Irmã Louise Bonnet
e Maria de Lurdes Ferreira
Ecos do 34º Encontro Nacional da Pastoral dos Ciganos, que, em Fátima, nos dias 4 e 5 de Outubro, reuniu 60 pessoas, entre as quais a Irmã Louise Bonnet e Maria de Lurdes Ferreira, da diocese de Aveiro. Em foco esteve o documento do Vaticano “Orientações para uma Pastoral dos Ciganos”. D. António Marcelino orientou um dos temas em reflexão.
“Ainda bem que o Papa falou e escreveu para nos defender! Pois sofremos muita discriminação”. Tal foi a reacção de D.ª Catarina, mulher cigana do nosso bairro, quando caminhávamos juntas pela rua, nesta sexta-feira. Na hora de partir, com Maria de Lurdes, para o encontro nacional da Pastoral dos Ciganos, eu quis participar-lhe o evento que tem a ver com ela, com todos os ciganos, com todos os membros da Igreja. O tema era oportuno: estudo das “Orientações para uma Pastoral dos ciganos” dirigidas a toda a Igreja pelo Conselho Pontifício da Pastoral para os Migrantes e Itinerantes.
Os responsáveis por esta Pastoral, D. António Vitalino Dantas e P. Amadeu Dias Ferreira, fizeram uma apresentação bem actualizada da situação em Portugal. A reflexão continuou com duas conferências de fundamentação.
D. Manuel Felício apresentou os princípios teológicos que motivam o empenho particular da Igreja. Como Jesus, ela quer ir ao encontro das pessoas mais débeis ou marginalizadas. E não é verdade que a sociedade, muitas vezes, e – quem sabe? – alguns de nós, também, fieis da Igreja, olham para o povo cigano com preconceito, desconfiança? E que, às vezes, pessoas são mantidas em situações desumanas?
A presença evangelizadora será sempre uma presença de respeito e de amor: estar com eles, ao lado deles, sendo eles próprios os protagonistas da evangelização. Disse-mos “respeito”: é respeito pela dignidade de filho de Deus presente em qualquer um. Cada pessoa é para nós o rosto de Jesus, chamada a tornar-se cada vez mais imagem de Deus e nosso irmão.
Como falam tantos documentos da Igreja, o trabalho de evangelização não pode prescindir de um compromisso de promoção humana na cultura cigana. Daí a pergunta: queremos assisti-los ou introduzi-los no processo de desenvolvimento? Acreditamos que o contacto com o Evangelho desencadeia este processo, onde são prioritárias a educação, a formação profissional, as condições de saúde…A partir daí, abre-se um caminho de diálogo e cooperação com o conjunto da sociedade. O povo cigano é povo do caminho. Aqui na terra, não somos, todos nós, caminhantes para a pátria celeste?
A D. António Marcelino coube ressaltar os aspectos pastorais que interrogam a nossa prática. Entre outros, podemos apontar:
– Se a evangelização quiser respeitar a dignidade das pessoas, é preciso dar-lhes o lugar que lhes compete na vida da Igreja…; que ela se faça cigana com os ciganos. Os passos dados aqui ou acolá são sinais de esperança. A mensagem do Evangelho deve inculturar a fé na cultura cigana, cultura que pode enriquecer a vida da Igreja, se soubermos acolher as suas manifestações: valor da família, da hospitalidade, da gratidão, da solidariedade, da religiosidade.
– Aceitamos a expressão dos jovens ou de outros grupos na liturgia. Porquê não dos ciganos?
– O desafio é desenvolver experiências-piloto novas, que integrem o povo cigano, para que eles se sintam na nossa Igreja como em casa.
Fica por percorrer um longo caminho, passo a passo, com paciência, amor, esperança: “pastoral da inutilidade”, disse alguém, sabendo que nenhum gesto de amor é perdido para Deus.
O encontro que vivemos reactivou o ânimo de todos os agentes “missionários” no meio dos ciganos. Ofereceu uma boa oportunidade de partilhar as experiências, de que é exemplo a Pastoral da Fraternidade, em Peniche, que abrange, além da comunidade cigana, outras categorias marginalizadas
Talvez fosse de esperar mais participação de “pastores” das nossas paróquias, de pessoas não directamente comprometidas…e dos próprios ciganos. No entanto, saudamos a valiosa e representativa presença do Sr. Dinis Abreu, presidente da Ciglei (associação de ciganos de Leiria). O seu projecto dentro da comunidade cigana converge com a preocupação da Pastoral dos Ciganos. Diz ele: “Temos a tradição que temos que manter, mas temos de evoluir na mentalidade. O meu objectivo é este: manter com inovações”.
Na nossa diocese de Aveiro, precisa-se de operários para esta messe… Precisa-se duma maior atenção de toda a comunidade cristã para este povo que vive no meio de nós, povo irmão.
