia é, com certeza, o livro mais crítico que existe acerca da idolatria. A Eucaristia é uma reunião de reunidos pelo Deus vivo, que nos chama e nos comunica a Sua vida, o Seu amor libertador. O Deus bíblico não atrai nem suga nem subjuga. Liberta. Só as pessoas livres, sendo chamadas, podem livremente responder ao chamamento. A Eucaristia é, portanto, o espaço da pessoa e da palavra e do pão. Espaço de amor e de liberdade concedido por Deus para nós aprendermos a ser filhos e irmãos, e não donos e escravos.

“Tornar as missas mais atractivas” é uma necessidade pastoral ou uma ilusão?

A pastoral é uma coisa séria. Deve fazer chegar às pessoas a Palavra e o Pão do amor e da liberdade. Não consta que Jesus Cristo tenha dado algum dia algum espectáculo. O que deu foi a vida por amor.

Sendo o texto bíblico uma componente fundamental da Eucaristia, como fazer para que a Palavra seja compreendida e “digerida” pelos homens e mulheres modernos?

Muito estudo. Muita oração. Boa pedagogia. É hoje indispensável, para servir bem a Palavra de Deus aos nossos irmãos, lê-la muito e estudá-la pacientemente com os melhores comentários à mão. Depois é preciso rezá-la e saboreá-la e vivê-la e dizê-la. Em termos práticos, eu diria que um padre, para presidir a uma boa celebração e fazer uma boa homilia, precisa de investir pelo menos 16 horas na sua preparação.