O que diz José Rui Teixeira, poeta, professor da Universidade Católica Portuguesa (UCP), responsável da editora da UCP-Porto, abriu a Semana da Cultura e Identidade Cristã, na noite de segunda-feira, 4 de Abril. Falou-se de literatura cristã e principalmente de Chesterton, um escritor e apologista católico inglês do início do séc. XX. Este tema esteve inicialmente previsto para o segundo dia desta iniciativa promovida pelo Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro (ISCRA). Por motivos de saúde, o primeiro conferencista, Henrique Manuel Pereira, pediu o adiamento da sua comunicação de segunda para terça-feira, devendo ter falado ontem à noite. Resumo de Jorge Pires Ferreira.
À volta de textos
As comunidades cristãs organizam a sua vida à volta de textos. A literatura cristã é polifónica: poesia, teatro, romance, ensaio e até policial. Com dois mil anos de existência, é impossível fazer uma mera enumeração dos seus géneros, autores e obras.
Literatura cristã?
Há uma pergunta base a fazer: O que entendemos por literatura cristã? Há três grandes possibilidades de resposta: 1) a literatura de contexto, autores e finalidades cristãs, como sejam os textos litúrgicos, cartas, ensaios de teologia, etc. Mas há muita produção cristã que não é literatura. 2) obras de autores que se consideram cristãos, mesmo que não estritamente confessionais; 3) obras de autores que podendo não ser cristãos são passíveis de serem interpretadas à luz da mundividência cristã.
Mudança no séc. XIX
Até ao séc. XIX as gráficas estavam cheias de textos claramente cristãos: livros litúrgicos; vidas de santos; pagelas. No séc. XIX dá-se uma mudança de registo. Os autores deixam a ortodoxia e a subordinação hierárquica, mas interessam-se pela questão humana. Por vezes a literatura é anticlerical, mas quase sempre na procura do verdadeiro cristianismo, com uma mundividência cristã de fundo. Pensemos em Guerra Junqueiro. Distancia-se da Igreja para a confrontar com o pensamento de Cristo e os Evangelhos.
Entra o humano
Nos séculos XIX e XX há autores que na busca do humano e da inteligibilidade da morte colocam a questão cristã: Dostoiévski, Bernanos, Shusaku Endo, entre outros. Nos tempos mais recentes, como mero exemplo, salienta-se Daniel Faria, poeta apreciado fora dos círculos católicos que morreu aos 28 anos, em 1999, quando vivia no mosteiro beneditino de Singeverga.
Chesterton
Gilbert Keith Chesterton (1874 – 1936), autor de “O Homem Eterno”, “Ortodoxia”, “Disparates do mundo”, “O homem que era quinta-feira” e da série de livros sobre o Padre Brown, detective, exprimiu-se em vários géneros, foi jornalista. Era um polemista exímio, com paixão, mas sem ódios. Acutilante, mas com cordialidade e simpatia.
Pecados
Quando perguntaram a Chesterton por que é que se converteu ao catolicismo (em 1922), respondeu: “Para me libertar dos meus pecados”. Considerava a coisa mais inusitada ser perdoado.
Razão desprezada
Chesterton considerava que cada geração era convertida precisamente pelo santo que desprezava. No seu tempo, que ainda é o nosso, como a razão é o que há de mais desprezado, o santo que nos pode converter é Tomás de Aquino, que soube equilibrar fé e razão. Hoje, quando temos modelos de pensamento formatado, Chesterton pode estimular o reordenamento das ideias.
Inquietações filosóficas e teológicas
A literatura portuguesa, de Herculano (que tanto foi anticlerical como criticou a expulsão das ordens religiosas dizendo que em Portugal os sábios andavam a pedir de porta em porta) a Florbela Espanca (autora quase mística que, põe fim à sua vida, suicidando-se), de Virgílio Ferreira a Saramago, está cheia de interrogações. A inquietação religiosa é inerente à inquietação literária, ainda que muitas vezes se distancie da matriz cristã. Teixeira de Pascoaes talvez seja o poeta português mais religioso do séc. XX, sendo gnóstico. À sombra do Marão, todo o seu mundo é altamente espiritualizado. Em Portugal, faz-se teologia e filosofia com a literatura. Com raríssimas excepções, os filósofos portugueses são filósofos sem filosofia mas com literatura.
Frases de G. K. Chesterton
Quem acende uma luz é o primeiro a beneficiar da claridade.
Sou homem e, por conseguinte, trago todos os demónios no meu coração.
Os homens que realmente acreditam em si mesmos estão todos em asilos de loucos.
Louco não é o homem que perdeu a razão. Louco é o homem que perdeu tudo menos a razão.
Há grandes homens que fazem com que todos se sintam pequenos. Mas o verdadeiro grande homem é aquele que faz com que todos se sintam grandes.
Não é que eles não possam ver a solução. É que eles não conseguem ver o problema.
