Bento XVI começa amanhã a viagem unanimemente considerada mais complicada, polémica, difícil do seu pontificado. O correspondente da BBC em Portugal escreveu há dias no “Diário de Notícias” que a imprensa escocesa – a visita começa em Edimburgo, na Escócia, onde será acolhido pela família real – diz que será recebido pela população numa “mistura tóxica de hostilidade e apatia”. “A primeira coisa que Bento XVI vai querer fazer quando chegar não será beijar o chão, como o seu antecessor, mas pegar numa pá e começar a escavar um túnel de fuga”, escreve o jornal “The Scotsmann”.
Talvez o jornal não conheça Bento XVI, que é uma pessoa determinada, embora não seja tão fogoso como João Paulo II. Este visitou o Reino Unido em 1982, mas numa visita pastoral. A de Bento XVI, de quinta a domingo, é a primeira com honras de Estado e tem como lema, quase sempre omitido pela imprensa, “Coração que fala ao coração”, uma expressão extraída dos escritos do convertido John Henry Newman (1801-1890), que será canonizado no último dia, em Birmingham.
As polémicas começaram há meses e intensificaram-se nos últimos dias. Em Abril, quando ainda decorria a fase dos preparativos, caiu na imprensa uma lista de sugestões elaborada por funcionários do Ministério dos Negócios Estrangeiros (Foreign Office) que incluía, por exemplo, um dueto de Bento XVI com a rainha Isabel, a inauguração de uma clínica de aborto e um pedido de desculpas pelo envio da Armada Invencível, no séc. XVI. O Foreign Office pediu desculpas ao Vaticano pelas ideias “claramente insensatas, ingénuas e desrespeitosas”. Por essa altura, o cientista Richard Dawkins, conhecido pelas suas cruzadas anticristãs, disse que iria instaurar um processo para que a Justiça prendesse o Papa por causa dos casos de pedofilia. Mais tarde, novas polémicas por causa dos custos da viagem. Falava-se em 20 ou 30 milhões de euros, que à escala de um país são trocos, mas as sondagens diziam que os britânicos não concordavam com o financiamento estatal, e os laicistas não se cansaram de criticar o apoio do Estado, que assume metade das despesas, a uma religião. Como reacção, uma companhia de aviação chegou mesmo a oferecer-se para transportar o Papa e o seu séquito. Nova polémica surgiu quando a Igreja inglesa, para fazer face às despesas e não ficar com dívidas como a quando da visita de João Paulo II, decidiu cobrar a entrada nas celebrações com o Papa. Para a canonização do Cardel Newman, por exemplo, o bilhete custa 25 libras (quase 30 euros). Uma medida inédita, impopular, mas necessária.
Mas se estas polémicas são quase marginais, outras há que tocam mais de perto a fé cristã. Na véspera da chegada, ou seja, hoje, a televisão pública BBC passa um documentário intitulado “Bento: tribulações de um Papa”, de Mark Dowd, um homossexual e ex-frade dominicano. Este programa, a par de destaques de ateus e silenciamentos de cristãos, levou um líder católico a falar em “viés institucional anticristão” da prestigiada emissora. Nas ruas circulam autocarros a pedir a ordenação católica de mulheres. Vai haver manifestações nesse sentido, outras pela mudança da doutrina católica sobre a homossexualidade e outras na sequência dos casos de pedofilia, embora a Igreja neste país não seja assim tão atingida. O mesmo já não se pode dizer da Irlanda e há que ter em conta que uma parte substancial dos 4,2 milhões de católicos ingleses, numa população de 61 milhões de habitantes, é de origem irlandesa. Diz-se que Bento XVI vai falar com algumas das vítimas.
Há, por outro lado, uma certa tensão entre católicos e anglicanos – não ao nível das cúpulas nem das bases, mas nos líderes intermédios – desde que o Vaticano criou uma estrutura para acolher anglicanos, principalmente padres e bispos, descontentes com as mudanças progressistas relativas ao ministério ordenado (ordenação episcopal de mulheres, aprovada em Julho) e à sexualidade (ordenação episcopal de homossexuais assumidos).
Com tantos pontos quentes é possível que o efeito global mediático seja contrário à soma das parcelas negativas. Mesmo a má publicidade, como se sabe, pode despertar a atenção para o que o Papa vai dizer. E gestos importantes não vão faltar.
Resume a agência Ecclesia: “O Papa inicia a visita por Edimburgo, sendo recebido pela rainha de Inglaterra, Isabel II. À tarde, preside a uma missa campal em Glasgow [onde cantará a católica Susan Boyle, o talento tardio revelado dos “ídolos” britânicos], deixando depois a Escócia a caminho de Londres, onde pernoita. O dia 17, que vai ser dominado por encontros com líderes cristãos e de outras religiões, inclui uma visita a Rowan Williams, arcebispo da Cantuária e sinal de unidade dos bispos e Igrejas da comunhão anglicana, dominante em Inglaterra. Entre as seis alocuções públicas que Bento XVI profere na sexta-feira, encontra-se o discurso dirigido à sociedade civil, que vai ser lido em Westminster, sede do Parlamento britânico. O terceiro dia, que também decorrerá na capital, inicia-se com reuniões com o primeiro-ministro, vice-primeiro-ministro e líder da oposição. O programa prossegue com a celebração da Eucaristia, terminando com uma vigília de oração. No domingo, o Papa parte para Birmingham, onde preside à missa campal em que vai ser beatificado o cardeal Newman. Antes do regresso a Roma, Bento XVI almoça e reúne-se com os bispos de Inglaterra, Escócia e Gales”.
Disse o director da sala de imprensa do Vaticano, padre Federico Lombardi, que Bento XVI vai propor “uma Igreja amiga, que dá o seu contributo à sociedade de hoje, a partir da própria fé”, enquanto o presidente da Conferência Episcopal de Inglaterra-Gales, D. Vincent Nichols, espera que a visita do Papa suscite “alegria” e “grande participação”.
Bento XVI, afinal é ele o protagonista, não pediu uma pá para fugir, como sugere o jornal escocês, mas pediu orações e agradece “às inúmeras pessoas que têm rezado pelo sucesso da visita e por uma grande efusão da graça de Deus pela Igreja e pela população” do Reino Unido. É isso que importa.
Jorge Pires Ferreira
