O Alto Comissário para os Imigrantes e Minorias Étnicas, Rui Marques, esteve no Centro Universitário Fé e Cultura, na noite de 7 de Dezembro, e mostrou a sua visão dos imigrantes, dos recentes problemas sociais em França, ou do caminho que a Europa está a seguir. Uma visão crítica, desassombrada, realista, mas acima de tudo cheia de esperança. Excertos de uma conversa de duas horas.
Conflito ou encontro?
As dicotomias do “ou” devem ser postas de lado. Vivemos um tempo de conflito e de encontro. Tem sido muito acentuada pela dinâmica mediática a dimensão do conflito, desde o atentado às Torres gémeas. Há dimensões importantes de conflito entre o Ocidente e o Islão que importa não ignorar, mas não são as mesmas que os mídia nos trazem.
Os mídia são como as salas de espelhos
Vivemos num contexto de sala de espelhos, onde uma pessoa se vê mais gorda, mais magra, aos bocados, complemente distorcida na sua realidade. Os mídia deformam significativamente a realidade nas suas proporções e relevância. A dimensão do conflito tem sido realçada pelos mídia.
O comum é que nos separa
Todo o discurso do conflito é estruturado em função das diferenças. São assumidas diferenças. Mas o problema não está no que nos separa, mas no que nos é comum, como naquela história magnífica do “século cristão” do Japão. No início, os missionários europeus foram bem acolhidos. Tal como os comerciantes. Mas, quando chegam os militares, os japoneses pensam que vai acontecer a guerra que estava a suceder nas Filipinas e martirizam os missionários e os cristãos. O desejo de domínio era comum. Aí é que está a raiz do conflito. E não no que separa.
Diversidade Cultural
Se as diferentes comunidades humanas não conseguirem gerir a diversidade em diálogo, a humanidade não tem futuro. Num contexto de globalização, de grande mobilidade humana, de grande influência de meios de comunicação social e das telecomunicações, é inevitável o contacto próximo e permanente entre civilizações e comunidades humanas (Novembro de 2001, dez anos depois da Cimeira do Rio: Declaração Universal de Diversidade Cultural).
Estamos cheios de ouvir falar de mutilação genital feminina, de véu, burka, shária… e pouquíssimos de nós saberemos os princípios fundamentais do Islão, a tolerância e abertura que a civilização islâmica trouxe à Europa.
Inspiração cristã da UE
A União Europeia é das expressões políticas mais importantes de inspiração cristã do último século. A ideia de que é possível dois inimigos ferozes, a Alemanha e a França, construírem uma plataforma de paz, de cooperação, de partilha da riqueza, partiu de homens com uma visão cristã do mundo: Robert Schuman (com inspiração de Monet) e Adenauer. Estruturam o projecto europeu nos pilares da solidariedade e da partilha da riqueza, da unidade na diversidade, da ausência de fronteiras, da liberdade de circulação de pessoas e bens. É a isso que se devem 50 anos de paz na Europa. Uma visão utópica que funciona.
Se alguém deve empenhar-se no projecto europeu, são os católicos, como preconizava um documento do episcopado europeu em Maio último. O projecto europeu é profundamente cristão.
Egoísmo = suicídio
Quando hoje se diz que na área da imigração nada se pode fazer sem uma mais justa repartição da riqueza do mundo, os pragmáticos da política dizem que isso é um lirismo, “é só conserva”. Mas foi assim que o projecto europeu avançou, a partir do sentido de partilha da visão dos “pais fundadores”. É a única maneira de chegar a maior desenvolvimento. A visão egoísta é suicida. A corrente discussão das perspectivas financeiras europeias para 2007/2013 está a ser uma negação completa do fundamento da Europa: o projecto de solidariedade para com os mais pobres.
Melhor e pior modelo
A utopia é possível. A utopia chama-se projecto europeu. Quando me perguntam qual o modelo para a questão da imigração no mundo, só conheço um, o modelo intra-europeu.
E qual é o pior modelo? É também o europeu, na relação da Europa com países terceiros, porque quando a Europa cultiva a atitude egoísta para com os vizinhos, está a ser completamente suicida. A Europa fortaleza é um projecto suicida. O muro à volta da Europa não detém os fluxos migratórios. Pensar isso é de uma total falta de visão total.
