Elisa Urbano, advogada de formação, mãe de quatro filhos e professora de EMRC em São Bernardo, é desde há sete anos directora do Secretariado de Diocesano do Ensino Religioso nas Escolas (SDERE), que, entre outras funções, coloca os professores de EMRC, nomeados pelo Bispo de Aveiro e contratados pelas escolas. Prestes a concluir um mestrado em Educação, Elisa Urbano fala da evolução da frequência da EMRC e destaca a importância da disciplina para um “crescimento harmonizado e integrado”. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira
CORREIO DO VOUGA – Como está a disciplina de EMRC (Educação Moral e Religiosa Católica) nas escolas da área da Diocese de Aveiro?
ELISA URBANO – Depende muito das escolas, dos directores das escolas e do ambiente à volta das escolas. Mas estou optimista nestes dois últimos anos porque se inverteu a tendência de descida de frequência da disciplina. Do 5.º ano ao 12.º, frequentam a EMRC 53,2% dos alunos. Há sete anos, quando assumi a direcção do SDERE (Secretariado do Ensino Religioso nas Escolas), a frequência andava pelos 57%. Ou seja, a frequência tem vindo a diminuir, mas em relação ao ano passado houve um aumento de 0,9%. Por concelhos, há maior frequência em Albergaria (78 %), Vagos (76 %) e Estarreja (71 %), e menor em Aveiro (33 %), Anadia (48 %) e Águeda (49 %).
Em números absolutos, o que significam estes 53,2%?
Significam que da população de 19.197 alunos do 5.º ao 12.º, nas escolas da área da Diocese de Aveiro [10 concelhos/arciprestados], 10.213 estão matriculados na disciplina. No 5.º ano, a frequência é maior. Depois, vai descendo. Do 7.º para o 8.º, a descida é mínima. Do 8.º para o 9.º aumenta ligeiramente. No Secundário (10.º, 11.º e 12.º), dá-se a grande quebra. A média de frequência, nos três anos, é de 16%.
Que razões levam os alunos a deixarem de ter EMRC no Secundário?
Penso que há várias causas. A principal terá a ver com o aumento da duração da aula de 45 para 90 minutos. O que à partida era uma boa notícia – e penso na minha situação, porque, sendo professora do 3.º ciclo vejo que uma aula de 45 minutos fica reduzida a pouco tempo útil de aula – tornou-se, pelas circunstâncias, uma complicação. Porque são menos alunos e há dificuldades em juntar várias turmas, os 90 minutos de aula acabam por ser encaixados num horário que interessa a poucos: segunda de manhã às 8h30, quando o resto da turma entra às 10h; ou na hora do almoço. Os outros vão comer e os “nossos” ficam para a aula. Nalgumas escolas, muito sujeitas a transportes – o que não é o caso de Aveiro, mas é o de Anadia – ter EMRC pode significar não ter transporte público, pelo que a disciplina é sacrificada. Mas em Albergaria, por exemplo, com os 90 minutos, a aula viu a sua frequência aumentar.
O perfil do professor conta para a frequência destas aulas que são de oferta obrigatória, mas de frequência facultativa?
Às vezes perguntamos a brincar: “Se os alunos escolhessem, quantos é que frequentavam a Matemática?” O aluno [ou os pais] escolhe a disciplina e há alguma influência do trabalho desenvolvido pelo professor, mas não devemos exagerar nisso. É uma carga muito grande para o professor. No Secundário, o perfil dinâmico é importante porque os alunos têm de estar envolvidos e participativos. Estou a pensar, por exemplo, na Secundária da Ílhavo, que envolve os alunos em projectos de solidariedade com Cabo Verde, ou na de José Estêvão (Aveiro), com as suas idas a Taizé ou a Compostela. Os alunos têm que concretizar, pelo que as aulas podem estar mais vocacionadas para a missão e o voluntariado. Penso que estas dinâmicas são importantes para manter e aumentar a frequência da EMRC.
Actividades como a Semana da Disciplina (ao nível de cada escola) ou o encontro Inter-Escolas (a nível da região) são importantes para que os alunos escolham EMRC?
