A brincar também se aprende,,, ciência

Exposição de brinquedos tradicionais indianos mostra como os princípios básicos da física são aplicados enquanto se brinca. Para ver e mexer na Fábrica Centro Ciência Viva em Julho

Kathan Kothari é indiano e estuda design num instituto deste país asiático. Durante cinco meses, com o apoio da associação indiana dos escritores de ciência, viajou pela Índia e recolheu cerca de 70 brinquedos tradicionais. Agora, apresenta-os na Fábrica Centro Ciência Viva (ou simplesmente Fábrica), em Aveiro, como “brinquedos científicos”.

Em Julho, com a orientação de Kathan Kothari e a colaboração dos monitores da Fábrica, crianças e adultos poderão mexer nos brinquedos e aprender a construir alguns mais simples. Ao mesmo tempo, através da projecção de filmes e da exposição de objectos, fica-se a conhecer mais o segundo país mais populoso do mundo, com quem os portugueses, por meio de Vasco da Gama, estabeleceram relações no final do séc. XV.

Cultura popular e actividade científica

Paulo Trincão considera importante este tipo de exposições pelo seu valor didáctico e porque se trata de “uma forma diferente de ligar a cultura com a ciência”. “O brinquedo tradicional usa os princípios básicos da ciência de uma forma simples. As crianças apercebem-se que as suas acções têm consequências”, afirma o director da Fábrica. Brincando, descobrem noções como pontos de equilíbrio ou as capacidades dos elásticos. A pergunta e a explicação científica podem claramente partir do uso de um desses brinquedos.

Por outro lado, Paulo Trincão sugere que a exposição seja um ponto de partida para “estudos comparativos” entre os brinquedos portugueses e os indianos. Há brinquedos parecidos com usos diferentes (ver texto em baixo). “Levámos para lá certos brinquedos, ou fomos nós que importámos? Chegaram às mesmas conclusões sem conhecimento mútuo?”, interroga-se o director da Fábrica.

Os brinquedos indianos passarão a integrar o espólio da Fábrica e poderão ser vistos durante todo o ano. Para ouvir as explicações de Kathan Kothari e poder construir alguns desses brinquedos, com a colaboração dos monitores, o visitante dispõe apenas do mês de Julho.

Na Índia atiram pedras às mangas, não aos pardais

Na exposição, os brinquedos estarão subdivididos em categorias, pois uns são feitos de plantas (sementes de manga ou cana de bambu), outros de argila, outros de chapa ou de papel. Uns põem em jogo as leis do som, outros servem-se dos princípios do equilíbrio, da gravidade, da pressão ou dos sifões (como é o caso do elefante de barro que suga água).

Curioso será verificar como brinquedos e artefactos similares aos tradicionais portugueses têm aplicação diferente. Por exemplo, a fisga, na Índia, não serve para matar pássaros, mas sim para deitar abaixo mangas. O arco e flecha português têm um equivalente num arco com tubo (cana de bambu) que em vez de atirar flechas atira pedras. Enquanto em Portugal um dos antigos brinquedos tradicionais consistia no ciclista que dava aos pedais quando a criança o empurrava, na Índia o boneco toca tambor. Por outro lado, como não poderia deixar de ser, o elefante e o tigre são os animais mais frequentes nos brinquedos tradicionais das crianças indianas.