P.e Fausto Araújo de Oliveira, ordenado em 1979, viveu os primeiros cinco anos de padre na paróquia da Glória, até 1985. Depois de passar por Albergaria-a-Velha e Ílhavo, regressou à “paróquia da Sé”. Mais do que um regresso foi um novo começo, numa comunidade que é uma “caixa de surpresas” e em que os serviços estão estruturados em pessoas que não residem no espaço geográfico da paróquia. Nesta entrevista, o pároco da Glória aponta como prioridades a Família e a Eucaristia, bem como a pastoral dos jovens. Afirma que as Festas de Verão são para manter, mas descarta o Carnaval. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.
CORREIO DO VOUGA – O P.e Fausto está há um ano na paróquia da Glória, embora já nela tivesse colaborado até 1985. Que balanço faz deste primeiro ano como pároco de uma paróquia para a qual, por ter a catedral, se olha necessariamente com mais atenção?
FAUSTO ARAÚJO DE OLIVEIRA – O facto de “dividirmos” a igreja com a diocese é obstáculo e potencialidade. Pode gerar-se uma certa confusão que não facilita o trabalho. O balanço deste ano é muito positivo, já que embora tendo algo a ver com o passado distante, esta paróquia foi uma grande novidade para mim. Neste primeiro ano – e em todos – é necessário observar para respeitar, para saber interpretar, para acertar o passo. Não venho impor passos, nem é aos 65 anos que alguém impõe o que quer que seja. Não é essa a atitude do Evangelho. Sinto que tenho de acertar o passo para acompanhar o ritmo da comunidade que sirvo. Ao fim de um ano, há sectores em que se notam alterações de substância. Globalmente estou feliz por este trabalho e pelas respostas que vão sendo dadas aos desafios que vou lançando.
A que desafios concretos se refere e em que sectores se notam alterações de substância?
Esta comunidade esteve absorvida nos últimos anos por obras, sem dúvida necessárias – eu também tenho essa experiência. As obras são necessárias, mas tiram-nos, não digo o discernimento, mas aquela serenidade e capacidade de leitura da realidade pastoral que nós devemos fazer. As obras têm encargos, trazem preocupações…
No campo da catequese, mesmo de infância e especialmente de adolescência e jovens, este ano já há frutos visíveis com catequistas e animadores não só em número mas também em quantidade. Insistimos no ano passado, pescámos à linha, cativámos o mais possível. Agora temos todos os grupos com pelo menos dois animadores ou catequistas.
Veio de uma paróquia, Ílhavo, com um sector juvenil muito forte e vemos à volta da Glória paróquias que se distinguem na pastoral da juventude. Ora, a “paróquia da Sé” não se distingue pelos jovens. Vai haver mudanças?
Não sei se vai haver mudanças. Esta paróquia, como todas, é uma caixa de surpresas.
Refere-se a quê?
Quando saí daqui, em 1985, já se notava, até porque a pastoral da cidade é sempre diferente da de ambientes mais rurais, que esta é uma comunidade mais de serviços. Mas agora estamos perante uma realidade substantiva.
Comunidade de serviços quer dizer que as pessoas de outros lados vêm pedir serviços à sua paróquia?
Não é por facilitismos que isso acontece. O que quero dizer é que esta comunidade está estruturada em pessoas que não residem cá. Há dias, vimos num encontro com quase duas dezenas adultos que se preparam para o sacramento do Crisma que apenas um ou dois residem na área da paróquia da Glória. Nenhum dos responsáveis dos animadores reside aqui. Na preparação para o Matrimónio, dos 17 pares que estiveram num encontro no final de Outubro, nenhum reside na Glória. Dos casais que orientam a preparação, só um reside na paróquia. E isto aplica-se também ao corpo de catequistas ou aos cantores que animam a liturgia. Dos 18 jovens crismados em Junho passado, quantos residiam na Glória? Três. Todos os demais eram das paróquias à volta. No encontro “Tás convocado”, com os nossos seminaristas (12 de Novembro), se não fossem os jovens de uma paróquia vizinha… Isto é uma circunstância que ainda não analisei bem, mas temos que fazer esse esforço. Onde é que estão os aveirenses da Glória? Queremos envolvê-los na dinâmica do jubileu, no próximo ano. É um dos principais desafios que vejo nesta comunidade. Julgo que os de dentro não vão para fora. Mas de fora vêm muitos. Dão-se pela paróquia da Glória, mas isto cria dificuldades na acção pastoral, na estabilidade e fidelidade.