O Inter-Escolas realizou em Abril passado a X edição, em Anadia. Estamos a pensar editar um DVD com fotografias. Para ver como estamos mais gordos nestes dez anos (risos). O Inter-Escolas começou com a Ir. Salomé, franciscana, que tinha a experiência dos encontros das escolas católicas, com apenas 30 alunos. Foi crescendo e, na última edição, eram 3400. A importância do encontro – podendo haver um ou outro aluno que se matricule por causa dessa festa – está, por exemplo, em empenhar professores de outras disciplinas na sua organização. Não seria possível sem a colaboração de mais professores. Ora, estes professores, muitos deles directores de turma, tornam-se aliados da disciplina. O encontro ajuda a desfazer uma certa ideia de EMRC que por vezes tem mais de 30 anos, quando a aula era muito semelhante a catequese. Estes professores, no momento das matrículas, podem ajudar a esclarecer os pais. Há um direito a ser esclarecido e os directores de turma têm essa função. Da parte dos directores das escolas, tenho sentido muito apoio para a EMRC.
Há diferenças no comportamento dos alunos que têm EMRC? Há dados?
Não há dados, mas há algumas ideias e factos. No ano passado, falando com a PSP de Aveiro, após o Inter-Escolas, disseram-me que estavam bem impressionados com o comportamento correcto dos mais de 3000 alunos. Não houve qualquer problema. Ora, nós sabemos que por vezes os condutores de autocarro metem as mãos à cabeça quando vêem entrar os alunos. Há viagens em que os alunos destroem tudo, cintos, bancos… Os alunos saem da escola… e há problemas. No nosso encontro, não houve disparates, como salientou a PSP. Naturalmente, isto tem a ver com os valores assumidos. Outro facto: nos conselhos de turma, quando se analisa o caso de um aluno problemático, surge logo a pergunta: “Tem Moral? Pois, vê-se logo que não tem Moral”. Os mais problemáticos não estão inscritos na disciplina, o que é uma pena. Estamos convencidos de que a disciplina ajuda. Por isso, na minha escola [EB2.3 de São Bernardo] estamos a pensar trazer antigos alunos para dar testemunho. E – outro exemplo – foi com muita alegria que encontrei na Torreira uma professora [de outra disciplina] que tinha sido minha aluna em Estarreja, em 1984/85, no primeiro ano em que dei aulas. Ela lembrava-se de coisas que tínhamos feito de que eu já não fazia a mínima ideia. É só um sinal de que a disciplina marca.
Apesar de tudo ainda persiste a confusão entre EMRC e catequese. Ou não?
Já não penso tanto que seja confusão. Agora é mais desculpa [para não frequentar uma ou outra]. O P.e Costa Leite fez um desdobrável que esclarecia bem. Há diferença de meios. A catequese é na paróquia. A EMRC é na escola. E diferença de objectivos. A catequese está direccionada para uma vivência cristã e culmina em sacramentos. A EMRC quer fazer a ligação entre a cultura e a fé. Há alunos que não são crentes, mas que querem conhecer e fazer a experiência dos valores. Temos, aliás, pelo menos um aluno budista, em Vagos, e uma aluna muçulmana, em Aveiro.
Mas o factor “fé” não é determinante?
A nossa missão é sermos “pescadores de homens”. Somos presença da Igreja Católica na escola. Não se trata de uma disciplina de formação cívica. Temos a missão de levar à adesão a Cristo, mas esta faz-se realçando a ligação entre a fé e a cultura. A forma como a disciplina está pensada permite que se aceitem jovens que não têm caminhada de fé cristã. Dá-se na EMRC um conhecimento que pode levar à opção de fé.
A EMRC não substitui, portanto, a catequese?
Claro que não. A educação humana e cristã acontece 24 horas por dia. Todo o ambiente deve ser de educação, na família, na escola e na catequese – os três espaços por onde anda a criança. Porque a ciência põe questões, porque há problemas levantados noutras disciplinas, a EMRC é necessária para um crescimento harmonizado e integrado. A criança e o jovem não estão partidos aos bocados. Precisam de uma visão de conjunto para que façam opções de vida. É nesse âmbito que surge a EMRC. Todos os ambientes têm de estar articulados e em rede. Por isso se fala cada vez mais de “cidades educadoras”. E isto também se aplica à Igreja. Caso contrário, só temos apêndices que não educam.
