“A maioria dos centros sociais corresponde a um activismo que só desgasta a Igreja”

D. Carlos de Azevedo defende que as obras sociais da Igreja têm de ser repensadas com ousadia. Surgiram numa época “em que não havia nada, mas agora acabam por ser uma super-estrutura que desgasta o clero, desgasta os padres e não tem uma qualidade de intervenção que o justifique”, afirma.

O Bispo auxiliar de Lisboa e porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa conversou com o Correio do Vouga, antes de reflectir com os padres e diáconos de Aveiro sobre “Tradição e inovação no agir social da Igreja” (notícia na pág. 6).

Correio do Vouga – Podemos saber o que vai dizer [na tarde de 16 de Janeiro] aos padres e diáconos da Diocese de Aveiro?

D. Carlos de Azevedo – Vou lançar alguns desafios, a partir de algumas figuras que tiveram a capacidade de inventar para a sua época um modo de responder à evangelização e ao mesmo tempo à pobreza e às questões sociais. Vou dizer que é possível termos a ousadia para também nesta época intervir-mos na realidade.

Quais são esses desafios?

O primeiro é, exactamente, intervir. Não intervir é pecado. Perante as questões sociais e a pobreza que as comunidades paroquiais e as dioceses enfrentam – e elas vão piorar nos próximos tempos –, temos que intervir. Agora, a nossa intervenção deve situar-se a partir de uma mística. Não é uma intervenção qualquer. É uma intervenção que tem uma radicalidade, fruto de uma experiência de fé. É essa a novidade e especificidade do nosso tipo de intervenção. Outro elemento é que a nossa intervenção social deve ser ajudar as pessoas a partir de dentro. Esse é também o modo de Jesus actuar e intervir para mudar a sociedade.

“A partir de dentro” o que quer dizer?

Quer dizer isto: se vamos ajudar uma pessoa que tem um limite ou que vive numa situação de pobreza, podemos resolver o problema dando-lhe uma esmola. Mas isso não resolve nada. Não passa de uma solução momentânea. Temos que ajudar a pessoa a, ela própria, encontrar mecanismos de autonomia, soluções para si própria. E esse é o modo de Jesus actuar. Jesus implicava as pessoas nas soluções para a sua própria vida. Isso é muito mais exigente e faz quase desesperar ante algumas situações, mas deve ser a nossa pedagogia. O futuro exige que ajudemos as pessoas a partir de dentro, para depois elas encontrarem soluções para as suas questões sociais, profissionais, de inserção na comunidade.

Referiu modelos que souberam assumir novas práticas de caridade. Quais são?

Vou pegar em cinco modelos, começando por São Martinho de Tours, que é o primeiro santo não mártir e que ficou célebre pelo gesto de rasgar a capa para dar ao pobre. Foi alguém que conciliou perfeitamente a evangelização com a acção social. Foi um pastor que evangelizou os campos, que na altura eram pagãos, no séc. IV-V. Soube não só encontrar pão da Palavra que matasse a fome, no sentido espiritual, como também ajudar as pessoas que viviam mal a encontrar soluções para viverem de outro modo.

S. Francisco de Assis é outro modo, outro jeito, outra invenção para solucionar problemas noutra época, na mudança do campo para a cidade, quando aparece o fenómeno urbano. Ele é capaz de responder com novidade do ponto de vista espiritual à burguesia e às cidades.

S. Vicente de Paulo, numa época de crise e carestia que foi o séc. XVII e nos campos de França que estavam por evangelizar, concilia a evangelização com a organização de formas que atendessem à realidade social.

Finalmente, Madre Teresa de Calcutá, que, já no nosso tempo, consegue aliar a mística, uma grande espiritualidade e uma presença forte junto dos pobres.

Falta um modelo…

S. Basílio Magno, o segundo destes que referi em termos temporais. Foi um grande Padre da Igreja, capaz de atender à realidade da doença. Criou a “basílide”, que era uma cidade hospitalar com diferentes blocos para as várias doenças – uma antevisão do que serão os grandes hospitais. Era um homem de teologia, um homem da reflexão. Criou uma regra de vida espiritual e atendeu à realidade social. Fez esta ponte tão necessária hoje entre a espiritualidade muito forte e a intervenção social. Quem faz isso é capaz de perceber que é preciso partir de dentro e é capaz de ter ousadia nas intervenções.

Ousadia como?

A maioria dos centros sociais que nós temos acaba por corresponder a um activismo social da Igreja, que só a desgasta e não a faz fiel à sua missão.

É uma crítica forte aos centros sociais…

Eles organizaram-se numa época em que não havia nada, mas agora acabam por ser uma super-estrutura que desgasta o clero, que desgasta os padres, e não tem uma qualidade de intervenção que o justifique. As acções sociais da Igreja devem ser de grande qualidade. E, se tiverem grande qualidade, não precisam de viver à custa de subsídios do Estado.

