A construção do bem comum, responsabilidade da Pessoa, da Igreja e do Estado

Excertos de textos sobre as temáticas que vão ser abordadas na Semana Social, no Centro Cultural e de Congressos de Aveiro, nos dias 20, 21 e 22 de Novembro. A versão integral dos textos encontra-se em www.agenciaecclesia.pt

Sem deveres pessoais não é possível

construir a cidade

O dia-a-dia da maior parte das pessoas é uma sucessão de tarefas individuais, no emprego ou na família (famílias estas, também cada vez mais reduzidas e mais fechadas sobre si mesmas), para além das quais procuram pequenos momentos de satisfação pessoal através da ida ao ginásio, da aula de yoga – actividades necessárias para a “sanidade mental”. E o tempo para estar com os outros é sempre reduzido, e a participação cívica a nível associativo torna-se a última prioridade.

O Homem, cuja natureza necessita da relação com os outros, pretende crescer actualmente sem que essa relação o afecte, julga poder desenvolver a sua identidade na escuta somente de si mesmo e não dos outros e da colectividade. E assim, como uma planta que precisa de sol e se encontra a crescer à sombra, vai mirrando, definhando gradualmente.

O Bem Comum é a construção da polis de Aristóteles, é a realização da pessoa no todo que lhe dá sentido.

A sociedade de hoje espera talvez que uma “mão invisível” construa o puzzle, a partir de peças que, convictamente autónomas e independentes, pretendem antes de mais realizar-se individualmente. Torna-se provavelmente um objectivo irrealizável à partida: se cada um considera ter deveres só para consigo mesmo, e ter inúmeros direitos perante a colectividade, não é possível construir a cidade.

Joana Rigato, Vice-presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz

Dever eclesial de consciencializar

Se a Igreja poderia viver sem ser em prol da construção do Bem Comum? Provavelmente podia, mas não seria a mesma coisa; não seria Igreja organização ao serviço do Homem imagem e semelhança de Deus. Por isso, sim, é responsabilidade da Igreja agir no sentido de consciencializar estruturas e pessoas para a necessidade e responsabilidade de todos e de cada na criação das condições necessárias para que o desenvolvimento de cada pessoa seja pleno porque divino.

É inegável que a Igreja tem assumido de múltiplas formas esta sua responsabilidade que lhe é intrínseca, quer através do pensamento que produz (a título de exemplo vejam-se as interpelações lançadas nas duas últimas encíclicas e as implicações que delas podem surgir se levadas à prática), quer da sua acção concretizada nas formas mais espontâneas às mais organizadas. No entanto, nunca será demais lembrar que a Igreja somos nós e como tal, a responsabilidade na Construção do Bem Comum, é bem concreta porque se enquanto homens e mulheres “fomos criados como plenitude e sentido da criação” por outro lado todos estamos chamados a ser “co-criadores desta obra que é de todos”.

Henrique Joaquim, Universidade Católica Portuguesa

Basta o bom desempenho

do Estado?

No séc. XIX, poucos esperavam que o Estado, que havia sido tão adverso para os mais pobres, pudesse ser seu “amigo”. Em 1870, os estados europeus já absorviam 11 por cento do PIB (hoje, a sua despesa pública ascende a cerca de 50 por cento do PIB). O alargamento do papel do Estado foi de tal ordem que, em 1890, o político inglês liberal Sir William Harcourt escrevia: «Somos todos socialistas agora.»

O advento da democracia e do Estado-providência parecia estar a concretizar o sonho de muitos visionários e revolucionários do passado: o de um final perfeito, de uma ordem estável benigna, uma utopia, onde a história chegaria ao fim e o ser humano regressaria a um estado primordial sem invejas nem divisões. A este propósito, Mark Twain haveria de escrever, mais tarde, que «a história não se repete mas rima», condenando ao fracasso este tipo de expectativas utópicas.

A legitimação moral que os estados se atribuem, desde os primórdios, nas diferentes civilizações, deve ser a bitola pela qual são julgados. Assim, para se avaliar um governo é necessário perceber quão bem promove a justiça, a protecção (da guerra, do crime, das ameaças ecológicas) e o bem-estar dos seus cidadãos (medido em felicidade, rendimento ou saúde) – tendo em consideração as circunstâncias que herdou e o desempenho de outros governos em circunstâncias semelhantes –, bem como se aumentou ou diminuiu o capital (financeiro, humano, social e natural) herdado.

Mas não basta. Para que as sociedades sejam bem governadas, não é suficiente assegurar a democracia e um bom desempenho do Estado. Há outros aspectos determinantes, nomeadamente a ética e o contributo da sociedade civil.

João Wengorovius Meneses, Director da TESE

Seis edições para transmitir a visão cristã das questões sociais

As semanas sociais nacionais iniciaram-se na década de 1940. Foram abandonadas na década seguinte e retomadas em 1991. Na nova série, as primeiras quatro foram da responsabilidade da Comissão Episcopal do Laicado e Família. Desde 2006 são da responsabilidade da Comissão Episcopal da Pastoral da Família.

I Semana Social

Exigências Actuais do Desenvolvimento Solidário

1991 – Lisboa

II Semana Social

Família e Solidariedade

1994 – Coimbra

III Semana Social

Economia Social e Desenvolvimento Humano

1997 – Évora

IV Semana Social

Cidadania Pessoal, Responsabilidade Colectiva

2001 – Marinha Grande (Leiria)

V Semana Social

Uma Sociedade Criadora

de Emprego

2006 – Braga

VI Semana Social

A construção do bem comum. Responsabilidade da Pessoa, da Igreja e do Estado

2009 – Aveiro