Não se lhe conhece outra licenciatura que não seja a sua formação num sistema de ideias enegrecidas pelo tempo a que a força das armas dava consistência e um muro, bem construído no meio da cidade dos homens, emprestava a segurança necessária para que as ideias não circulassem e o sol da Liberdade não iluminasse os corações.
Caiu-lhe em sorte um prémio Nobel em Literatura que fez dele um ser superior, capaz de falar de tudo e dissertar sobre tudo, mesmo que o resultado seja o negócio de um livro à custa de um sem número de disparates e de ofensas a milhares de seres humanos que vêem e têm na Bíblia – às vezes com mais coração que razão – um ideal de vida que teve por princípio um encontro entre Deus e os homens: uma aliança!
Mas para chegar aqui e respeitar isto, é preciso ter a humildade dos sábios que nos faz reconhecer os nossos dons e os nossos limites para aceitarmos os outros, mesmo que não concordemos; é preciso ser laureado com a honestidade intelectual que nos faz perceber que a Bíblia, esse património da humanidade, que “visitou” tantas culturas ao longo de tantos séculos não é um livro, mas um conjunto de livros, onde os géneros literários se misturam e o simbólico põe Deus a jogar às escondidas com o homem numa tarde amena do paraíso. Ninguém lhe exige que chegue até aqui, que se sinta a fazer parte do grupo daqueles que acolhem a mensagem e procuram perpetuá-la ao longo do tempo, às vezes com o sacrifício das próprias vidas em outros Gulag’s, mas sempre com o sonho de uma Nova Huta que existe em cada cidade e faz parte de cada povo e de cada homem. Não é preciso…
Foi por tudo isso que, como homem, me senti ofendido não com o livro – já sei do irmão de Abel o suficiente – mas com as declarações proferidas e, como eu, muitos milhões de pessoas a exigirem a coragem de um pedido de desculpas que ainda espero… Como cristão, agradeço-lhe os disparates porque me espicaçam a pegar na Bíblia com mais frequência, não com a avidez de tudo ler, mas de parar em cada página e deixar-me cativar pelo silêncio das palavras para melhor a poder rezar. Como padre, li na Bíblia, “esse Manual de maus costumes”, que devia perdoar… e eu perdoo.
