Costuma dizer que “o humor é a distância mais curta entre duas pessoas” e defende o otimismo inteligente. O espanhol Germán Payo, licenciado em Inglês e Teologia, dedica-se à propagação do bom humor, da autoestima e do otimismo em escolas, hospitais, empresas e outras organizações. É membro da Sociedade Internacional de Estudos de Humor. Em Novembro passado esteve em Vagos, a convite da disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.
CORREIO DO VOUGA – Há 29 anos que faz oficinas de humor. O humor ensina-se? Aprende-se?
GERMÁN PAYO – Eu julgo que sim. Mas há pessoas que pensam que não. Woody Allen diz que não. Mas eu, ao longo destes anos, tenho visto que as pessoas têm capacidade de ver as coisas de modo divertido, se quiserem. Às vezes, aprendemos o humor em casa – é como melhor funciona. Mas pode-se aprender em qualquer idade. A crise que temos pode afetar o bolso, mas não deve afetar o humor.
Ter humor é ver as mesmas coisas de outro ângulo?
Sim, porque temos todos duas facetas no cérebro: uma lógica e outra criativa. E podemos desenvolver a parte criativa. Podemos ter contratempos, posso estar stressado, de carro numa fila de trânsito, e sentir-me mal ou rir. Se utilizo o riso como um recuso, vou sentir-me melhor. E não vou apitar.
Defende que se deve educar a partir do humor. Os professores, ao usarem o humor, não correm o risco de perder o respeito dos alunos?
Vamos lá ver. Quando uma pessoa está relaxada, a sua criatividade funciona melhor. Quando uma pessoa ri aprende muito mais do que quando está tensa por causa da seriedade, da disciplina e tudo isso. Claro que eu faço questão de ter ordem na minha turma, ser pontual, seguir a matéria. Mas também posso sorrir aos alunos, procurar histórias divertidas que sejam aplicadas às coisas que se ensinam. Se te ris, esse riso, unido a um conceito, vai permitir assimilá-lo melhor e por mais tempo. Acontece o mesmo com a publicidade. Os anúncios que nos fazem rir são mais eficazes e, por isso, são emitidos durante mais tempo.
Estudou teologia. Podemos dizer que Deus ri?
Parece-me que há pessoas, bispos, papas, padres, que são demasiados sérias. Penso que religião não tem de ser sisuda. As pessoas que entregam a sua vida, trabalham pelos outros, podem fazê-lo com alegria. Diziam dos primeiros cristãos: “Vejam como se amam, como vivem felizes”. O humor, o riso, a boa disposição fazem parte da religião. Há uma coisa muito curiosa: aprendemos que Jesus usava muito a criatividade. Quando lhe levam a mulher adúltera, se ele dissesse que devia ser apedrejada, era mau. Se dissesse que não, estava contra a lei. Parece que não havia saída. Mas ele encontra uma saída criativa [“Quem não tiver pecados que atire a primeira pedra”]. Ele mesmo dizia: “Deixai vir a mim as crianças”. Penso que isto também quer dizer que se não somos alegres, felizes, divertidos, “ratones”, felizes, não entraremos no Reino dos Céus. Às vezes parece que na igreja isto custa muito.
Existe a ideia de que estamos num “vale de lágrimas”, que temos de sofrer…
Isso vem muito da cultura… Basicamente, a seriedade e o trabalho bem feito são perfeitamente compatíveis com o humor e o riso. Se tu passas por alguém e dizes bom-dia a sorrir, podes mudar o dia dessa pessoa. Se o professor conta uma coisa divertida na turma, sem que a turma de destroce, predispõe-na para trabalhar melhor…
Costuma dizer que “subir à montanha e fazer humor é parecido”…
Ambas são atividades que me fazem sentir bem. Geram bem-estar no corpo e na mente. Geram-se endorfinas, opiáceos naturais que o corpo tem e que nos fazem sentir melhor, como quando apanhamos sol, estamos com os amigos, dançamos. Ora, eu não posso dançar no trabalho, mas posso sorrir.
Organiza sessões de humor para empresas, escolas, unidades de saúde. Que benefícios do humor pode retirar uma empresa?
Logo à partida, se te ris, vais ter melhor saúde e menos doenças. Aumenta a produtividade. O problema é que só nos rimos quando encontramos algo engraçado, divertido. Mas temos de aprender a rir quando as coisas não estão bem. Esse riso é importante para a saúde mental. Por outro lado, somos mais criativos – está investigado. Para a saúde emocional, é importante aprender a raciocinar com boa disposição em situações que são conflitivas.
Ontem um aluno dizia-me que estava magoado num braço, mas que isso pouca diferença lhe fazia porque podia jogar futebol. Ainda tinha outro para magoar.
O humor tem benefícios sociais: gostas mais de estar com alguém que se queixa todos os dias ou com alguém que te faz rir, que conta coisas divertidas?
O humor faz com que o trabalho seja mais agradável. Hoje ouvia na rádio que que Ronaldo estava magoado porque lhe chamavam Messi enquanto treinava [na Bósnia, antes do último jogo para o apuramento para o Euro 2012]. Se calhar tem de levar a situação a rir…
O riso cura?
Há muita gente que diz coisas incorretas. Por exemplo: o riso cura o cancro. Não, não cura. O que se passa? Uma doença é algo que tem múltiplas dimensões. E é importante o que sofres, mas também o que pensas e o que sentes. Podes ficar fechado em ti mesmo ou abrires-te aos outros e ao mundo. Conheci uma pessoa que tinha fibromialgia [doença que se caracteriza por dores musculares e fadiga]. Davam-lhe medicamentos e a pessoa não se curava. Mas, saindo com outras pessoas, com atividades sociais, exercício físico e um psicólogo que a ajudou a ver as coisas de outra forma, aprendendo a ser otimista, a medicação foi reduzida e quase desapareceu. A doença não afeta somente o corpo. O humor afeta a mente, os sentimentos, o modo como me relaciono com os outros.
Visitando um amigo com cancro na garganta, acabado de operar, no meio de muitos outros, pergunto-lhe como vai. E eles responde com uma voz cavernosa: “Aqui com estes homens fazendo um coro!” A questão é: como recebes o que está a acontecer-te? Há dias, uma senhora tinha dificuldade em andar. Um amigo pergunta-lhe o que se passa? Diabetes? Tensão alta? “Queres saber a verdade? É o BI [Bilhete de Identidade] que está com valores elevados”, responde, referindo-se à idade.
Tem sentido de humor?
Estou a trabalhar nisso. Há mais de vinte anos, que ando a responder à pergunta: O que posso fazer para melhorar o meu sentido de humor? E tenho verificado que que o que funciona comigo funciona também com os outros.
