Vai ser apresentado amanhã, 29 de março, com a presença de Daniel Serrão, o livro “Aqui diante de mim”, uma entrevista de vida realizada por Henrique Manuel S. Pereira ao médico que nasceu em Vila Real, há 82 anos, estudou em Aveiro e desenvolveu grande parte da sua vida profissional no Porto, onde reside.
Conhecido pela intervenção pública em defesa da vida, Daniel Serrão tem uma longa carreira na bioética, ao ponto de ser conselheiro do Papa nestas questões. Nesta entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira, não se fala de bioética, mas antes do tempo em que Daniel Serrão viveu em Aveiro, do contacto com o Papa e dos segredos para manter elevada atividade física e mental.
A apresentação do livro, com a intervenção de D. António Marcelino, tem lugar no Centro Universitário Fé e Cultura, pelas 21h.
Correio do Vouga – O livro-entrevista em que percorre momentos decisivos da sua vida e também da nossa história (Guerra do Ultramar, 25 de Abril, reformas da democracia) chama-se “Aqui diante de mim”. Porquê este título?
Daniel Serrão – O entrevistador queria que passassem duas mensagens: o entrevistado estava diante dele para responder às questões que lhe fazia, mas estava também diante de si próprio para responder com verdade.
Facto pouco conhecido dos aveirenses é que o professor terminou o chamado curso geral dos liceus em Aveiro, em 1944. Que memórias guarda dessa época nesta terra?
Frequentei o Liceu José Estêvão, durante 4 anos, do 4.º ao 7.º (hoje, 11.º ano). Foi a minha adolescência dos 13 aos 17 anos e as minhas recordações de pessoas e situações são vivas e ligadas a este período que é fulcral nas nossas vidas. No livro respondo a questões sobre Aveiro porque o autor, o professor Henrique Manuel, não perdeu a oportunidade de me fazer reviver esse tempo maravilhoso que é o da adolescência. A natural crise de fé dos 14 anos foi vivida neste período; a escolha de ser médico, também. Parecem factos casuais, mas marcaram toda a minha vida futura, até hoje. Do que tenho mais saudade é dos passeios de barco a remos na Ria, com dois ou três colegas do Liceu, no verão, desde a Capitania até S. Jacinto. Se calhar hoje já não é possível. Era um exercício de força, de alegria e de queimadura do sol. No tempo não havia cremes de proteção e o esforço de remar não era compatível com roupa…
Com uma vida cheia de feitos profissionais, qual deles lhe deu especial alegria?
Tive muita alegria em conseguir ter êxito com o Laboratório de Patologia que criei em oito dias, quando fui demitido de professor, em 1976. Foi bom para mim e foi bom para os meus colaboradores, em especial os mais humildes, que viram as suas vidas muito melhoradas, trabalhando para mim nas horas que sobravam do cumprimento do horário da função pública. O rendimento do Laboratório era distribuído por todos com justiça e nunca tive greves dos trabalhadores, desde 1975 até 2003, quando decidi encerrar o Laboratório aos 75 anos.
João Paulo II nomeou-o membro da Academia Pontifícia para a Vida. Esperava ser colaborador do Papa?
Foi uma surpresa total quando um funcionário da Nunciatura do Vaticano em Lisboa me entregou pessoalmente, na Faculdade, onde pediu para ser recebido, um envelope enviado de Roma pelo correio diplomático. Dentro estava outro envelope fechado com o meu nome e a nota “Sub secreto pontificio”. Abri-o e era um convite pessoal de João Paulo II para que eu fosse membro da Academia Pontifícia para a Vida que tinha sido criada pelo Papa pelo Motu Proprio [documento papal] de 11 de fevereiro de 1994. Aceitei com imensa alegria e quando ainda nesse ano reunimos com o Papa éramos uns 30 de várias partes do mundo. E foi um deslumbramento estar com o Papa como se fosse um sacerdote a combinar estratégias de pastoral cultural. De então para cá, o Protocolo vaticano formalizou este contacto com o Papa e agora é uma cerimónia mais organizada, que perdeu a intimidade da primeira. Mas a foto que vem no Livro é da apresentação pública da Academia na Aula Sinodal em 1995. A Academia produz textos notáveis, infelizmente mal conhecidos entre nós, mesmo em meios católicos e eclesiais.
Como médico, lidou e lida com a vida e com a morte. Como encara a morte?
