Ecos das jornadas de formação permanente do Clero, que decorreram de 14 a 17 de Fevereiro na Casa Diocesana, Albergaria-a-Velha.
D. António Francisco dos Santos, bispo de Aveiro deu início às jornadas de formação permanente do clero desta Diocese, saudando os mais de sessenta, padres e diáconos com as palavras de S. Paulo: “Exorto-te a que reanimes o dom de Deus que há em ti” (2Tim 1,6) e que a exortação apostólica “Pastores dabo Vobis” (PdV) aplica à formação permanente do clero. Estas jornadas decorreram na Casa Diocesana em Albergaria entre os dias 14-17 de Fevereiro e tiveram como tema central: “A liturgia fonte e cume de toda a vida cristã”.
Liturgia, evangelização e caridade. No primeiro dia, coube ao P.e Dr. António Cabecinhas levar os ouvintes a recordarem que liturgia não é, essencialmente, o culto que prestamos a Deus, mas sempre iniciativa de Deus a motivar a resposta do homem. Assim sendo, a liturgia situa-se entre a três grandes acções da Igreja a juntar à evangelização e à caridade, embora ela seja o centro donde tudo promana e para onde tudo se dirige: “fons et culmen” que, apesar de tudo, “não esgota toda a acção da Igreja (SC9)”. Aliás, esta relação entre as três já estava presente no mandato do Senhor aos Apóstolos: “Ide, fazei discípulos e baptizai-os…”. Concretamente, entre evangelização–liturgia, elas são inseparáveis e fundamentais na vida da Igreja, chegando mesmo a falar-se de uma liturgia de implosão – quando nos centramos em Cristo – e deu um exemplo: “Fazei isto em memória de Mim”. E na liturgia de explosão, quando nos dispersa para anunciar o Reino. E a concluir esta relação acrescentou: “…quando a liturgia se separa da evangelização, fica vazia; mas quando a evangelização se separar da Liturgia, aquela reduz-se a mera propaganda”. E quanto à relação liturgia–caridade, depois de aludir a alguns textos bíblicos, concluiu com duas citações: uma de S. João Crisóstomo quando afirma que “…não é possível honrar o Corpo de Cristo na Eucaristia e desprezá-lo na pessoa do pobre”. E outra de um autor mais recente, que afirma: “O grande cisma do Cristianismo é o divórcio entre o sacramento do altar e o sacramento do irmão”. Em jeito de conclusão disse o P.e Carlos: “…são realidades fundamentais da Igreja. Esta necessita das três e elas necessitam-se mutuamente”.
De tarde e, pela mão do mesmo professor, percorremos a Instrução Geral do Missal Romano, tentando compreendê-la para melhor captarmos a “arte de celebrar”, expressão consagrada pelo papa Bento XVI e que consiste na “fiel observância às norma litúrgicas”. Esta arte de celebrar, sendo de toda a assembleia, tem no Presidente alguém que não só representa Jesus Cristo cabeça mas também actua em nome da Igreja.
Celebrar e sentir. Estava dado o mote para o segundo dia com o monge beneditino P.e Doutor Bernardino Ferreira da Costa que partiu do documento “Sacrossanctum Concilium” (SC) para nos falar da “Liturgia na sua perspectiva teológica e pastoral”, centrando-a na Eucaristia como ponto alto de encontro dos gestos e das palavras de Jesus para depois nos introduzir na “Liturgia como matriz da oração cristã”. E aqui convidava a assembleia a uma liturgia mais interior e contemplativa, séria, simples e bela, cheia de respeito perante Deus e os outros onde todos os sentidos, palavra e gestos, estejam ao serviço da mesma oração. Por outro lado fez sobressair a importância da figura do Presidente da celebração e afirmou a complexidade do seu papel: “…saúda a assembleia em nome de Cristo que convoca, invoca o seu pecado, mas pede perdão; escuta a palavra, mas explica-a; professa a sua fé, mas também pergunta: credes em um só Deus?” E concluiu: “Ele não é apenas homem de oração, mas servo da oração da Igreja”. Este tema levou-nos à terceira conferência: “Celebrar e sentir”, onde pôs em realce a complexidade da palavra, do rito e no sacramento (ex. A palavra que se vê no Evangeliário); a importância do corpo e da natureza como berço da vida, tal como os sacramentos.
