A Árvore de Zaqueu*
*«Porque era de baixa estatura, subiu a uma árvore para ver Jesus» (Lucas 19,3-4)
Se treparmos até ao cimo, todas as coisas da vida servem para ver melhor. IV Domingo do Tempo Comum – C
O texto de S. Paulo ficou célebre na história como «hino à caridade» ou, ao estilo moderno, «hino ao amor». Tanto pela riqueza do conteúdo como pela beleza literária. Mas nunca o poderia ter escrito, se não tivesse escutado o convite daquele Jesus que ao princípio lhe parecia execrável e que, entre outras coisas nada literárias, atacou a dureza de ouvidos dos judeus do seu tempo e especialmente dos chefes religiosos. Jesus não podia ser recomendável para um fariseu educado e coerente como S. Paulo. Mas Paulo era educado e sério – de outro modo não seria capaz de mudar as ideias e métodos de acção, preferindo o terreno fértil mas penoso de não adormecer na busca da verdade.
E assim descobriu uma força que consegue romper as correntes mais pesadas, a fúria das águas e a fúria dos homens. Será que S. Paulo conhecia a famosa obra de Aristóteles «Ética a Nicómaco»? Aí se lê que «a virtude está no meio» – não no aconchego de dois braços amorosos mas num cume de escarpas íngremes e escorregadias (onde também se podem encontrar aqueles dois braços!). O que importa é procurar manter-se longe do abismo. E que vista panorâmica, de tal altura! Porém, de que me vale o cume se não souber olhar?
Só o sabe quem se afoita a olhar as rea-lidades do mundo – do cume da benigni-dade, da paciência, da justiça, da verdade, enlaçadas pela prudência e «bom senso». E só o amor sabe dar remédios amargos, com o objectivo honesto do «bem comum».
Os judeus do evangelho ficaram «chocados» por um simples filho de carpinteiro se arrogar tanta liberdade e sabedoria – e quiseram impedir Jesus de «seguir o seu caminho». Mas Jesus era o perfeito exemplo de amor equilibrado, e calmamente «continuou». Se olharmos para Jeremias, vemos como ele receava enfrentar o povo; mas Deus avisou-o de que, se não se preparasse para defender a verdade, seria a primeira vítima da mentira. E também Jeremias se lançou à aventura.
Jeremias e Jesus foram chamados a defender corajosamente uma vida cada vez mais humana, onde ninguém é um projecto inútil.
Quando somos conscientes de que há projectos a morrer, somos nós que «somos chamados» a dar sentido a essas mortes precoces – particularmente à morte dos chamados «inocentes», «desprotegidos» ou que nem sequer tiveram tempo de ter um nome. Cada um desses, cada um de nós, é de facto insubstituível. Todas as flores murcham e algumas nem chegam a abrir. Precisamos de não ter medo de enfrentar esta realidade, ganhando forças e sabedoria para melhorar um ambiente propício a uma humanidade colorida e saudável. Quantas vezes as nossas atitudes e políticas reflectem uma deserção cobarde perante as exigências do amor?
Se não nos dispusermos a ajudar-nos uns aos outros, caímos no descalabro de enviar, sem a devida reflexão, muitos projectos originais, nessa medida insubstituíveis, para a linha de morte da guerra da vida.
Manuel Alte da Veiga
“Caridade” ou “amor”?
“Caridade” ou “amor”? O hebreu, grego e latim já misturam diferentes radicais, mas sobressai uma ideia central: o afecto entre os seres humanos e entre estes e o próprio Deus, implicando um movimento de aproximação e carinho. O grego «charis» aponta para aquilo que brilha, é belo, alegra e dá prazer, e o radical indo-europeu «gher» evidencia o amor e o desejo. Até que ponto é que os «grandes padres do cristianismo» foram vítimas do maniqueísmo, juntando o «amor» ao «diabólico prazer carnal», e pintando a «caridade» de cores só «angélicas»? A teologia moderna já conquistou «a visão panorâmica do amor» – mas S. Paulo já sabia juntar sentimento e razão (1 Coríntios,14): «Cantarei com todo o entusiasmo, mas igualmente com a inteligência». Só o amor inteligente, culto e educado é que é eficiente.
