A boa eternidade

Na nossa vida,

que é uma caminhada para a morte,

nós pressentimos, ó Senhor,

a tua calma eternidade.

As coisas começam, têm o seu tempo e acabam.

Ao princípio do dia,

sentimos já que ele mergulhará na noite.

E toda a felicidade

já nos previne acerca do sofrimento futuro.

Edificamos a nossa casa

e fazemos a nossa obra

e sabemos que ela se arruinará.

Mas tu, Senhor,

vives e nada de transitório te toca.

Tu és o novo por essência

e não conheces saciedade.

De nada precisas.

Nada te falta. És tudo.

Tua é a essência de toda a glória.

O centro da tua eternidade

está onde Tu, ó Pai, e Tu, ó Filho,

estais juntos um do outro

na intimidade do Espírito Santo.

Nessa calma está o teu amor e a tua paz.

Nela está a tua pátria, ó Deus Bendito!

Quando o tempo se cumprir,

também lá será a minha pátria.

Dá-me a certeza disso.

Faz com que o desejo

nunca morra no meu coração,

a fim de que, quando a vida mudar,

eu permaneça unido àquilo que dá

medida e sentido a todas as coisas.

Toca o meu espírito

com o sopro da tua eternidade,

para que eu realize bem a minha obra

no tempo e possa, um dia,

levá-la para o teu Reino eterno. Ámen.

Romano Guardini

Italiano de nascimento, Romano Guardini (Verona, 1885 – Munique 1968), estudou e ensinou na Alemanha. Com a ascensão do nazismo, este padre ordenado em 1910 viu-se afastado do ensino universitário. Reflectindo sobre a liberdade individual e a sociedade transformada pela tecnologia, com uma visão compreensiva do mundo, Guardini foi percursor do II Concílio do Vaticano e um dos grandes teólogos do séc. XX.