XXIV Semana da Pastoral Social “A situação em Portugal é complexa (também no social), mas o cristão não pode deixar cair os braços e nem tão pouco se deve impressionar com os números”. “A crise é muito mais complexa do que se apregoa. O futuro próximo trará dificuldades, porque a crise económica vai continuar e, com certeza, aumentar, havendo necessidade urgente de traçar o rumo da acção social da Igreja”. “Queremos uma Igreja sem medos, sempre atenta e interpelativa. Esta intervenção deve ser para os cristãos uma consequência da fé.”
Estes foram os pontos-chave que o porta-voz da Conferência Episcopal, D. Carlos de Azevedo, Bispo Auxiliar do Patriarcado, expôs aos jornalistas no final da XXIV Semana da Pastoral Social, que decorreu em Fátima com a participação de muitos avalizados pastoralistas e técnicos em Doutrina Social, numa organização do Secretariado Nacional da Pastoral Social. A temática deste ano foi “Identidade cristã das Instituições de Acção Social da Igreja”.
Foram dias bem interperlativos com intervenções de fundo de Maria José Nogueira Pinto (“Os cristãos na intervenção social”), Alfredo Bruto da Costa (“Intervenção cristã: que originalidade?”), Acácio Catarino (“A qualidade na intervenção cristã”), D. Carlos de Azevedo (“Tradição e inovação no agir social da Igreja”), além de workshops vários sobre um mundo de actividades e acções, desde experiências no terreno, a dificuldades múltiplas, resultados, fracassos, inovações…
Perante uma sociedade, porventura, rica de valores, quiçá, paupérrima de saber remar contra correntes desenfreadas em todas as frentes, há que “não ter medo de intervenção, há que não ter medo de ser livre,” como foi repisando, amiudadas vezes, o Secretário da CEP, quer no diálogo franco com os jornalistas, quer na sua intervenção no encerramento.
O mundo da droga, de situações nas cadeias, dos bairros de lata, em Lisboa, Porto ou noutras urbes, dos auto-abandonados, dos viciados da rua ou dos que estão à margem dos cristãos, caídos nas valetas, ou sem um abrigo, exige respostas.
Constatou-se um certo desencanto, por parte dos responsáveis das instituições de solidariedade, face a governos que se apoiam nas instituições sem lhes darem o que estas necessitam como de pão para a boca. Mas estas críticas foram direccionadas a todos os governos, já que nenhum tem estado à altura de aquilatar o seu valor. Refira-se que mais de 70 por cento das instituições de solidariedade estão a ser geridas pela Igreja.
Escutando
“No domínio da solução concreta dos problemas sociais, não existem verdades reveladas por Deus; em muitos casos os mesmos princípios da doutrina social da Igreja, baseados na revelação, podem ser aplicados, por diferentes cristãos de maneiras também diferentes e até contrastantes” (…)
“Nenhum grupo de cristãos detém o exclusivo da doutrina social nem de julgamento das posições de outrem.”
Acácio Catarino
“Não devemos ficar a lamentar a situação, mas devemos encontrar formas de correspondência às reais necessidades das pessoas. Isto não são recados ao Governo, como se quererá insinuar, mas recados para a Igreja. A Igreja é que deve perder o medo de ser livre e encontrar em cada hora da história, em cada lugar do País, as soluções para os problemas das pessoas. A Igreja não deve estar dependente do Estado, face a quaisquer protocolos. Com apoio ou sem apoio de quaisquer subsídios, há que encontrar soluções.
Ao caminharmos com os excluídos, nós aprendemos muito de Deus. Enquanto os seres humanos não forem livres, nós também o não seremos. Não se pode ser livre
no meio dos escravos.”
D. Carlos Azevedo
“A caridade não é acidental na Igreja. A caridade é da essência da Igreja, como o são os sacramentos. O cristão não lida com a pobreza ou a miséria, mas lida com o pobre,
com a pessoa.”
Alfredo Bruto da Costa
“Só há comunidade onde se anuncia o Evangelho; deixemos que Deus seja Deus nas comunidades e em cada um de nós.”
Borges de Pinho