Quer dizer que a Igreja não chega a muitos dos que residem na paróquia?
A Igreja não está a chegar ao coração dos residentes da paróquia da Glória. Sentimos que somos uma comunidade a envelhecer, que se vai demograficamente esvaindo, como acontece em quase todos os ambientes urbanos. A construção está saturada e a que existe é cara. Os filhos daqui vão para fora. Quase metade das crianças da catequese é de fora. Talvez os avós residam na Glória. Alguns pais trabalham cá. A facilidade de inscrever os filhos na escola e catequese perto do local do trabalho dos pais explicará alguma coisa. E é bom que as paróquias respondam às dificuldades que os pais sentem na educação dos filhos, até porque não sei se todas as paróquias se organizam em função das famílias. A Igreja tem de ser assim, tem de responder às solicitações da pessoa real, que bate à porta, e não ao homem inventado.
Neste regresso à Glória, passados 25 anos, as pessoas reconheceram-no?
Isso terá de perguntar a elas. Tenho a impressão que sim. Porventura sentiram algum desencanto (risos)… De facto, tenho sinais de que fui reconhecido e acolhido como sendo de casa. Não constituiu grande novidade a minha vinda para servir esta comunidade. Do ponto de vista psicológico, o ambiente era à partida favorável, compreensivo, aberto. Não sinto resistências, comparando com o período em que vivi aqui os meus primeiros cinco anos de padre. Estávamos então envolvidos num projecto que era o NIP – Nova Imagem de Paróquia. Dei a cara por ele. É um projecto pastoral com que me identifico bastante devido à sua dinâmica e progressividade, abertura e envolvência.
Considera que a paróquia poderia envolver-se de novo num projecto pastoral similar?
Não sei se não teremos que equacionar um desafio renovador, até pelo jubileu que se aproxima. Temos de reflectir para ver se é a resposta da Igreja nestas circunstâncias. As coisas não podem ser transplantadas, mas há dinamismos que perduram, enquanto outros esmoreceram e enquistaram. Então a equipa era jovem.
Hoje, sinto a paróquia com pouca identidade, sem alma. Vive-se o fenómeno do entra a sai e sai-se mais do que se entra. E os que entram estão mais soltos, sem sentido de pertença a uma comunidade. Não se enraízam, ainda que vivam com seriedade. Temos de repensar esta paróquia para amanhã. Se for só para hoje, os meus 65 estão cada vez mais gastos e as equipas sacerdotais não têm tanta capacidade de rodagem e de frescura como tinham noutros tempos.
Houve várias mudanças nas equipas sacerdotais nos últimos tempos. Qual a sua relação com o último pároco, o P.e Manuel João, que saiu em circunstâncias pouco esclarecidas?
Tinha pouca relação com ele, uma relação de vir à Sé, de pouco mais que as meras formalidades. As circunstâncias da sua saída foram dolorosas. A sua despedida não foi bem explicada. As pessoas ficaram com muita pena. Senti no espírito de algumas pessoas alguma penalização pessoal por não terem sabido ajudar e compreender. Achavam que até poderiam ter evitado esse desenlace. Foi um processo violento, áspero, de pouca informação. Ele está no Brasil, mas não transparece qualquer tipo de informação sobre o que faz, se é feliz… Há dias, foi contactado por causa da página electrónica da paróquia e respondeu prontamente. Devo dizer também que, passados uns dias de eu estar na paróquia, ele mandou um e-mail dirigido a mim, manifestando disponibilidade para qualquer tipo de informação.
Retomemos a questão das prioridades pastorais. Quais são para este ano?
Há dois pontos fortes para este ano. A importância da liturgia e a oração vêm do ano passado, já que não foram tão conseguidas. Por outro lado, temos a família e a Eucaristia. São estes os dois pontos em que vamos procurar assentar o esforço pessoal, familiar, comunitário. Queremos envolver a família no projecto catequético. A catequese é fundamental. Quando se foca demasiado a nossa atenção para determinado lado, há áreas que ficam difusas, na penumbra. Havia zonas da acção pastoral um bocado na penumbra. A envolvência da família na catequese, na liturgia, especialmente na Eucaristia, é fundamental.
A atenção à adolescência, à juventude e à pós-juventude é outra das prioridades. Mesmo a pastoral universitária. A nossa malta que vai para a universidade perde a ligação à paróquia. Não construímos comunidade se cortamos com esses jovens.
