Experimentei a privação dessa relação próxima e revigorante” Vivo a eucaristia conforme a fase espiritual em que me encontro. Sempre assim foi e, hoje, mais que nunca. Esta fase é espelho do amor que lhe dedico e força que dela recebo. Na minha evolução espiritual, há marcos significativos desta relação profunda. Aponto apenas alguns que considero mais significativos.
Quando na celebração pronuncio as palavras da consagração: “Isto é o meu corpo entregue por vós” ou as do cálice, sinto-me envolvido na atitude de Jesus Cristo e convidado a crescer no amor de doação, no espírito de serviço, no valor da aceitação das limitações, no desafio de saber tirar partido das energias que estas comportam. É para mim muito interpelante este envolvimento que me faz eucaristia por um mundo humanizado, isto é segundo o projecto de Deus realizado por Jesus de Nazaré.
Ao comungar na enfermaria do Hospital de São João no Porto, nos dias seguintes à operação às cervicais, vivi aquela relação de harmonia com a nova situação. Ao raiar da manhã, antes do início do trabalho, vinha o enfermeiro encarregado deste serviço falar comigo, ver as minhas disposições e se pretendia receber o Senhor. A eucaristia surgia assim como reserva zelosamente guardada para ir em nossa ajuda, sem ostentação por atenção aos doentes não crentes, mas com respeito e dignidade que muitos apreciavam. Quando alguma vez não pude comungar, experimentei o que será a privação de tantos “amigos do Santíssimo Sacramento” impossibilitados de manter essa relação tão próxima e revigorante.
No trabalho missionário que fiz em vários países, vivenciei mais profundamente a alegria e a festa que a celebração da eucaristia constitui para a comunidade cristã. Em tempos de guerra e com caminhos minados, quantos catequistas e religiosos percorriam dezenas e dezenas de quilómetros para ir buscar “o pão consagrado” e distribui-lo nas suas capelas erguidas no meio dos aldeamentos. Desde então, vivo um misto de sentimentos e certezas em que se cruzam a situação actual dos padres, a sua formação e distribuição, e a de outros agentes pastorais e a sua preparação para os serviços indispensáveis à comunidade eclesial; situação em que a penúria de muitos contrasta com a relativa abundância de poucos, em que a heroicidade do sacrifício martirial desafia continuamente a exigência mediana. E ficam-me interrogações sérias que se mantêm em aberto a aguardar clarificação.
Há ainda mais duas fases marcantes na minha vida eucarística. Embora brevemente, quero fazer-lhes referência.
Nas férias grandes, os seminaristas de Calvão costumavam reunir-se diariamente para a recitação do terço e a visita ao Santíssimo. Estava presente quase sempre o nosso prior. A oração da visita era diversificada. Frequentemente, havia diálogos em voz alta com o Senhor no sacrário. Aqui aprendi e desenvolvi a comunicação pessoal, cresci na fé e ganhei hábitos de falar com Deus sobretudo nos caminhos da vida.
Na minha família, normalmente ao calor da lareira, enquanto se rezava o terço a que não faltavam as invocações a Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento e outras que faziam parte do nosso património religioso, fui interiorizando a relação de Maria com a eucaristia, relação que mais tarde vim a aprofundar. Esta oração familiar convertia-se em verdadeira celebração doméstica quando ao domingo os meus pais se reuniam com os filhos – nascemos treze – na sala do Senhor e rezávamos em conjunto, contando uns aos outros o que tínhamos ouvido na missa. Normalmente o Pai era o último e, após ter feito o seu comentário, concluía pedindo pelas vocações e dando graças e louvores ao Santíssimo Sacramento. Foi também nesta escola que comecei a “beber” o amor à eucaristia.
P. Georgino Rocha
