A graça do acolhimento dos pobres é maior que a riqueza dos ricos

Maputo, fim de tarde. Espero, à porta do aeroporto, por não sei eu quem. Estranhamente, não há muita preocupação, pois nestas coisas sentimo-nos sempre protegidos, quaisquer que sejam as circunstâncias. Há um seguro de Providência ilimitado!

Observo à minha volta, vejo as pessoas, a mistura de gente, negros, asiáticos, brancos, indianos… parecia um reino onde havia lugar para todos.

Chega o P. Américo. Não era difícil dar comigo. Passo a primeira noite na Visitadoria Salesiana e, de manhã, sigo para Tete num aviãozinho simpático e com pouca gente. A maior parte dos passageiros eram missionários. Lembra-me Angola, em que era tudo gente da ONU e companhia… Aqui, quando a guerra já se despediu há mais tempo, a pobreza continua, e os missionários ao lado do povo são quem continua a dar-lhe luta.

Tete recebe-me com um calor imenso, abafado. Passa-lhe ao lado um dos maiores rios de África: o Zambeze, de onde o reino antigo do Grande Zimbabué tirou sustento e controlo de território; mas nem por isso, pelo rio, o clima é mais fresco. E nem por isso a abundância de água para beber e para a agricultura é correspectiva.

Não entendo. Até aqui, já tinha visto muitos tipos pobreza. Mas ou era por causa da guerra, catástrofes naturais, injustiça social… Aqui, conheci um novo tipo: a pobreza sem sentido…

Não tardei a dar-lhe um nome. De facto, depressa se foi revelando o sistema das coisas: um presidente de município que recebe computadores para a administração, mas os computadores vão parar aos amigos, sem critério de cargo; empresas multinacionais que constroem um orfanato que é inaugurado pela Sra. Guebuza, primeira-dama, com destaque, para amaciar o choque dos empreendimentos de extracção de carvão que aí vem… O que é que o povo ganha?! Um orfanato para lhe calar a boca.

A água do sistema público já existe. Os tubos estreitos, que vi por ocasião de algumas obras na Missão, estão dirigidos para algumas habitações específicas. Os canos são a coluna vertebral. Os que saem destes para o resto da cidade, para as torneiras comuns, onde toda a gente enche jerricans, fecham-se se for necessário. Se necessitarmos mesmo de água, podemos pedir ao município que a fechou que traga um tanque. Mas, depois, temos de pagar o tanque, o transporte e a água, claro. Tudo isto aliado ao calor… Só vingam os campos que estiverem bem junto do rio.

Agora a pobreza, apesar de já se perceber o sentido, ainda ficou mais sem sentido.

Eram as coisas em que ia pensando, quando chegava a noite bem cedo e o fresco me cumprimentava. Ia pensando neste mundo, no lado da África que toca o Índico, tão voltado para a Índia, tão perto da China e cada vez mais longe de Portugal, que hoje se convenceu de que já não é mais um grande país, com excepção das três ou quatro semanas em que dura o Campeonato do Mundo ou da Europa. Aquele Portugal que construiu Cahora Bassa, aqui bem perto, que dá luz a meia África do Sul e é a barragem que mais produz em toda o continente negro.

Era à noite, quando parava de ouvir as que iam conversando a sua vida, as suas coisas boas e a suas dificuldades, que ouvia outras vozes, talvez a minha, talvez a de Deus. Ou ainda outras, porque em África há um certo misticismo quando cai a noite, fica fresco e olhamos para o Alto. O céu desce para aliviar as dores que o dia testemunha.

Nas horas de reflexão nocturnas, chegamos a momentos que são reveladores, vemo-nos num quarto minúsculo, à luz do crepitar de uma vela. Ao longe, batuques furiosos iluminam os espíritos da noite, junto com grilos e rugidos vários. Olhamos ao redor e, através da malha fina de um mosquiteiro da UNICEF, observamos um lavatório onde não corre água, uma torneira de duche que apenas pinga. Sinto que estou bem. Tenho um tecto agora e aguento-me, apesar do estômago pouco composto.

Há três dias não era assim. Estive numa qualquer aldeia de África, de visita, com o propósito de ouvir e perceber a vida das pessoas, compreender-lhes as necessidades mais prementes. Passei alguns dias no mato, com as gentes sem pecado, do interior, vivendo da sua generosidade e acolhimento, da sua simplicidade, como o mundo era no princípio, quando as sociedades eram grupos ‘tchetengelo’, comunidades.

Ao fim da primeira manhã, tive fome, pensei eu. Senti que queria comer!

E a comida veio. Uns bagos de arroz, um pouco de frango, a cortesia de um garfo, a companhia tímida primeiro. Comi. Recusar era ofensa e o meu estômago pedia. Comi um banquete que apenas ocupava um pouquinho da tigela de madeira. Continuei com fome, mas nunca seria capaz de pedir mais. Aguentaria um pouco, como os ‘Sem Nome’ aguentam a vida toda. Aguentei até ao fim do dia, e, depois, até ao fim da manhã. Comi “chima” e mais algumas coisas não próprias de se dizer alto. Sempre em pequenas quantidades, mas sempre do melhor que tinham para dar, pois a graça do acolhimento dos pobres é maior que a riqueza dos ricos.

O meu estômago queixou-se, doeu e fraquejou… mas não foi fome. Quando se tem fome, o tempo passa devagar, a Terra não gira, o Sol não se põe e o sono não descansa.

Quando se tem Fome, o Mundo parece outro sítio, porque o apetite que sentimos fica diferente. É uma fome mas de um tipo que não conhecemos, porque nunca estivemos no chão sem força para nos levantarmos, sujeitos a tudo e à espera de nada.

Ter fome, não sei o que é. Só os meus olhos lá passaram uns dias, e hoje estou aqui a escrever, ao mesmo tempo que a cada minuto alguém parte para a eternidade, porque não teve que comer…

Estes momentos são reveladores, toldam-nos a vista e enchem-nos as mãos de força para, em conjunto, mudarmos o mundo. Ficar parado não é opção. Não, enquanto isto acontecer.

(continua na próxima semana)

Pedro Neto,

em Moçambique