Como patologista fiz mais de mil autópsias em Portugal e em Luanda. A morte é, para mim, um acontecimento natural que me não causa qualquer perturbação. Creio na vida do mundo que há de vir, bem diferente desta e que será vivida fora do tempo. No livro, discuto este tema e até digo que música quero ouvir quando estiver a morrer. Quem quiser mesmo saber o que penso da minha morte, vai ao YouTube e procura “Daniel serrão – entrevistas”. E pode ver-me e ouvir-me a falar sobre este tema com verdade e sinceridade.
Fale-nos da sua fé. Passou por uma fase de fé em jovem, como disse. Como reencontrou a fé? Que pessoas de fé o marcaram ao longo da vida?
Penso que uma crise de fé na adolescência é melhor que a hipocrisia usada para não ter de aturar a família que pensa que ter fé é uma questão de vontade. Mas não é, é uma intuição que um dia acontece precisamente a quem não acredita numa Transcendência, em algo que está para além da nossa vida e da nossa presença ocasional no mundo. A fé foi, para mim, uma iluminação súbita; mas depois deu-me, e dá-me ainda hoje, muito trabalho para a manter acesa em mim. A autoconsciência, que é onde o espírito transcendente “habita”, tem de ser visitada muitas vezes e esta visita é a oração profunda e silenciosa.
As figuras que mais me influenciaram pela sua fé não foram os teóricos mas os que viverem ou vivem a sua fé no contacto com os irmãos amando-os. Não S. Tomás, de Aquino, mas S. Francisco, de Assis. Não Santa Teresa, de Ávila, mas a outra Teresa, de Calcutá. Um judeu, Jesus, revolucionou o mundo e “não sabia nada de finanças, nem consta que tivesse biblioteca”, segundo Pessoa.
Como na diocese de Aveiro estamos pastoralmente centrados na família, tenho de lhe colocar esta questão: Que valor dá à família?
A família é o local onde a aspiração de viver em felicidade pode ser atingida. Fui pai de seis filhos e sou avô de dez netos e todos somos família e temos consciência disso. A família não pode ser uma estrutura de poder mas tem de ser uma estrutura de serviço; serviço mútuo de um por todos e todos por um.
O cimento que dá coesão à família é o amor de uns pelos outros e a norma prática de estar sempre preparado para perdoar as “ofensas” como Deus também nos perdoa. O que mais me dói é ver membros da mesma família a odiarem-se, às vezes por coisas materiais que nada valem.
Neste outono da vida, como são os seus dias? Parece que o ritmo continua acelerado…
São de atividade muito intensa e constante porque o outono ainda não chegou. Quem desejar saber com pormenor o que me ocupou desde 1 de janeiro até hoje, vai a www.danielserrao.com. Encontra, logo na primeira página, um calendário que vem desde janeiro; clica nos dias sombreados e fica a saber por onde andei a falar sobre os temas da vida e da ética da vida, principalmente.
Tem algum segredo para manter a vitalidade e agilidade física e mental?
A boa saúde na idade sénior ganha-se nos sub-21 como costumo dizer. Os hábitos de vida saudável, desde a adolescência, quando cada um começa a decidir sobre si próprio, são o passaporte para uma velhice saudável, independente e ativa. Infelizmente, em Portugal, muitos desperdiçaram essa possibilidade na sua juventude e estragaram a velhice. Devemos ajudar os jovens a perceberem que a boa saúde na grande idade ganha-se com bons critérios de vida na pequena idade. Se conseguirmos seduzi-los, eles serão a geração portuguesa com mais centenários. Este é o segredo.
Gostos de Daniel Serrão
Um lema de vida
Nenhuma dificuldade é superior à nossa vontade de a vencer.
Livros marcantes
“Niels Lyhne – entre a vida e o sonho”, de J.P. Jacobsen, na adolescência; e “Os Incuráveis” , de Agustina Bessa-Luís, na vida adulta.
Música preferida
Música clássica até G. Mahler; e jazz, em especial o Sax tenor e algum piano.
Um grande filme
“O Doutor Jivago”, visto em Luanda, em cinema aberto ao ar livre, no segundo dia da minha chegada, mobilizado, e sem cinco dos meus seis filhos. Mas, felizmente, com uma mulher de coragem que me acompanhou.
Cidade que gosta de visitar
Paris, sempre. Para ver Van Gogh no Quai d’Orsay. E Aveiro, “cidade onde então vivi coisas que terei pudor de contar seja a quem for” (José Régio).
Passatempos?
Não tenho tempo para ver passar o tempo. Trabalho mental e fisicamente (ando seis quilómetros, a pé, todos os dias), constantemente. Quando deixar de o fazer realizo um sonho: arrumar o caos dos meus livros e ler os que ainda estão virgens.
