“A Igreja foi a maior protecção física perante os abusos contra os direitos humanos”

Ângelo Ferreira, depois de três anos em Timor As negociações entre populares liderados pela Igreja e o governo de Timor-Leste estão num impasse. As últimas notícias davam conta de um ultimato das autoridades policiais aos manifestantes. Deviam abandonar a zona das manifestações até ontem às 17h (início da manhã de ontem em Portugal).

As manifestações populares começaram no dia 19 de Abril, primeiro como reacção à medida governamental que pretendia tornar facultativas as aulas de Religião e Moral, depois como contestação alargada ao governo liderado por Mari Alkatiri. Os populares, com autoridades eclesiásticas na linha da frente, pedem a demissão do governo. José Ramos-Horta, chefe da diplomacia timorense, classificou as manifestações como uma “grande mistura de religião e política, de exibição pública de símbolos sagrados com cartazes políticos, de orações fervorosas e insultos” e aconselhou a Igreja “a fazer uso da sua experiência e sabedoria seculares e esperar por novas eleições”, marcadas para 2007.

O Correio do Vouga fez três perguntas a Ângelo Ferreira, antigo presidente da Associação Académica da Universidade de Aveiro e promotor da “causa timorense” nos anos 90 (com Miguel Oliveira e o apoio da Universidade e do CUFC, promoveram-se campanhas de fundos para Timor e D. Ximenes Belo, então bispo de Timor, veio a Aveiro falar com a comunidade académica). Ângelo Ferreira esteve em Timor três anos como representante da Fundação das Universidades Portuguesas, onde coordenou um programa de apoio à Universidade Nacional de Timor-Leste.

Aos nossos olhos, habituados à separação Igreja/Estado e à liberdade religiosa, o carácter facultativo das aulas de Religião e Moral parece algo de salutar. Não pensa assim a sociedade timorense. Qual a influência real da Igreja Católica na vida e sociedade timorense?

A influência da Igreja Católica na sociedade timorense é, de facto, muito grande, por diversos motivos. Não podemos esquecer que a Igreja foi um baluarte da resistência, com acções muito concretas (que levariam muito tempo a analisar), quer ao nível de uma resistência cultural (promovendo uma identidade que passava, inevitavelmente, por uma ligação ao Ocidente através da própria identificação religiosa, mas também através de uma ligação sentimental com Portugal, incentivando o uso da língua portuguesa como instrumento de resistência, especialmente na formação de algumas elites, onde se incutia uma ideia de nação timorense, alimentando nos jovens os ideais de 75 – as melhores escolas eram da Igreja; muitos dos elementos do Governo e do Parlamento obtiveram formação em escolas da Igreja como o Externato S. José, com ensino em língua portuguesa até finais dos anos 80!), quer ao nível de acções concretas de apoio aos guerrilheiros e à resistência clandestina. Foi também a Igreja a maior protecção física perante os abusos contra os direitos humanos ali perpetrados pelo regime indonésio. Além disso, parece haver nos timorenses uma religiosidade ancestral, uma espiritualidade muito própria, que encontrou na Igreja Católica respostas que fizeram com que ela se soubesse firmar tão solidamente.

A contestação ao governo começou a pretexto da legislação que pretendia tornar facultativas as aulas de Religião e Moral mas agora tem como motivo o descontentamento geral da população. Como vivem os timorenses?

Em regra, vivem muito mal, com gravíssimas dificuldades económicas (julgo que em média se vive com 50 cêntimos por dia, cerca de 85 escudos), com ainda muitas carências ao nível das necessidades mais básicas, apesar, estou convencido, dos maiores esforços de todos, do Governo e do Presidente da República. O problema é que os recursos são escassos e há toda uma história de atraso que não se apaga facilmente. Por isso, Timor continua a precisar da ajuda internacional, especialmente de Portugal. Espero que aquele povo não seja esquecido, pois já sofreu o suficiente e são, como se diz por cá, gente muito boa e que se considera da nossa família. Independentemente dos sentimentalismos, Portugal não pode esquecer que tem ali responsabilidades sérias e uma oportunidade histórica, também, na construção da sua identidade no Mundo.

Parece-lhe que o entendimento vai ser possível em breve?

Acredito que sim, se houver atenção ao essencial, agilidade e moderação, aliviando o peso do acessório. Uma solução que não apague o direito a uma formação moral e religiosa no Ensino de acordo com a expressão da vontade da maioria do povo, que é quem deve mandar numa democracia, mas que garanta a liberdade de opção religiosa de cada indivíduo e salvaguarde os direitos das minorias. Tudo depende do modelo adoptado e, tendo em conta a evidente maioria de católicos (praticantes), poder-se-ia ir para um modelo em que as aulas continuassem a constar dos “curricula”, mas abrindo a possibilidade de recusa por razões óbvias de opção diferenciada. Não estando na posse de todos os elementos e, especialmente, daquilo que é proposto pelo Governo, torna-se difícil ter uma opinião esclarecida sobre as opções de entendimento a colocar na mesa de eventual negociação. Timor é um país em transição política e social e isso obriga, na minha humilde forma de ver, a opiniões e medidas moderadas e cautelosas, assentes na realidade timorense. Oxalá sejam possíveis os passos, de parte a parte, que se exigem para que exista e se consolide a paz, tão necessária ao desenvolvimento por todos almejado. Não me parece haver outro caminho, e, estou em crer, imperará certamente uma solução de compromisso que garanta a continuidade do sucesso que o processo de edificação de um Estado Independente e Democrático estava a ser.

J.P.F.