Mas o Estado tem obrigações sociais…

Certamente, mas não podemos ficar dependentes da oscilação de partidos favoráveis ou desfavoráveis, ou de certas políticas. Temos de ter liberdade, porque a caridade nin-guém a pode impedir. A caridade como nós a temos, institucionalizada, de determinado modelo, parece que fica impedida pelos tipos de política reinante. Nunca foi assim e acho que é necessário criar liberdade para não ser assim.

Que iniciativas conhece nesta área que considere inovadoras em sentido genuinamente cristão?

Há boas práticas, por exemplo, ao nível do ensino que procura integrar crianças com dificuldades de ordem social, portadoras de deficiência, marginalizadas, e lhes dá capacidade de encontrar vias para a sua própria vida. O que o Pe Américo fez no seu tempo a nível das crianças da Obra da Rua, há hoje quem faça em bairros sociais, sobretudo algumas congregações religiosas. Há pequeninas experiências muito positivas do trabalho difícil e persistente, que envolve pais, às vezes só o pai ou só a mãe dessas famílias muito esquisitas que perturbam o crescimento das crianças. Na terceira idade, há experiências inovadoras em lares, incluindo o apoio ao domicílio, que é um modo mais capaz de respeitar o sítio onde a pessoa sempre se habituou a viver. Há experiências verdadeiramente inovadoras que atendem à totalidade da pessoa e não estão dependentes dos subsídios ou apoios do Estado. A independência será um caminho necessário no futuro, tal como a qualidade nas acções sociais. Quer com gente do mundo da droga, como o Projecto Homem, em Braga, quer na questão dos deficientes, com o Movimento Fé e Luz, há um leque de experiências que revelam ousadia e criatividade.

Como comenta as notícias de ontem [15 de Janeiro] que dizem que o Papa cancelou a visita à Universidade La Sapienza (ver notícia na pág. 7)?

Penso que isso é um sinal dos nossos tempos na Europa, onde se acusou tantas vezes e ainda se acusa, olhando sempre para o passado, a intolerância da Igreja. Vemos que essa intolerância agora é devolvida. Agora, são eles próprios intolerantes, ao não quererem ouvir uma palavra diferente, que certamente seria a do Papa. Que haja professores e alunos que não querem o Papa lá, parece-me que é um sinal de como o ateísmo, um novo ateísmo, está a crescer. Ouvir profetas, dos poucos profetas que hoje o mundo tem, começa a ser incómodo para algumas pessoas que não se querem confrontar com a pluralidade.

Antes desta nossa conversa, um padre de Aveiro, conversando consigo, sugeria que D. Carlos ia transmitir aos padres a reprimenda ou puxão de orelhas que o Papa deu aos bispos portugueses na visita “ad limina”… Como comenta?

Essa expressão do “puxão de orelhas”, usada por um jornalista e depois repetida, não tem razão de ser. O Papa não tem uma relação com os bispos como um chefe político. A relação é de irmão. E, portanto, ele sentiu os nossos apelos e as nossas preocupações e fez eco dessas nossas preocupações. Como que devolveu no seu discurso as nossas próprias inquietações. É nesse sentido que deve ser tomado. Não como um raspanete. A expressão portuguesa com que o disse pode dar algum aso a isso, mas não é essa a intenção.

Mas há recados a transmitir?

O Papa assume aquilo que alguns relatórios das dioceses diziam: que a corresponsabilidade laical é ainda um elemento muito no discurso e pouco na prática, como é que os leigos intervêm e fazem parte das decisões da Igreja, como é vivido o valor da comunhão, como é transmitida a fé e a necessidade de rever a iniciação cristã (que foi uma preocupação da Conferência Episcopal ao longo dos três anos que terminam agora em Abril), o apelo a que a Igreja não se preocupe em falar de si mesma, mas antes em falar de Deus…

Numa reunião que a Conferência teve em Roma, os bispos reflectiram sobre os grandes desafios da Igreja em Portugal nos próprios cinco anos, na perspectiva da próxima visita “ad limina”. Alguns deles foram depois ditos pelo Papa no seu discurso. Não há novidade nem puxão de orelhas. Há uma comunhão com as nossas aspirações e preocupações.

Nos próximos cincos anos, quais são as prioridades? Foi sugerido um plano pastoral nacional. É para avançar?

Isso não será possível. Cada diocese tem os seus próprios programas e tem as suas próprias dificuldades e contextos. Falou-se, sim, de “uma acção conjunta”. Está por definir e por organizar. Uma acção conjunta que todas as dioceses possam assumir e que depois cada uma concretizará com as suas potencialidade e nos seus contextos. Isso não é um plano pastoral. É uma acção, como houve outras ao longo dos tempos. Mas ainda não está visto o quê e o como. Levantaram-se várias hipóteses. Na próxima assembleia dos bispos, em Abril, esperamos concretizar essas perspectivas lançadas em Roma. Vamos debater os caminhos pastorais que se adivinham para Portugal nos próximos tempos.