Tudo isto criou nos participantes uma vontade de parar para reflectir e partilhar o caminho andado nas nossas comunidades e, sobretudo, o que havia e há para andar. Essa vontade foi partilhada no trabalho de grupos que reuniu os arciprestados e pôs em diálogo padres e diáconos. Do Plenário podemos concluir que o padre não é o centro da celebração. Esse lugar compete a Jesus Cristo. Mas também não é mero funcionário do sagrado. A necessidade de uma formação litúrgica nas comunidades deverá levar à criação de uma Equipa de Liturgia e a valorizar os vários ministérios que existem na Igreja.
Formas de oração. O terceiro dia levou-nos a reflectir sobre algumas das formas de oração existentes na Igreja, a começar pelas orações eucarísticas de que o Cânone Romano é a grande oração de súplica e com ele as restantes anáforas e orações consacratórias que a Igreja, hoje, nos apresenta. Coube essa tarefa ao P.e Dr. Francisco Couto, pároco de Elvas (Diocese de Évora). Depois de expor os elementos essenciais da oração eucarística, abordou, na sua bonita e cativante exposição, as missas dos pequenos grupos e sublinhou, mais uma vez, a riqueza dos sinais e dos símbolos, dizendo: “A linguagem simbólica é aquela que permite entrar numa realidade que é inacessível, adorar a Deus e torná-lo presente na vida dos crentes. Daí o cuidado a ter em tantos símbolos usados que já não significam ou significam, apenas, para um pequeno grupo ou mais ainda, apenas distraem.”
Completámos este quadro da parte da tarde ao sermos confrontados com outras formas de oração que nos foram apresentadas, como são as Oficinas de Oração, movimento que tem como fundador o P.e Inácio Larrañaga; o chamado Retiro Popular em uso na Diocese de Leiria, a Oração de Taizé e o Acolhimento às Famílias que vivem o momento da morte, uma experiência da Diocese de Coimbra.
Religiosidade popular. A concluir as jornadas de estudos, o P.e Luís Manuel Pereira da Silva, da Diocese de Lisboa, procurou relacionar a liturgia e a religiosidade popular. Recordou o Directório da religiosidade popular e liturgia e os aspectos fundamentais para uma boa harmonia nesta relação. Explanou primeiramente de que modo a liturgia é a fonte e meta na vida da Igreja, apontando para isso algumas das grandes afirmações do Concílio Vaticano II sobre a liturgia: a centralidade e celebração do mistério pascal de Cristo; a liturgia como história da salvação em acto, como presença e acção de Cristo e acção da Igreja; a liturgia como participação antecipada da liturgia da Glória e para a santificação dos homens. A religiosidade popular, nas suas diversas manifestações de piedade e devoção, deve obedecer a alguns critérios para ser correctamente vivida:
– Considerar sempre a referência à Eucaristia e dela dimanar. Esta realidade torna sempre presente e conservado o mistério pascal de Jesus Cristo;
– Salvaguardar o mistério pascal de Cristo. A religiosidade popular prepara para a celebração da eucaristia enquanto é conversão interior que o sacramento realiza e opera;
– Sensibilidade ao ano litúrgico: A religiosidade popular prolonga a vida interior e espiritual na medida em que prolonga e actualiza a graça acolhida.
– Veneração à Mãe de Deus como primícias do mistério pascal de Cristo.
Em conclusão, o P.e Luís Manuel acentuou a necessidade de, na vida pastoral, se ajudar a uma correcta harmonia entre a devoção e a liturgia, mas também para os perigos quando existe uma dissociação destas duas realidades, fazendo assim ofuscar o centro que é o Mistério Pascal de Cristo.
E foi com a Eucaristia presidida pelo nosso Bispo e concelebrada por todos os padres e diáconos que encerrámos estas jornadas de formação dando graças ao Senhor por tudo aquilo que vivemos e aprendemos ao longo destes dias.
P.e Manuel Joaquim Rocha
