Grandes Documentos da Doutrina Social – Rerum Novarum (1) Ao longo das próximas semanas, intercalando com a “Bíblia em perguntas e respostas”, apresentam-se nesta página 16 artigos sobre as oito encíclicas sociais: Rerum Novarum (1891), Quadragesino Anno (1931), Mater et Magistra (1961), Pacem in Terris (1963), Populorum Progressio (1967), Laborem Exercens (1981), Sollicitudo Rei Socialis (1987) e Centesimus Annus (1991).
Charles Dickens escreve em 1854 no romance “Tempos Difíceis”: “Seguramente, nunca houve porcelana mais frágil do que aquela de que eram feitos os industriais de Coketown… Ficavam arruinados se se lhes pedia para mandar as crianças operárias à escola, ficavam arruinados quando eram designados inspectores para visitarem as suas fábricas, ficavam arruinados se estes mesmos inspectores consideravam duvidoso que tivessem direito a cortar as pessoas aos bocados com as suas máquinas, ficavam completamente arruinados se se insinuava que talvez nem sempre precisassem de fazer tanto fumo”.
Coketown é um nome fictício. Trata-se da típica cidade industrial inglesa do séc. XIX. Provavelmente nenhum autor como Charles Dickens soube escrever tão bem as consequências sociais da Revolução Industrial: condições de vida miseráveis nas cidades, exploração do trabalhador, crianças enviadas para orfanatos (quando ainda não podiam estar na fábrica), luxo e arrogância para a alta burguesia. Os salários eram baixos, havia trabalho infantil em grande escala (nas minas, as crianças podiam passar por galerias mais pequenas), os horários de trabalho podiam ser de 18 horas, abundavam os castigos físicos, não havia direitos de férias, descanso semanal, auxílio no desemprego. A conquista dos direitos é lenta e com muitos mártires.
A Revolução Industrial (RI), iniciada na segunda metade do séc. XVIII, na Inglaterra, com a mecanização dos têxteis, a exploração mineira em grande escala e o caminho-de-ferro, alastra-se a outros países e transforma por completo a vida das pessoas (a Portugal só chegou no séc. XX; e o processo repete-se hoje no Extremo Oriente). Algumas consequências: a casa deixa de ser o local de trabalho (como era desde a Idade Média) para ser a fábrica; as cidades crescem (Londres é a primeira cidade moderna a ultrapassar um milhão de habitantes porque é possível lá fazer chegar, por comboio, todos os dias, alimentos frescos); a família deixa de ser alargada e passa a nuclear; a mulher, trabalhando, torna-se autónoma; os bens são produzidos e consumidos em massa; o calendário passa a ser gerido em função do trabalho (as férias são um fruto da RI)… Hoje, os nossos costumes são, ainda, claramente fruto da RI, mais do que da Revolução Francesa de 1789.
Se Dickens descreve a sociedade, outros autores, naquela época, avançavam já para a interpretação e solução política. Karl Marx e Friedrich Engels escrevem em 1848 o “Manifesto do Partido Comunista” (MPC), que termina com o célebre apelo: “Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!”
O MPC teve um efeito inebriante junto de muitos trabalhadores. Ainda hoje, mesmo sabendo dos efeitos catastróficos que a aplicação das teses marxistas viria a ter nos países de Leste (principalmente a ditadura do proletariado, a luta de classes, o materialista dialéctico, a abolição da propriedade privada… pela via leninista), que não estavam industrializados (daí a junção da foice dos agricultores ao martelo dos proletários), é fácil ceder à explicação marxista da história, interpretada como uma luta entre exploradores e explorados, ente capital e trabalhadores.
“O operário torna-se um mero acessório da máquina ao qual se exige apenas o manejo mais simples, mais monótono, mais fácil de aprender. (…) Massas de operários, comprimidos na fábrica, são organizadas como soldados. São colocadas, como soldados rasos da indústria, sob a vigilância de uma hierarquia completa de oficiais subalternos e oficiais”, escrevem Marx e Engels no MPC.
A Igreja apercebe-se – com atraso, dizem alguns – que “os acontecimentos ligados à RI subverteram a secular organização da sociedade, levantando graves problemas de justiça e pondo a primeira grande questão social, a «questão operária», suscitada pelo conflito entre capital e trabalho” (Compêndio de Doutrina Social da Igreja, Ed. Princípia, n. 88). Fala-se então da “res novae” (realidade nova). É necessário “um renovado discernimento da situações, apto a delinear soluções apropriadas para problemas insólitos e inexplorados” (CDSI, 88).
É neste contexto que surge a encíclica Rerum Novarum (“Das coisas novas”), de Leão XIII, em 1891, que escreve logo na primeira página: “Os progressos incessantes da indústria, os novos caminhos em que entraram as artes, a alteração das relações entre os operários e os patrões, a influência da riqueza nas mãos dum pequeno número ao lado da indigência da multidão, a opinião enfim mais avantajada que os operários formam de si mesmos e a sua união mais compacta, tudo isto, sem falar da corrupção dos costumes, deu em resultado final um temível conflito” (RN, 1).
E antes
da Rerum Novarum?
A Rerum Novarum é um ponto de partida, mas não parte do zero. Padres, bispos, cristãos dedicam-se à pastoral dos operários. Em França, Albert de Mun (1841-1914) cria a Obra dos Círculos. Na Alemanha, Ketteler de Mogúncia (1811-1877) intervém no sentido de reformas como a limitação das horas de trabalho, o descanso dominical, a participação dos operários nos lucros e a dádiva de uma pensão às mães que ficam em casa. Também neste país, o Padre Adolph Kolping (1813-1865) funda centros de convívio de jovens operários. Em Inglaterra, o cardeal Manning arbitra a greve dos estivadores de Londres (1889). Em Sydney, Austrália, o cardeal Moran (1830-1911) convida os católicos a aderirem aos sindicatos.
Datas
1764 – James Hargreaves inventa a roda de fiar que faz o trabalho de 24 trabalhadores
1776 – Adam Smith (1723-1800) publica “Inquérito sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações”
1779 – James Watts inventa a máquina a vapor
1789 – Revolução Francesa
1807 – Barco a Vapor
1822 – Locomotiva
1830 – George Stephenson inicia o transporte ferroviário entre Liverpool e Londres
1848 – “Manifesto do Partido Comunista”, por Karl Marx e Friedrich Engels
1867 – Primeiro volume de “O Capital”, de Karl Marx
1886 – (1 de Maio) – Milhares de trabalhadores saem à rua em Chicago
1889 – (1 de Maio) Começa-se a comemorar o Dia Mundial do Trabalhador
1891 – Leão XIII publica a Rerum Novarum
