Dez palavras-chave sobre a “Caritas in Veritate” Falar de desenvolvimento – tema principal da “Caritas in veritate” (CV) – nos tempos actuais é necessariamente falar de globalização. Bento XVI não tem uma visão pessimista da globalização, a qual, como processo, é imparável, como o foi a industrialização, ou, se quisermos recuar para outras grandes transformações sociais e económicas, o aparecimento da agricultura, a formação das cidades, o comércio internacional.
A globalização é imparável, porque ninguém está disposto a deixar de comprar produtos estrangeiros, ver filmes e ouvir músicas noutras línguas, estudar, trabalhar ou viajar noutros países. Mesmo o maior antiglobalista aproveita-se da globalização. A não ser que não use telemóvel, computador, Internet, carro, não se vista e… não coma, pois é praticamente impossível fazer uma refeição apenas com produtos nacionais. Mas mesmo que seja, tem de confeccioná-la com gás da Argélia ou electricidade com uma larga componente de petróleo do Médio Oriente. Começou por ser financeira, quando em tempos recentes, com a facilidade das telecomunicações, se suprimiram as barreiras dos fluxos monetários, mas é também comercial, laboral, cultural e até sanitária (a gripe!).
Tem-se dito, com algum acerto, que a globalização é má para os trabalhadores (se tivermos em conta as deslocalizações de empresas, por exemplo) e boa para os consumidores (tal é a abundância de bens e serviços). Mas será mais acertado dizer que a globalização tem sido boa para as economias emergentes (cerca de 400 milhões de pessoas deixaram de ser pobres na última década) e má para a classe média e baixa das economias modestas (como a nossa). “A globalização a priori não é boa nem má. Será aquilo que as pessoas fizerem dela”, resume diz Bento XVI.
Em várias da vezes que o Papa usa o termo “globalização” antecede-o da expressão “em vias de” ou “processo de”. É algo a dar-se. Algo dinâmico. É possível moldá-la. Ora, esta ideia de globalização em processo é muito importante para as ideias principais, no n.º 42: “É um fenómeno pluridimensional e polivalente”; “é preciso empenhar-se sem cessar por favorecer uma orientação cultural personalista e comunitária, aberta à trans-cendência, do processo de integração mundial; a globalização “exige ser compreendida na diversidade e unidade de todas as suas dimensões, incluindo a teológica. Isto permitirá viver e orientar a globalização da humanidade em termos de relacionamento, comunhão e partilha”.
Bento XVI fala mesmo de uma autoridade mundial e da reforma das Nações Unidas (que não são, obviamente, um governo mundial), no n.º 67. Dez números antes, deixara pistas para o governo da globalização: “A globalização tem necessidade, sem dúvida, de autoridade, enquanto põe o problema de um bem comum global a alcançar; mas tal autoridade deverá ser organizada de modo subsidiário e poliárquico, seja para não lesar a liberdade, seja para resultar concretamente eficaz”. Assunto em aberto
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