A Ética na Política? Ou uma vida sem Ética?

DOMINGOS CERQUEIRA

No princípio do mês de Junho, esteve no Auditório do Seminário de Aveiro o Professor Marcelo Rebelo de Sousa para estabelecer a ligação entre Ética e Política. O auditório estava cheio, não só pelas reconhecidas qualidades do palestrante, mas, penso eu, também porque o tema nos preocupa a todos. Tínhamos tido eleições legislativas havia muito pouco tempo, numa altura em que o futuro do nosso País, o futuro de todos nós, o futuro dos nossos filhos e dos nossos netos, se apresentava – e apresenta – mais negro do que poderia imaginar há meia dúzia de anos o maior dos pessimistas. E apesar disso, a maioria dos portugueses esteve-se simplesmente nas tintas, como se escolher quem nos haveria de governar fosse um problema que interessaria mais, por exemplo, aos espanhóis, do que a todos nós, portugueses. Mas ainda penso que muitos não terão ido votar, não por um desinteresse total, mas pela dificuldade de escolher. É que, ao olharmos para as listas dos candidatos que os partidos nos apresentavam, não podíamos deixar de ter imensas dificuldades para, honestamente, escolher, devido à reconhecida falta de ética na prática política – e mesmo noutras áreas – de alguns candidatos que conhecemos daqui de ao pé da nossa porta. Eu, por mim, até fui votar, mas com as dificuldades de ter de excluir das minhas intenções de voto listas onde figuravam pessoas que, infelizmente conhecemos de ginjeira. E se os eleitores muitas vezes não votassem às cegas, se não olhassem, não para os nomes que iam ajudar a eleger, mas apenas para os emblemas deste ou daquele partido, quantas surpresas não teríamos nas eleições!

É que isto de haver ou não haver Ética na Política, para muitos, é assunto de menor importância. O que interessa é fazer a festa no dia das eleições, à porta do partido.

Tenho de reconhecer que, apesar de tudo, se o Salão do Seminário encheu para ouvir o Professor Marcelo Rebelo de Sousa a tratar deste assunto, é porque ainda muitos de nós estão de veras preocupados com o futuro e com as pessoas que se propõem tirar-nos do atoleiro em que o país entrou. Eu, por mim, fiquei agradecido a todos os organizadores deste debate.

Mas será que é só na Política que vai faltando cada vez mais Ética nas acções dos protagonistas? Ou não será que, na vida de todos os dias, o facto de as pessoas e as instituições procederem com ou sem princípios éticos já começa a ser assunto a que não damos grande interesse?

Ora vejam só se não tenho razão. Por um lado, como diz o Dr. Mário Soares, com a experiência de ex-primeiro-ministro e ex-Presidente da República, “as desigualdades sociais, a precariedade do trabalho e a miséria, são as marcas da ideologia dominante”. Todos nós caímos forçadamente numa “troika”, que a alguns já está a sujeitar a situações a roçar a indignidade humana.

Às vezes, é fácil criticar a Igreja por tudo e por nada. Mas na situação actual do nosso país ainda são as instituições ligadas à Igreja que vão conseguindo que a vida seja menos pesada para tantas pessoas que até há pouco tempo tinham o necessário para viver com dignidade e até com algum conforto.

Mas quando diariamente olho para certos jornais, fico a pensar se não serei eu que já fiquei doido. É que o que leio faz-me pensar que afinal no meu país não haverá tanto desemprego, e que por vias disso não haverá tanta fome, tanta dificuldade para suportar os encargos que se assumiram em tempos melhores, que não haverá vizinhos nossos, aveirenses como eu, que já choram por não terem com que secar as lágrimas dos filhos com fome ou com frio. Fico a pensar que tudo isto será invenção de alguns mais pessimistas. É que ainda há gente e instituições que vivem de forma imoral, porque gastam imoralmente como nababos.

O que se está a passar com o futebol nacional é verdadeiramente escandaloso. Todos os dias chegam ao nosso conhecimento contratos de jogadores, às dezenas, que ficam em dezenas de milhões de euros. Como será possível que num país a atravessar uma crise nunca vista, e muito mais nunca sentida, num lado da rua haja fome, miséria e ranger de dentes, e do outro lado alguns nababos gastem ofensivamente dinheiro às dezenas de milhões?

A quem trabalha tiram nos salários, tiram no subsídio de férias, tiram muitas vezes os empregos e muitas pessoas ficam com quase nada. Mais de 2 milhões de portugueses vão ficar com o subsídio de Natal reduzido.

E já estou como o outro que diz: Os ricos que paguem a crise. Ou então ponham os dirigentes das SAD desportivas no governo, que pelos vistos eles lá saberiam onde encontrar dinheiro para amenizar as dificuldades de tantos portugueses. E quem sabe se não descobririam maneira de fugirmos a tantos agravamentos dos impostos.