A paróquia se prepara para um grande investimento, um órgão de tubos. Quer explicar?
O processo está a andar. Há duas coisas, no campo da Rota das Catedrais [programa do governo, protocolado com a Conferência Episcopal Portuguesa, para a reabilitação física das catedrais e sua dinamização cultural], que gostava de fazer: dotar a Sé de um órgão de tubos e colocar vitrais. No entanto, como já disse ao Sr. Bispo, da Rota das Catedrais não deverá vir financiamento para isto. Mas são duas coisas prioritárias para dar alma a esta igreja e dar uma resposta da Igreja às exigências culturais…
…Grandes concertos? Apoio ao Coro da Catedral?
Estou a falar de concertos, sim, mas também para o nosso serviço normal.
Não chega reparar o órgão antigo o que já existe?
No projecto da Rota das Catedrais está previsto restauro daquele órgão histórico, o que implica, por exemplo, retirar os elementos introduzidos pelo P.e Arménio Costa, que, no fim de contas, do ponto de vista do rigor histórico, adulteraram o órgão. Há três anos falava-se de 146 mil euros para o restauro. Mas mesmo que o órgão seja restaurado, não responde verdadeiramente à necessidades do próprio espaço. Os registos que tem não fazem dele um órgão adequado. Mesmo reparado, será um órgão insuficiente para a liturgia.
O novo órgão terá de ser integralmente suportado pela paróquia?
Sim, porque não está previsto na Rota das Catedrais. Quanto aos vitrais, na esperança de que possa um dia vir algum financiamento, o projecto foi apenso no ano passado à nossa candidatura. Será um investimento da ordem dos 300 mil euros – só os vitrais.
A partir do momento em que comecei a rezar este espaço físico, convenci-me de que, para além das urgências imediatas, apenas devemos investir no órgão e nos vitrais. Na ordem do agir, o órgão é prioritário. Disse isso mesmo ao Sr. Bispo. É uma convicção tão grande em mim que me apanhou por dentro. Disse-o sem rodeios e sem preparar o ambiente. Houve pessoas que resistiram e resistem, mas quanto a isso não tenho problema.
Resistiram por pensarem que é um grande investimento em tempo de crise?
Muita da resistência virá por aí. Mas hei-de escrever sobre isso. Neste momento, o processo está em fase de propostas. Até ao dia 30 de Novembro, têm de nos chegar as propostas dos mestres organeiros. Foram contactados oito, portugueses e estrangeiros. Já nos chegaram duas propostas. Neste trabalho, confio numa “task force” constituída por Domingos Peixoto [músico; professor], António Mário [músico; maestro do Coro da Catedral], Paulo Cruz [padre; director da Escola Diocesana de Música Sacra].
São os seus consultores?
São os que tecnicamente me podem dizer o que convém. Estabeleceu-se que até 30 de Novembro as propostas devem estar cá. Até ao diz 15 de Dezembro, saber-se-á qual a proposta vencedora. Até 31 de Dezembro, deverá estar assinado o contrato porque o prazo de entrega do órgão é 30 de Setembro de 2013, de forma a estar pronto no final do ano do jubileu.
Seria uma espécie de oferta da paróquia à Diocese de Aveiro pelos seus 75 anos, no dia 11 de Dezembro de 2013?
Eu disse a D. António Francisco a minha intenção e passa por aí.
Quanto prevê que custe tal órgão?
É um órgão feito com determinados registos e potencialidades e a pensar no espaço concreto da Sé. Em princípio, tendo cerca de oito metros de altura, ficará no transepto direito, onde está o coro, encostado à parede.
Não diz o preço. Mas a paróquia tem dinheiro?
Não tem, mas tem de pensar em ter. Um dia, os órgãos de comunicação social serão convocados para iniciar um processo que financeiramente seja sustentável. Anda na ordem das centenas de milhares de euros.
A liturgia é importante. Mas nesta altura de crise, algumas pessoas poderão sempre sentir-se interrogadas sobre se realmente é a melhor ocasião para este tipo de investimentos.
Nunca as dificuldades do imediatismo nos deverão bloquear para a realização de coisas para amanhã. Este é um investimento para amanhã. E também para além de amanhã. Este tipo de investimento terá sempre algo de polémico, pela sua própria natureza. Mas uma coisa é certa: nunca me deixei bloquear pelas dificuldades do imediatismo quando queremos fazer alguma coisa de valor. Estou habituado a provocar que se façam obras sem a cobertura financeira no momento em que se iniciam.