“Exportamos homens”
Um marroquino dizia: “Ai não compram as nossas laranjas? Nós exportamos homens!” A iniquidade da PAC seca completamente os mercados à nossa volta, devido à lógica proteccionista da Europa.E o principal país beneficiário da PAC é a França, que agora está a pagar a factura da PAC, com a violência urbana. “E isto não é mais do que o aperitivo” – dizia-se num jornal inglês.
Mesa com lugar para todos
Imaginem o que é começar um diálogo com perguntas deste género: “Como tratam as vossas mulheres? Como aplicam a justiça em contexto religioso?” Como se constrói diálogo, se queremos que todos comam uma comida semelhante à nossa, com os nossos talheres, segundo as nossas regas? A mesa com lugar para todos é uma metáfora fantástica. Os talheres, os pratos e os bancos são diferentes. A partir da diferença é possível construir o sentido da comunhão e do diálogo.
Interculturalidade
A lógica da dupla pertença é perfeitamente possível. A proposta da interculturalidade – aceitando, respeitando, estimando, conhecendo a diferença do outro, não fazendo uma permanente pressão de equalização (de transformação do outro num igual a mim) é o único projecto de futuro para a Europa. Os modelos assimilacionista (francês) e multicultural (holandês) estão em crise. É preciso fomentar o inter-cultural.
A interculturalidade não é abandonar a nossa identidade – não se constroem pontes sem duas margens. Mas só faz sentido na medida em que é suporte para a construção da ponte. E, no dia seguinte à construção da ponte, as duas margens vão-se transformando por via da comunicação.
Esperança
A esperança é o traço distintivo da minha intervenção na sociedade civil. Esperança fundamentada e vivida a partir da ideia do amor. O nosso tempo é construído com um discurso de falta de esperança. Quem faz um discurso optimista é considerado tonto. Um lírico. Um utópico. E o pessimista é considerado inteligente. A esperança é a única alavanca que levanta qualquer peso. Levanta o mundo.
Acreditar que há uma esperança não é ignorar a realidade. Não é termos um olhar tonto no sentido de não percebermos as complexidades, não percebermos que esse caminho é o da porta estreita. Esse é o caminho mais difícil, mas não há outro. A ilusão de que há uma porta larga, chamada segurança, chamada polícia, fronteira, proteccionismo, é uma mentira, é uma proposta profundamente suicidária para a Europa.
Multidões da esperança
Os imigrantes são as multidões da esperança (como descobriu a prefeita de S. Paulo, nas favelas dessa cidade do Brasil ). Acreditam que é possível melhorar a vida. É possível ultrapassar os maiores obstáculos pela conquista de um sonho. Procuro ter sempre presente a ideia da esperança. É por ela que somos capazes de construir algo diferente.
Modelo canadiano
A Europa prevê investir 6 mil milhões de euros em políticas de imigração: dois terços para fronteiras e retorno voluntário; um terço para integração. Esta política é profundamente errada, é a da Europa Fortaleza, da lógica proteccionista.
O Canadá é um país construído por emigrantes, como todos os maiores do mundo: EUA, Canadá, Austrália. Adoptou, em 1971, um modelo intercultural, que motiva um fortíssimo sentimento de pertença (ao fim de três anos de presença no território é possível a dupla nacionalidade) e respeita a identidade.
O ministro do multiculturalismo é um homem de origem chinesa que chegou ao Canadá aos 17 anos. “Estou aqui como ministro do Canadá, mas os traços da minha cara não se apagam jamais” – disse, um dia, na Indonésia, num contexto de forte oposição à comunidade chinesa naquele país.
Todos os anos o Canadá recebe 250 mil imigrantes. “Faz parte da nossa maneira de ser e viver receber emigrantes” – dizem. É um bom modelo. O melhor de todos pode ser a Europa: ausência de fronteira, ajuda ao desenvolvimento, unidade na diversidade.
Gabinete no bairro de lata
Na semana passada instalei o meu gabinete, três dias, na Quinta da Serra, no Prior Velho, à entrada de Lisboa, onde há 1600 pessoas, a maioria imigrantes, em barracas. Pretendi duas coisas: 1) aproximar-me das pessoas, de forma a poder ouvi-las e 2) dar um sinal. Na política, há uma enorme distância entre quem está em cima e as pessoas. Tenho procurado contrariar essa distância. O meu gabinete, no Alto Comissariado, funciona no mesmo sítio onde temos mil imigrantes por dia. Cruzo-me todos os dias com centenas de imigrantes. Esta ida teve o sentido prático de perceber os problemas das pessoas, que não me chegam por estudos ou relatórios.
