Poço de Jacob – 52 Falar da fé, não é habitual entre nós, embora, falemos muito de assuntos ligados à ela. Como não paramos para considerar o que é respirar, porque simplesmente respiramos, ou não paramos para considerar o amor, porque simplesmente amamos, o mesmo sucede com a Fé. Não nos detemos a considerar os seus diferentes aspectos, enquanto realidade, porque nos habituamos a crer, ainda que esta fé não seja em Deus, pois acreditamos em tantas coisas.

Para muitos, ter fé é acreditar no Deus que não se vê, que está invisível aos nossos olhos. Assim, também acreditamos que exis-te um planeta chamado Urano. Para muitos, crer é só acreditar. Mas costumamos dizer que o diabo também acredita, pois, por se ter revoltado contra Deus, Deus e os seus projectos estão escondidos aos olhos do diabo. O mesmo se passa com o mistério de Cristo. Na Bíblia, ele queria sempre saber se era o Messias. Por isso, lemos o diabo a desafiar Jesus a revelar-se: “Se és o Filho de Deus…”, aparece na narração das tentações de Jesus.

A samaritana, quando chegou perto de Jesus, era uma mulher de fé. Ela disse que acreditava que Deus deveria ser adorar no monte Garizim, como fazem os samaritanos, e não em Jerusalém, como faziam os judeus. O samaritano leproso que foi curado com nove leprosos judeus e voltou para traz seria um homem de fé, no seu Deus, como o Naamã da Siria… Muita gente diz, querendo justificar sua falta na Igreja: “Eu tenho minha fé…”

S. Paulo, nas suas cartas aos Gálatas, também fala da Fé e da Lei. Lei, em Paulo, corresponde aos preceitos do Talmud e da Tora judaica. Diz ele que esta lei carece de Fé, pois a economia da Fé que salva foi inau-gurada com Jesus Cristo. Que Fé será esta? O Judeu não tinha fé e seguia a Tora que manda amar a Deus sobre todas as coisas. Santa Teresa de Avila, chamada de Teresa de Ahumada, viveu uns 20 anos no convento, acreditando, mas só quando despertou para a verdadeira Fé bíblica e evangélica é que se sentiu mulher de Fé, de tal modo que mudou seu nome para Teresa de Jesus. A fé, para muita gente, não passa de um acto intelectual pelo qual eu acredito que Deus exis-te. Mas, não passa daí. Existe como tanta coisa que eu acredito e não vejo, mas que não tem influência directa na minha vida. Mas, à samaritana, Cristo disse que é preciso adorar a Deus em espírito e verdade, e isto está para além dos montes e lugares santos.

Qual é a Fé que salva, afinal? A fé humana baseia-se no testemunho de pessoas que considero credíveis. A Fé divina, teologal, dada por Deus aos homens, como virtude, ou seja, força de Deus, supõe testemunho, intelecto, e vontade, mas define-se somente de um modo, e à luz desta definição entende-se tudo quanto se passa nas palavras de Paulo ou na mudança de nome de Santa Teresa: É a adesão a uma pessoa divina, que é Jesus Cristo, e o cumprimento incondicional da sua vontade. Isto é a Fé que salva. Pode carecer de sentimentos e coisas sensíveis. Move-se em mim, muito, no meio da aridez do coração e da vida, mas faz-me considerar Jesus uma presença que eu não quero ofender pelas minhas atitudes. Esta é a Fé que Jesus elogiou no samaritano que voltou para trás por ter sido curado. Supõe que Jesus é uma eterna novidade para mim, que a tarefa da vida é agradá-lo em tudo. E como Chiara Luce ou Teresa de Lisieux, só devo contentar-me com sua vontade. Supõe o Baptismo e que sejamos educados nas suas exigências e promessas. Supõe uma vida de oração que me transforme. Supõe o esforço de auto-educação a que chamamos ascese. Supõe a convicção e a certeza de que a chama recebida no Baptismo deve incendiar o mundo. Acreditar que Deus existe não muda a pessoas por si só. Aderir à vontade do Deus que amo muda a pessoa e muda o mundo, ainda que passe toda a vida sem a certeza de que Ele existe.

P.e Vitor Espadilha