Estamos numa terra em que o ensino da música tem um grande estatuto: na Universidade de Aveiro, no Conservatório, nas associações e bandas. A Igreja também tem de responder a estes desafios. “Nem só de pão vive o homem”. E seguramente que quando se construíram as catedrais, haveria muita fome e hoje abrimos a boca de espanto e de gratidão para com essa gente que deixou a sua vida no cinzel e na arte da pedra. Há coisas que se são avaliadas no imediato nunca temos fôlego e coragem para assumir. É uma tentação que a paróquia da Glória deve evitar. Mas em relação a isto, já pensei e rezei muito. Há cada vez mais gente a dizer que vale a pena. Não estou à espera que todos digam “amen”. Também me perguntam por que é que ainda não se fala disto… Porque há um momento certo para começar a falar e agir e a angariar fundos. A exposição mediática acontecerá quando a minha “troika” decidir que “em função das características, este é o que melhor responde”. Então avançamos. Na zona de Aveiro, não há nenhum órgão do género. Talvez o de Vagos sirva de comparação, mas tem menos potencialidades, até porque o espaço é diferente.
Como está a pastoral social na paróquia?
Mal. Recebi com tristeza, mas não estou vencido nem convencido, que a Conferência Vicentina anunciou a sua extinção com base em duas razões: não tem dinheiro e as instituições como as Florinhas do Vouga e a Cáritas esvaziam o seu campo de acção. Como resposta, de facto, institucionalmente, as Florinhas do Vouga têm uma bela e inegável resposta. O Patronato de Nossa Senhora de Fátima, em Vilar, tem uma inegável e valiosa resposta, ainda que não tão diversificada. A Conferência Vicentina de Vilar vai fazendo o que pode. A nível de serviços, temos a Rouparia Solidária, no Bairro de Santiago. Estamos a envidar esforços para vertebrá-la, com mais consistência organizativa e capacidade de resposta. Como resposta, pouco mais temos do que isto, além da ajuda pontual àqueles que nos vêm bater à porta. Há ainda o grupo de visitadores de doentes. Cada vez mais se faz sentir a sua necessidade não tanto por causa dos doentes mas da solidão. Há cada vez mais pessoas sós.
A pastoral social é um ramo que temos de organizar com respostas mais alargadas. Senti que a Conferência Vicentina podia e pode ser resposta, porque espaço de intervenção e falta de dinheiro não devem ser problema.
Há duas grandes manifestações populares promovidas pela paróquia: o Carnaval e as Festas de Verão. São para continuar?
O Carnaval surgiu como fazendo parte do plano de actividades quando a paróquia seguia um processo de renovação – o já referido NIP. Todos os meses havia uma acção significativa para vivenciar um valor proposto. O Carnaval exigiu envolvências e respondeu a um dinamismo que era preciso imprimir. Entretanto – a meu ver – deixou de ser uma acção promovida pela Igreja para ser uma acção que entrou, enfim, na normal actividade de qualquer tipo de associação. E isso não é típico da acção da igreja. Chego numa situação de fim de linha. Encontro o Carnaval exausto, sem força, sem espírito, sem grande vontade de ir à rua enquanto movimento da Igreja, como algo que a Igreja inventou para dinamizar a comunidade cristã e ajudar a vivenciar valores como a alegria, a proximidade, etc. A equipa não quis assumir o desafio de o fazer, também por razões financeiras, e eu apoiei da decisão. O Carnaval, para nós, morreu. Enquanto paróquia, não vamos tomar a iniciativa.
Com as Festas de Verão é diferente. Não vamos prescindir delas. Proporcionam convívio e, financeiramente, até dão alguns meios. São sempre em Junho, no Parque, que é um sítio óptimo. Nelas terá lugar o dia da comunidade paroquial como momento culminante do ponto de vista religioso da proposta que queremos viver todos os anos. As Festas não nos custam muito, não há investimento a não ser físico e anímico. Vamos, contudo, rever os aspectos culturais da animação nocturna dos sábados. A integração do dia da comunidade nas Festas de Verão é uma mais-valia que nos faz sempre pautar as coisas por outro tipo de valores que não penas a mera diversão de arraial. Temos sempre de repensar, avaliar, inventar.
Mais uma vez o P.e Fausto pensa no futuro. É uma preocupação constante olhar para além do hoje?
Não sou um homem de corridas fortes, de 100 metros. Sou mais de maratonas. Passo a passo com a consistência necessária e com alguma ousadia.