Pessoas iguaizinhas a nós
Mais importante do que isso é a dimensão simbólica. Quis mostrar que a lógica de segregação, de bairros proibidos, de sítios onde não é possível entrar sem segurança não faz nenhum sentido. Aquelas pessoas são iguaizinhas a nós. Sentem da mesma maneira e têm os mesmos anseios. Convidei os jornalistas e a falar com elas sem ser por ter havido rusgas policiais, tráfico de droga ou detenção de imigrantes ilegais: “Percebam o drama de dormir nas barracas, de não ter um centro de apoio escolar – o grande anseio do bairro – , de não terem acesso ao emprego, porque quando no currí-culo vai a fotografia ou o nome do bairro, põem-no logo de lado”.
Sabemos acolher
O nosso slogan é “Acolher e Integrar”. Acolher é ser capaz de nos abrirmos ao outro, de o recebermos de braços abertos. Isto é um enorme desafio para Portugal, apesar de ser um dos nossos mitos fundadores. Temos capacidade de acolhimento. Um relatório de 2003 dizia que nenhum país de Europa duplicou o número de imigrantes em dois anos sem sofrer uma crise xenófoba. Ora, Portugal aumentou de 200 mil para 400 mil, sem nenhuma crise, e isto em contexto de crise económica. Há sinais de uma capacidade específica dos portugueses para acolher (a nossa extrema Direita é das mais baixas da Europa). Mas o acolhimento pode estar marcado num primeiro tempo por uma simpatia e a seguir por aquela exigência: “ou és igual a nós ou não tens lugar”.
Maior desafio
Construir o Portugal intercultural. Reforçar a dimensão do acolhimento: hospitalidade e integração em função da plena cidadania. Reconhecer o outro como um igual. Além da integração dos imigrantes (trabalho, saúde, habitação, justiça), o maior desafio é construir na sociedade portuguesa uma atitude de abertura e tolerância. E isso faz-se com pinças todos os dias.
Trabalho mediático
Criar permanentemente na sociedade portuguesa uma atitude tolerante passa por um trabalho mediático. No dia 18 de Dezembro, distribuímos, com o Correio da Manhã, um DVD com histórias de vida de imigrantes, para que as pessoas possam ver quem são e o que fazem, como sofrem, como vivem. Título: “Gente como nós – vidas de imigrante”.
Episódio de Carcavelos
As pessoas estão convencidas de que houve um arrastão com 500 jovens negros. Poucos são os que conseguiram desconstruir esta mentira. Quando a polícia, no próprio dia, desmentiu a notícia, ninguém ligou. Nenhum jornalista alterou o que estava a dizer. As fotografias foram tiradas por um dono de um bar que tem um profundo sentimento racista e que introduz nos mídia uma imagem com uma legenda que é totalmente falsa.
França
O que aconteceu tem três eixos: o quadro social (a seara pronta a arder), a perseguição da polícia a dois jovens, que morreram (o rastilho), e depois o ministro que diz que é preciso varrer à mangueirada “a escumalha”. É suposto ser o homem mais responsável. Gere polícia.
Quando me perguntam se espero o mesmo em Portugal, acho que não, porque não temos loucos no governo. Espero que não tenhamos faísca, porque combustível não falta. O ministro francês não fez nada de forma inocente, sabe que o que fez rendeu apoio popular.
Turquia na Europa
O tema Turquia é absolutamente central para o futuro da Europa. Sou a favor da adesão da Turquia, desde que queira e cumpra o extensíssimo caderno de encargos que a Europa impõe. Aqui se verifica a capacidade de construir ou não um diálogo de civilizações. Os pais fundadores da Europa seriam claramente favoráveis. A reflexão nacional sobre esse tema não está feita.
Três D de tentação
Desânimo, Desespero e Desistência. Pensar que não contamos nada. Cada um de nós conta e conta imenso. As grandes transformações da humanidade começaram por gente que não contava rigorosamente nada.
O Fórum Universal acontece na primeira quarta-feira de cada mês, no CUFC, e pretende ser um espaço de debate, com um convidado, sobre uma questão da actualidade. A próxima sessão é no dia 4 de Janeiro.
